• Home
  • |
  • Sobre a Autora
  • |
  • Livros
  • |
  • Vídeos
  • |
  • Agenda
  • |
  • Parceiros
  • |
  • Contato
  • O agente - Capítulo 10 e 11


    Capítulo 10


    Gisele Alencar

    Eu tive uma noite infernal, mas a pior parte já havia passado, pelo menos assim, eu acreditei. Encontrei minha mãe consciente em seu quarto de hospital. Ela alegou firmemente que só tinha exagerado nos comprimidos e não teve a intenção de se suicidar, preferi acreditar que ela dizia a verdade.
    Fizeram uma lavagem estomacal e o médico preferiu deixá-la em observação pelo resto da noite. Saímos bem cedo do hospital, pois mamãe alegava não suportar nem mais um minuto ali. Liguei para Rosana e pedi que nosso motorista viesse nos buscar. Ela nos esperava na porta e com um leve movimento de cabeça, respondeu a minha pergunta silenciosa se meu pai tinha retornado as ligações dela.
    Eu tinha ligado da recepção do hospital porque na presa de sair de casa, esqueci novamente o carregador do celular. Assim como Rosana, minhas tentativas de falar com papai foram frustradas.
    Onde ele teria se enfiado? Ou o pior. O que estava fazendo e com quem?
    — O Pedro irá te levar para o quarto — informo a minha mãe, assim que o motorista a tira da cadeira de rodas — Rosana deixou tudo preparado para recebê-la.
    Entre vigiar minha mãe dormindo e atender aos pedidos dela quando acordava no meio da noite eu pensava em Leonardo. Ele deveria estar muito zangado por não ter voltado e nem avisado que não poderia ir. Talvez fosse melhor assim. Isso só poderia ser um aviso de que eu estava sonhando acordada.
    — Eu não estou invalida Gisele — disse minha mãe ficando de pé — Eu preciso falar com você.
    Apesar de ter a pele um pouco acinzentada e suas mãos um pouco trêmulas enquanto a retorcia, a voz dela esta surpreendentemente firme.
    — Venha comigo até o escritório.
    Dispensei Rosana e Pedro para cuidarem de seus afazeres e acompanhei minha mãe até o escritório do meu pai. Esse era um lugar proibido desde que eu era criança. Era como um santuário para meu pai.
    — Luís tem uma amante. — disse ela ao ocupar a cadeira dele.
    Abri minha boca, mas antes que pudesse emitir até mesmo um suspiro, mamãe ergueu a mão fazendo com que eu ficasse calada.
    — Antes que você diga que é coisa da minha cabeça, a jovem esteve aqui ontem de manhã com o filho dela... — lábios de minha mãe tremeram e vi seus olhos enxerem de lágrimas — Com o filho dela. Ou deles, como ela prefere ostentar.
    Rosana tinha falado sobre a visita e aquela conclusão tinha chegado a minha cabeça. O que eu não quis foi acreditar, como todo o resto envolvendo meu pai.
    De quantas formas diferentes uma pessoa é capaz de nos decepcionar?
     — Ele sempre quis um menino... — disse ela, mais para si mesmo, mas aquilo foi como uma punhalada em meu peito — Seu pai abandonou a gente Gisele.
    Ela escondeu o rosto nas mãos e chorou baixinho. Eu preferia mil vezes que mamãe estivesse gritando e atirando as coisas como das outras vezes. E me sentia igualmente arrasada e impotente.
    — Mas não foi para contar isso que eu chamei você — ela secou os olhos e me encarou com tristeza e vergonha — Seu pai andou fazendo coisas que não deveria. Muitas coisas, aliás.
    — Você estava ciente de tudo?
    Ela baixou o olhar, mexendo com o esmalte nos dedos.
    — Não julgue antes de saber tudo — voltou a me olhar, um pouco petulante dessa vez — As empresas não iam bem desde o tempo do seu avô. A crise pegou a gente também. Seu pai devia muito.
