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  • O Agente - Capítulo 2



    Fazia apenas uma semana que eu tinha voltado ao Brasil e tudo a minha volta estava uma verdadeira loucura. Para começar, eu nem queria estar aqui. Ignorei o quanto pude os pedidos insistentes de minha mãe para que voltasse para casa, após a conclusão do meu curso fora do país. Mas seus novos argumentos e novas súplicas foram convincentes demais para que eu conseguisse ignorar. 

    Além disso, não existia mais nada na Europa que pudesse me manter por lá. Até meu relacionamento de pouco mais de um ano tinha ido ladeira a baixo. No entanto, retornar ao meu verdadeiro lar não significava felicidade para mim. Estaria amargamente arrependida se meus pais realmente não precisassem de minha presença.

    Minha mãe tinha sérias suspeitas que meu pai a estava atraindo com uma jovem com idade próxima a minha. E os negócios de meu pai, como sua carreira política pareciam estar enfrentando problemas. Meu pai tinha garantido que a crise no casamento era uma fase que seria superada e que as desconfianças de mamãe eram descabidas. Sobre os negócios, dizia que eu não precisava preocupar minha cabeça, mesmo eu tendo cursado administração ao invés de letras como queria, para atender ao pedido dele. Sobre política, isso sim, eu não fazia questão de ter nenhum contato. 

    Através do meu pai que é senador, conheci pessoas bastante desagradáveis. Pessoas que pensavam apenas em seu beneficio próprio e que não sentiam remorso de estar prejudicando a quem deveriam estar ajudando. 

    Eu nunca quis que meu pai entrasse para a política. Mas sentia orgulho que ele quisesse gastar energia e tempo para ajudar o país e as pessoas que realmente necessitavam. A parte ruim era o que vinha com isso. Tínhamos um padrão de vida alto devido as empresas da família, mas com a política e o cargo de senador do meu pai e talvez uma possível candidatura a governador, vinha o glamour. 

    Ter que lidar com o meu rosto e meu nome nas revistas de fofocas, além dos círculos sociais não era para mim. E foi o que me levou a ir estudar fora. Lá eu conseguia ser apenas a Gisele. 

    Eu sempre fui bastante tímida. Preferia livros e os meus gatos, às pessoas. E odiava os eventos sociais que eu era forçada a participar. Era um sacrifício parecer sofisticada e ter que sorrir forçadamente para as câmeras. 

    — Vai, Gisele! — Luana, a minha grande e a única amiga de verdade, que deixei no Brasil para estudar fora, estava ajoelhada na cama fazendo uma prece com as mãos — Você acabou de voltar. E precisa de um momento de folga e diversão para fugir disso tudo. Vem comigo, por favor. 

    Ela fez aquela cara de cachorro abandonado e faminto olhando a vitrine de churrascaria. Era muito difícil conseguir ignorar as loucuras da Luana quando ela apelava para o lado sentimental e chantagista.

    — Luana, minha mãe esta tentando lidar com tantas coisas. E nem consegui conversar com meu pai direito desde que cheguei. Ele está sempre rodeado dos advogados dele — tento fazer com que ela me entenda — E essa casa é um entra e saí de gente esquisita, que nem sei se voltei para o lugar certo. E ninguém me conta nada do que está acontecendo.  Procuro nos jornais, mas só vejo especulações, mesmo assim não tenho gostado do que leio. Sinto que as coisas estão se complicando. 

    Luana bufou e olhou de cara amarrada para mim.

    — É como você disse, tudo isso não passa de especulação, Gisele. Acha mesmo que o tio Luís seria desonesto? O seu Pai? — ambas chamávamos o pai da outra de tio. 
    balancei a cabeça negando, eu nem poderia pensar em algo como isso, meu pai, sendo corrupto. 
    — Ele já era rico quando virou deputado e depois senador — continuou Luana — Vocês nunca precisaram de dinheiro, minha amiga. 
    Talvez de dinheiro não, mas papai sempre foi um homem ambicioso. Que pensava grandemente. Meu avô quando vivo, sempre dizia que isso poderia ser uma qualidade quanto uma maldição. A fome de poder poderia cegar as pessoas.

    — E seu pai está cuidando de tudo com os advogados dele. Não há nada que você possa fazer, pelo menos, não agora — disse ela — É realmente pelos seus pais ou Brian tem algo a ver com isso? Não é por causa dele que não quer sair um pouco de casa para se divertir?

    Quer convencer alguém a fazer o que não quer? Ou pelo menos eu? Coloque o dedo na ferida. Luana me conhece muito bem para saber que esse seria o gatilho necessário para conseguir me abalar e sacudir um pouco. Brian era um assunto que eu queria encerrar em minha vida. Mas sim, ele tinha deixado meu coração abalado ao me trocar por uma modelo russa. 

    — Não é pelo Brian. Eu só... — respirei fundo não querendo me lembrar da forma humilhante que ele me tratou — Não sei. Acho que não estou no clima. 