    Fiquei de pé, não conseguindo ouvir calada tudo aquilo.
    — Então ele entrou para politica... — cuspi as palavras como se elas fossem veneno saindo da minha boca — E depois cometeu todos os tipos de crimes. Como aceitou isso mamãe?
    — Eu pensava em você. O que seria de nós duas? Da nossa família? — embora eu detectasse a angustia na voz dela, não era o suficiente para aceitar o caminho que meus pais tivessem escolhido — Não sei fazer nada além de ser mãe e esposa. Passei toda a minha vida em função de seu pai, depois de vocês dois. E o que aconteceria com minha filha? Ir para um colégio público? Dar adeus a todos os planos que sonhei para você.
    — Eu preferia mil vezes uma escola pública e uma vida modesta do que carregar a vergonha que tenho agora. Como você não viu que tudo isso era errado, mamãe?
    — Como você não via? — Ela me devolveu a pergunta — Seu pai me dizia que estava tudo bem. Que sabia o que estava fazendo. Que eram medidas provisórias. E que eu deveria confiar nele. Ele era o meu marido. Só queria cuidar da esposa e da filha.
    — Bom, pelo visto ele mentiu! — Não consegui evitar me exaltar com ela — Mentiu o tempo todo e nos deixou sozinhas para enfrentar tudo isso. Você pode ser presa mamãe.
    — Eu sei... — disse ela em tom lamentoso.
    — Ele disse que poderia fugir e deve ter feito isso — minha mente começou a trabalhar rapidamente — Fugiu com a amante e nos deixou sozinhas.
    Ele deixou a esposa e a filha para trás para que limpassem sozinhas toda a sujeira que ele deixou para trás.
    — Eu sei...
    Eu queria sacudi-la e dizer que ela não tinha a mínima ideia do que poderia acontecer, mas eu precisava manter a cabeça fria e fazer com que ela me contasse tudo o que ela sabia. Todas as ações criminosas do meu pai. Talvez se colaborássemos com a justiça, delatando todos os envolvidos, conseguíssemos sair menos prejudicadas possível dessa situação.
    — Até onde você está envolvida? — voltei a me sentar — Até onde eu estou envolvida, mamãe?
    Ela não conseguia me encarar e eu ficava cada vez mais nervosa. Eu tinha que encarar os fatos, minha vida estava completamente arruinada.
    — Assinei muitas coisas — disse ela com a voz trêmula — Não sei o que era tudo.
    — Assim como eu fiz.
    — Não filha! — Ela negou enfaticamente com a cabeça — Fiz seu pai prometer que não comprometeria você a nada. Você só assinou escrituras de algumas propriedades e movimentação de uma conta fora do país, caso um dia...
    — Ah, mamãe! — disse exaltada.
    Eu deveria contestar a ingenuidade dela, mas também tinha preferido, mesmo que inconscientemente fechar os meus olhos. Propriedades e dinheiro em algum paraíso discal proveniente de forma ilícita me tornavam tão criminosa quanto o meu pai. Talvez em um grau menos elevado se conseguisse provar que tinha sido apenas usada como laranja pelo meu próprio pai, mas quem acreditaria nisso se ele não dissesse com os seus próprios lábios? E nesse momento ele deveria estar bem longe curtindo a liberdade com sua amante.
    — Precisamos de um advogado — informo a ela — Nenhum que tenha trabalhado com o papai. Talvez o pai da Luana possa nos ajudar. E também precisamos ir a policia.
    Minha mãe engoliu um soluço, mas assentiu.
    — Erámos nós que deveríamos estar com ele agora — ela se lamentou — Como ele fez isso com a gente Gisele?
    — Sua preocupação não é que ele seja um criminoso — revolto-me com ela — Mas que ele tenha fugido com a amante?
    Diante das minhas palavras duras, mas necessárias ela voltou a chorar.
    — O que nossos amigos vão dizer...
    Pessoas como os meus pais não tinham amigos, tinha aliados e claro que cada um deles saltaria do barco quando ele começasse a afundar. Eu não conseguia compreender como ela não via a real gravidade da situação. Não importava o que as pessoas poderiam pensar de nós, mas sim o que elas faria. Virariam as costas no momento que mais precisaríamos delas. E não poderíamos culpar ninguém. Quem gostaria de ter o nome envolvido com uma família, cujo nome chafurdava na lama?
    Infelizmente essa pergunta ainda não seria respondida. Rosana entrou no escritório, ainda mais pálida do que minha mãe quando a tirei do hospital.
    — Senhorita Gisele?
    Imaginei que fosse algo relacionado ao meu pai. Talvez a consciência tivesse falado com ele e entrou em contato. Levantei rapidamente e arrastei Rosana para fora.
    — Meu pai ligou? — indaguei assim que fechei a porta.
    — Não senhorita... — ela parecia atordoada — É a policia. Dizem que tem um mandando para entrar.
    Senti minhas pernas vacilarem e Rosana segurou o meu braço. Apoiei minhas costas na parede para me manter em pé.
    — E tem mais uma coisa... — murmurou olhando para o chão — O Sr. Alencar esta no Jornal. Diz que ele foi preso ontem a noite, tentando sair do país.
    Dizem que quando a gente passa por uma experiência de quase morte, o nosso espirito é capaz de sair do corpo por um momento. Eu me senti exatamente assim, como se minha alma estivesse abandonando meu corpo e ficasse apenas uma casca vazia.
    — Senhorita Gisele...
     Voltei ao meu estado consciente. Perder a cabeça e me desesperar não adiantaria de nada. Eu tinha que enfrentar a realidade.
    — Onde eles estão?
    — Na porta. Pedro e o Pereira estão falando com eles, mas é a policia e dizem que vão entrar.
    — Se eles têm um mandado, podem fazer isso — disse a ela e seguimos em direção à sala onde um grupo de policias entrava.
    Rapidamente se espalharam pela casa. O segurança e o motorista vieram até mim, tentando se desculpar. Não lembro exatamente o que disse a eles. Algo como: não era culpa deles e que podiam retornar aos seus trabalhos.
    — Senhora Alencar? — um agente federal carrancudo veio até mim com um papel nas mãos.
    — Gisele Alencar — respondi quando me entregou a folha — Sou a filha da Sra. Alencar.
     — Temos um mandado de busca e...
    O agente, do qual não lembro o nome, explicou rapidamente o que estavam fazendo em minha casa e que eles iriam revirá-la de cima a baixo em busca de provas que incriminassem o meu pai e que eu o qualquer pessoa da casa estávamos impedidos de tentar obstruir o trabalho da polícia. Eu só conseguia olhar para a pilha de jornal que meu pai assinava, em cima da mesa de jantar.
    Ele estampava a primeira capa, com um resumo dos seus crimes e a matéria completa na página 2.
    — Gisele? — virei para minha mãe que vinha do escritório — O que está acontecendo? Quem são esses homens?
    — São da polícia — caminhei até ela e entreguei o jornal, mantendo o mandato comigo — Papai foi preso.
    Eu vi um vislumbre de alivio passando pelo rosto dela. De certa forma era bom que meu pai estivesse preso e não fugitivo. Ele poderia confessar que (minha mãe não completamente) e eu, tínhamos sido apenas um joguete nas mãos dele. Ele nos devia isso depois de tudo o que fez.
    ***
    Eu tinha acabado de sair do meu quarto, onde alguns oficiais reviravam tudo. Duvidava que meu pai tivesse deixado alguma prova incriminatória ali, mas os oficiais estavam apenas fazendo o trabalho deles.
    — A senhora Alencar disse que não é para deixar os senhores entrarem — ouvi uma  discussão entre uma das empregadas e o agente no corredor.
    — Desculpe senhora, mas sua patroa não tem o poder de decidir nada — disse ele, afastando-a bruscamente para que pudesse entrar.
    A mulher se desequilibrou e bateu com as costas na parede.