    — Mas você está finalmente de volta. Eu sou sua melhor amiga e estou com saudade — insistiu Luana, voltando a afinar a voz e fazer biquinho — Só por um ou duas horinhas e se você não estiver se divertindo, eu juro que a gente volta. 

    Eu não tinha muitos amigos em São Paulo, não tão sinceros e fiéis como a Luana.  E ainda havia essa nuvem negra em cima da minha família, que poderia fazer os poucos conhecidos querer se afastar. Talvez eu não tivesse outra oportunidade no futuro de ter apenas uma noite divertida com alguém que eu gostava. 

    — Tudo bem — dou-me por vencida ao me jogar na cama ao lado dela — E para que lugar nós vamos?

    Podendo soar egoísta, não estava dando tanta importava à situação dramática no casamento dos meus pais. Eu também achava que minha mãe estava vendo coisas onde não tinha. Papai nunca tinha se mostrado um homem mulherengo. Sobre a empresa e a política, pelo menos essa noite não havia nada que eu pudesse fazer. Não até pressionar meu pai e insistir que ele parasse de dar tapinhas na minha bochecha e insistir que tudo estava sendo resolvido.  

    — No Casarão. Sempre quisemos entrar lembra? — ela bateu palmas — Agora já temos idade suficiente. Além de entrada VIP.

    O pai da Luana é contador e o dono do Casarão é um dos clientes dele. Ela assegurou que por causa disso, nosso acesso à casa noturna seria tranquilo e que não passaríamos pela confusão e multidão de pessoas na porta. Entraríamos por um acesso particular. O que me deixou bem mais aliviada. Alguns jornalistas vinham querendo uma exclusiva comigo sobre as especulações que envolviam meu pai.

    — Certo, então me ajuda a escolher uma roupa — digo a ela e logo estamos conversando animadas sobre o lugar.

    O Casarão era uma antiga mansão reformada localizada no Itaim Bibi, em São Paulo, além de ser um dos locais mais disputados da alta sociedade paulistana. 

    Na época do colégio vários amigos e conhecidos nossos falsificavam identidade para entrar. Luana e eu nunca tivemos essa coragem. 
    Quando chegamos lá, reservei alguns minutos para admirar o local. No andar superior havia quatro camarotes com espaço para até 15 pessoas. No andar inferior concentrava a maior pista de dança e circulando as paredes, alguns sofás de couro branco e mesas curvadas de vidro em frente a eles. No bar, diversas taças despontando do teto e um estante gigante com uma incontável variedade de garrafas e bebidas. Já vi casas noturnas parecidas na Europa e acredito que o estilo e inspiração na decoração tenha vindo de lá. 
    Quase uma dúzia de barmans estavam fazendo mágica para os clientes. No centro do grande salão, luzes multicoloridas giravam, iluminando as pessoas que se agitavam na pista de dança ao som de Lady Gaga.

    — Vamos pegar uma bebida e tirar essa sua cara de emburrada. Você está espantando os caras mais gatos — gritou Luana em sua invejável empolgação — Hoje nós não sairemos sozinhas daqui, meu bem. 

    Eu tinha concordado com beber e dançar. Mas poupei o meu tempo em dizer que não estava interessada e nem pretendia sair acompanhada de algum cara gostoso, mas desconhecido. Passei da fase adolescente em que sair de uma festa sem ter ao menos beijado um garoto era sinal de fracasso. E devo dizer que devido à minha timidez no passado, esse foi um sentimento que amarguei muitas vezes. 

    No entanto, entendo e agradeço a preocupação de Luana. Ela não é promíscua como aparentou ao dizer que deveríamos sair à caça de homens. Luana se preocupava comigo e com a fase difícil que venho enfrentando. Ela só queria que eu relaxasse e curtisse um pouco. 

    Tudo bem que eu  não desejava mais complicação em minha vida nesse momento, mas não significava que eu tivesse que bancar a amiga mal-humorada impedindo uma de nós duas de se divertir. Um pouco de música e bebida não faria mal nenhum a mim e eu também amo dançar, mesmo que não faça muito isso. 

    — Ah, Gisele. Se solta e apenas aproveita — pediu Luana — Paquerar não tem nada de mais.

    Eu sabia que ela estava certa. Sempre achei a parte da sedução mais atraente do que a conquista em si, então, não seria o fim do mundo se decidisse no decorrer da noite, apenas admirar e flertar com alguns homens bonitos que eu tinha certeza que ela iria me apresentar. 

    — Vamos beber — sugeri a ela e fomos para o bar.

    Pedi uma batida de morango para começar a noite. Luana foi mais corajosa e pediu logo dois shots de tequila. Nós bebemos, dançamos e até encontramos alguns de nossos antigos amigos. Mas a minha sorte, como tudo em minha vida, parecia estar começando a mudar. 

    — Oh, não, que merda! — resmunguei baixando a cabeça, na esperança de conseguir ocultar o meu rosto das luzes piscando.

    Estaquei no meio da pista e se meus reflexos não tivessem sido mais rápidos, teria derrubado minha bebida em cima do vestido prateado de Luana. 

    — Olha quem está em nossa mesa — disse ela, apontando com o copo.