    — O senhor precisa ser tão rude? — olhei ferozmente para ele antes de me colocar ao lado dela.
    Ele me olhou de cima a baixo e, diferente dos demais agentes rondando pela casa, eu não gostei nada da forma como me encarava.
    — Srta. Alencar, eu presumo.
    — Sim — empinei o queixo.
    — Acho melhor você descer, o agente Ventura quer trocar algumas palavras com você.
    Ignorei o olhar debochado que ele me dava e verifiquei se a empregada estava bem antes de dispensá-la e seguir para o andar debaixo. A cada minuto, tendo minha casa, o lar onde cresci e morei até a fase adulta ser invadida e revirada causava mais dor e tristeza a mim.
    — Não podem fazer isso! — ouvi minha mãe berrar assim que cheguei ao topo da escada — Quero falar com o meu advogado.
    — Senhora, eu já disse que pode falar com seu advogado... — ouvi o agente falar
    Caminho rapidamente até eles no fim da escada. O mulato alto e musculoso parecia estar perdendo a pouca paciência com ela e eu conhecia minha mãe o suficiente para saber que conseguia ser especialista nisso.
    — Mamãe, eles só estão fazendo o trabalho deles — digo ao me colocar ao seu lado — Já conversamos sobre isso.
    Dificultar o trabalho da polícia não iria nos ajudar em nada.
    — Senhorita Alencar, certo? Sou o agente Rodrigues e aquele é o agente Ventura — ele deu um sorriso amigável e apontou para alguém às minhas costas — E eu dizia a sua mãe que...
    Enquanto ele falava, senti o olhar sobre mim. E senti como se um arrepio intenso varresse a minha pele ao mesmo tempo em que parecia que minhas costas pegavam fogo. Não era bem uma sensação física. Estava mais para um pressentimento forte de que assim que eu me virasse toda a minha vida iria mudar.
    — Esses homens não têm um pingo de respeito por duas mulheres indefesas... — ouvia o lamentar de minha se distanciar, como um sussurro baixinho conforme eu me virava.
    Foi como se a sala de repente tivesse ficado silenciosa. Como se as pessoa a minha volta congelassem no lugar. E então eu encontrei seu olhar. Tão surpreso e estarrecido como o meu estava.
    Dei dois passos vacilantes em direção onde ele estava. Próximo à janela, segurando um porta-retratos em suas mãos.  Eu conhecia aquele retrato. Nele estava eu e meus pais em uma viagem de férias há três anos.
    — Gisele? — disse ele, friamente.
    Ao mesmo tempo em que meu coração se alegrava em vê-lo. Em tê-lo a poucos metros de mim, a gravidade e realidade da situação caiu sobre mim como um meteoro destruindo tudo. Meus olhos o varreram do uniforme escuro até o olhar de desprezo sobre mim.
    Leonardo era da policia e eu era nada mais que a filha de um bandido.
    — Leonardo... — balbuciei fracamente.
    Sentindo meu coração começar a se partir.


    Capítulo 11


    Leonardo Ventura

    A fotografia que encontrei ao lado de outras em uma prateleira era prova suficiente de que meus pesadelos estavam apenas começando. Mas só quando ouvi a voz da mulher de costas para mim (voz que eu reconheceria mesmo que passassem cem anos) tive a certeza de uma coisa: Estava caminhando diretamente para os portões do inferno.
    — Gisele? — rangi os dentes ao vê-la se aproximar, um pouco vacilante.
    A minha Gisele?
    Gisele Morais Alencar, para ser mais exato e a filha do homem que eu tinha com toda satisfação escoltado até a cadeia, eram a mesma pessoa. Aquilo só poderia ser um pesadelo ou uma artimanha muito engenhosa.
    — Eles são uns brutamontes insensíveis, minha filha — a mulher voltou a se lamuriar, alheia ao que acontecia entre eu e sua filha, ao que tinha acontecido entre a gente — E aquele lá em cima teve a audácia de dizer que foram eles que prenderam o seu pai e agora dizem que nós duas...
    Apesar do tagarelar irritante da mulher, não conseguia desviar meu olhar de Gisele. Parte de mim queria encurtar a curta distância que nos separava. Pressioná-la contra a parede e enterrar os meus dedos nos cabelos macios. Grudar os lábios tentadores nos meus e dizer o quanto o breve momento que passamos separados, me fez pensar e deseja-la enlouquecidamente.  
    Eu queria segurar a sua mão e fugirmos para o mais longe possível de toda essa merda caindo em nossas cabeças. Em contra partida raiva e desconfiança começavam a me rondar.
    — Leonardo — a ouvi balbuciar enquanto olhava espantada para mim.
    — Você sabia? — indaguei friamente.
    Gisele estacou no lugar, os olhos pareciam ainda mais confusos de quando nossos olhares se encontraram aos nos reconhecermos.
    — Como? — voltou a balbuciar com a voz frágil.
    — Tudo isso aqui — olhei em volta, os homens entrando e saindo — Sobre mim?
    Peças de um quebra cabeça começavam se formar em minha cabeça. Nosso primeiro encontro na boate. A conversa rápida entre Erica e Gisele. A pouca informação que me deu e o mistério que fazia em torno de si mesma.
    — Você sabia quem eu era o tempo todo? — grunhi como um animal ferido sendo açoitado — Sabia aquele dia no Casarão. Sabia que eu era da Polícia Federal e que estávamos investigando as sujeiras do seu pai.
    As peças se interligavam e encaixavam perfeitamente. E cada vez que eu ligava uma coisa na outra a raiva começava a ferver dentro de mim. Fora do meu estado normal, caminhei duramente até ela, segurando firmes seus braços, puxando-a para mim.
    — Há quanto tempo Gusmão e você planejaram isso? — meus dedos cravaram com mais força em sua pele e ouvi um pequeno gemido escapar de seus lábios — O que ela te ofereceu em troca para me fazer de idiota?
    Encarei firmemente a maldita mulher que tinha se atrevido a brincar comigo. Eu deveria ter desconfiado que sendo conhecida de Erica, Gisele deveria ter ligações sujas com a jornalista inescrupulosa.  Eu tinha sido usado uma vez pela jornalista e tinha caído no mesmo jogo mais uma vez.
    Não podia ter sido mais estúpido!
    A compreensão caiu sobre mim com a força de uma martelada.
    — Leonardo... eu. — oscilei quando vi as lágrimas saltarem dos olhos marejados, mas me mantive firme, não iria me deixar ser engando por elas — Não foi assim.
    Outro soluço escapou de sua garganta e Gisele abaixou a cabeça, os cabelos caindo em seu rosto, enquanto seu corpo tremia contra o meu. Respirei fundo e fechei os olhos. Eu me negava a deixar que o teatro dela tivesse o poder de me iludir mais uma vez. Porque era isso que Gisele era, uma excelente atriz.
    — Leonardo? — Henrique se materializou a minha frente e quando o encarei me deparei com seu olhar confuso — O que está acontecendo?
    Soltei Gisele com brusquidão e se Henrique não tivesse perto o suficiente para ampará-la pela cintura, ela teria se desestabilizado. Fiquei irritado comigo mesmo. Não sou do tipo que usa força física contra o mais franco, principalmente se tratando de uma mulher. Mas Gisele tinha a capacidade incrível tirar o meu rumo e de me enlouquecer.
    — Escolte as duas para a delegacia — digo a Henrique e coloco ainda mais distante entre Gisele e eu.
    Eu não conseguia ficar imune aos olhos tristes dela, ao rosto retorcido de angustia coberto de lágrimas, mas não conseguia deixar de acreditar que era apenas mais uma artimanha para me fazer passar por idiota.
    Precisava pensar mais friamente sobre tudo. O que Gisele realmente queria e quais as informações que conseguiu levar até Erica, nas vezes que esteve em meu apartamento?
    — Cara, o que está acontecendo? — insistiu Henrique.
    Ele não era burro e já tinha concluído que havia algo mais na forma que me portei com Gisele. Eu estava ferrado se isso chegasse aos conhecimentos do meu chefe.
    Porra! Eu tinha fodido dezenas de vezes a filha do homem que eu estava investigando. Um político poderoso e corrupto. Se essa informação caísse no conhecimento público seria muito pior do que ter o meu rosto estampando nas capas de revista como o Hipster da Federal. Toda a minha carreira poderia estar em risco porque não fui capaz de pensar com minha cabeça de cima. Porque eu tinha trepado com Gisele de todas as maneiras possíveis. E para piorar, desejava continuar trepando.
    Meu desejo por ela não tinha diminuído em nada, pelo contrário. Vendo Henrique a amparando pela cintura, as mãos tocando-a mesmo que sobre a roupa. Isso fazia com que me sentisse um primata rondando a fêmea, pronto para mostrar ao rival a quem ela pertencia de verdade. O que era uma grande loucura. A última coisa que passava pela cabeça de Henrique era uma disputa territorial.
    Mas que droga!
    A minha vida estava toda fodida e eu só conseguia pensar com o meu pau.
    — O Dias está esperando por elas — repondo a ele, desviando de sua pergunta.
    Henrique era meu parceiro e melhor amigo, meu parceiro, dentro e fora da Polícia Federal, mas eu precisava entender a merda toda que era aquilo antes de poder dizer alguma coisa a ele. Além disso, havia outros agentes entrando e saindo da casa, sem contar Miguel no andar de cima que adoraria afundar minha carreira de vez.
    — Cara, você precisa...
    — Faz a porra do seu trabalho Henrique! — esbravejei, eu queria socar alguma coisa e se ele continuasse a me pressionar seria meu alvo mais próximo — Santos?
    Chamei um agente que descia a escada.
    — Ajude o Rodrigues a escoltar as senhoras — olhei para Gisele que se desvencilhou de Henrique para caminhar até mim — O delegado espera por elas.
    Encarei Gisele mesmo não querendo fazer isso. Eu sabia que depois que ela cruzasse a porta, nossos caminhos não tinham como se cruzar novamente. Ela seria investigada e possivelmente até condenada e presa. Estávamos em lados diferentes.
    — Não vou sem dizer que...
    Olhei-a friamente. Duramente e com uma fúria que a fez congelar no lugar.
    — Não há nada que eu queira ouvir de você agora — a interrompi com a irritação evidente em cada palavra — Não a conheço. Nunca a vi. Agora saia do meu caminho. Tenho muita merda do seu pai para tirar debaixo do tapete.
    Eu a assisti se encolher e achei ter visto algo como dor passar pelo seu rosto e desviei meu olhar. Sufoquei a angustia que começava a dar sinais em meu peito. Não iria cair no seu jogo e me deixar levar pelo olhar inocente que acreditei existir nela.
    Gisele era muito pior do que o pai dela. Fria e calculista, capaz de ir até as últimas consequências para conseguir o que queria.
    — Tudo bem.  — disse Henrique — A gente conversa depois Leonardo.
    Ele não iria deixar o assunto passar. Mas no momento eu precisava esfriar a cabeça e enquanto tivesse Gisele tão próxima a mim, seria impossível conseguir fazer isso. Eu ia da atração que sentia por ela a raiva por ter tentado fazer de mim um fantoche, ou seja, lá o que ela, o pai dela e Erica tinham planejado.
     Eu ainda estava desnorteado. Assim que coloquei os pés nessa casa, senti que alguma coisa não estava certa. E acima de tudo não conseguia entender como pude ter sido tão cego. Tudo sempre esteve diante dos meus olhos. E eu não tinha conseguido enxergar nada.
    Que porra era essa?!
    Soquei a parede ao meu lado quando vi Gisele se afastar. Estava tudo fodido. Era o fim da linha para nós dois.
    O que eu tinha feito com a droga da minha vida?
    ***
    Cada vez que eu pensava em Gisele. No nosso beijo de despedida quando a deixei no táxi, na promessa que voltaria ao meu apartamento. Como eu vacilei ao algemar o pai dela. Que ela tinha mentido em relação a tudo. A merda toda interligava e meu cérebro parecia ferver em minha cabeça.
    — Já olhamos em cada buraco — Miguel se juntou a mim no escritório do senador — É claro que o Alencar não deixou nada comprometedor antes de tentar escapar. Só encontramos documentos sem importância.
    Claro que nenhum de nós tinha esperado encontrar alguma coisa na mansão do senador, mas as pessoas poderiam ser relapsas e se algo tivesse escapado ou deixado para trás cabia a nós conseguir encontrar.
    Nas quase quatro horas seguintes eu tinha ficado ligado no automático, tentando me manter focado em descobrir alguma prova contra o senador. Com a minha supervisão e auxilio de Miguel vasculhamos em cada canto que conseguíamos encontrar. Estava tudo limpo.
    — Vamos olhar mais uma vez — fecho a gaveta que um dos agentes deixou vazia e encaro o olhar descontente de Miguel.
    — Pelo amor de Deus, Leonardo! — Ele se mostrou irritado mais do que o normal — Já olhamos a porra toda. Acho teremos mais sucesso na casa da amante dele.
    Toquei minha arma na cintura e olhei duramente para ele. Sem o Henrique colocando panos quentes entre nós dois, as coisas poderiam ficar feias.
    Eu não iria atirar no imbecil, não tinha recebido treinamento para isso mas ele  não precisava saber que eu não era tão louco.
    — Faz o que você quiser — ele saiu resmungando.
    Sem o Henrique colocando panos quentes entre nos dois, as coisas poderiam ficar feias. Miguel não gostava nada da confiança e autoridade que o delegado Dias colocava sobre mim. Ele sempre teve despeito que os casos mais importantes tenham sido colocados em nossas mãos e estava ciente que só havia sido inserido nesse porque eu precisei me manter afastado até que a loucura em volta de mim diminuísse um pouco.
      — A essa altura ele já limpou lá também. Vamos olhar tudo mais uma vez.
    Decido ignorar o rompante de Miguel e oriento ao restante da equipe para fazermos mais uma busca minuciosa. A verdade é que eu não estava cem por cento e sabia que isso poderia afetar meu trabalho. Então eu preferia errar pelo excesso de cuidado.
    — Muito bem pessoal — digo ao restante da equipe na sala — Vamos olhar mais uma vez e depois todos estão dispensados. Fizeram um excelente trabalho até aqui, mas sabemos que podemos fazer ainda melhor.
    Ao contrario do meu companheiro na supervisão, ninguém parecia contrariado e rapidamente cada um retornou a busca. O olhar de Miguel sobre mim era glacial e carregado de ódio. Estava me fodendo para ele e a raiva espumando por sua boca. Tinha coisas mais importantes para pensar do que a inveja que ele que ele mal conseguia disfarçar.
     Nesse momento Gisele e a mãe estariam sendo interrogadas. Nenhuma informação sobre nós tinha sido vazada ou meu telefone teria tocado com um chefe raivoso do outro lado da linha. Eu precisava descobrir qual era o plano dela e como iria sair da armadilha que havia me colocado.
    Será que pretendia me chantagear para que desse fim as provas que conseguimos contra o seu pai? E onde exatamente Erica Gusmão entrava nessa jogada?
    Eu não podia ficar fazendo suposições em minha cabeça. Precisava ir até a delegacia e confrontar Gisele em busca da verdade. E também precisava contar a Henrique o que tinha acontecido.
    Deitei com o inimigo e poderia morrer na minha própria cama.


    0 comentários :

    Postar um comentário

    Obrigada por seu comentário. Volte sempre!

    O Preço de um amor

    Book trailer - Seduzida

    BookTrailer Proibida