    Em tantas boates existentes em São Paulo, a única pessoa que não queria ver em todo o planeta, tinha escolhido justamente o mesmo lugar que eu estava. 

    — Você se lembra da Erica Gusmão? — perguntou ela, indicando a loira voluptuosa em um vestido vermelho, que conversava com o pretendente de Luana essa noite.

    Como poderia esquecer a garota mais popular do colégio e que teve o prazer de fazer da minha vida escolar um inferno? 

    — Sabe aqueles filmes da sessão da tarde, em que a garota mais popular e malvada da escola acaba ficando feia? — questiona Luana — E a mocinha que usava aparelhos nos dentes e era desengonçada, retorna muito gata?

    — Não sei se vi esse filme — murmurei antes de beber metade do drinque em meu copo. 

    — Pois é. Você está gata amiga, mas essa daí nunca será feia — disse Luana com um tom de desagrado em sua voz — Bem, pelo menos não por fora, ela agora trabalha em um jornal, sabia? E por isso, se sente mais importante do que realmente é.

    Eu quis desaparecer. Na verdade, sair correndo, e teria feito exatamente isso se a saída não estivesse duas mesas após a nossa. O que me obrigaria a passar pela Erica de qualquer jeito.

    — Haja com naturalidade ou a ignore — sugeriu Luana quando voltamos a nos aproximar do nosso pequeno grupo — Talvez ela não te reconheça ou nem lembre mais de você.

    Lanço a ela um olhar descrente. De todas as pessoas no Casarão, Erica seria a única que me reconheceria a quilômetros. Primeiro que ela não se esqueceria da patinha que ela gostava de atormentar e segundo que deveria estar por dentro do que acontecia com meu pai. Sendo jornalista agora tinha um prato cheio para continuar a transformar minha vida, assim como a minha noite em um desastre. 

    — Olha, que surpresa! — bingo, Erica uniu as mãos e nos brindou com um sorriso amigável, que destoava dos seus frios e bonitos olhos verdes — Luana Correia e Gisele Alencar. Quanto tempo eu não as vejo...

    — Na verdade, nos encontramos na festa da... — iniciou Luana, mas a atenção de Erica estava toda em mim. 

    — Sente-se! — Erica indicou um espaço vazio para que eu me acomodasse — Estávamos tendo um momento de nostalgia e decidimos fazer um pequeno jogo que fazíamos na escola.  O que você acha, Gisele? 

    Erica agia exatamente como eu me lembrava dela. Como uma rainha esperando que seus súditos se curvassem às suas vontades. Era a nossa mesa, em sua maioria nossos amigos, e ela não deveria agir como se tudo girasse ao seu redor. 

    — Jogo? — indaguei, arqueando a sobrancelha.

    Ela poderia continuar linda e autoconfiante de sempre, mas eu já não era a Gisele que tremia com qualquer olhar maldoso. 

    — Sim, querida, como fazíamos no tempo do colégio — ela sorriu ainda mais — Você deve se lembrar.

    Claro que eu não lembrava e ela sabia disso. Tanto Luana quanto eu fazíamos parte das excluídas da escola. Eu nunca fiz parte dos populares e nunca fiz questão, na verdade. Meu único contato com algum deles era minha paixonite pelo namorado de Erica e claro, a própria que adorava me perseguir, humilhar e me fazer parecer ridícula em relação a isso.

    — Não é incrível? Eu realmente ia para o colégio para estudar — sorri educadamente e circulei a mesa sentando no único lugar vazio para acomodar minhas pernas trêmulas, mas por azar, era de frente para a Erica — Diferente de algumas garotas que abriam as pernas o tempo para todos os garotos que cruzavam o seu caminho, mesmo já tendo um namorado. 

    Luana engasgou com a bebida na falha tentativa de segurar uma risada. As outras pessoas que ouviram o que eu disse, tentaram agir como se nada tivessem ouvido. Erica estreitou o olhar, olhando furiosa para mim, mas rapidamente se recompôs. 

    — Chama-se: verdade ou desafio — esclareceu ela — Como você acabou de chegar, Gisele, terá o privilégio de começar. 

    Eu queria dizer que aquilo era idiotice. Erámos adultos e não um bando de adolescente escondidos na biblioteca da escola. Também poderia mandar Erica ir a merda.  Mas eu sentia que havia ali, mais do que uma brincadeira entre velhos amigos se reencontrando.  

    — E eu sugiro que escolha a verdade, querida — ela inclinou para tocar minha mão em cima da mesa, frias como a pele de uma cobra — Nós sabemos que nunca foi muito corajosa para desafios. 

    Não me deixei cair na armadilha que ela queria me jogar, lembrando um fato amargo de meu passado provocado por ela, humilhando-me diante de toda escola. 
    Entendi muito bem onde Erica queria chegar ou que esperava conseguir. Arrancar de mim os podres da minha família e ter uma bela matéria para estampar no jornal de quinta na qual deveria trabalhar. 

    Pois eu aceitaria o desafio mesmo que fosse algo como dançar apenas de pompom na Avenida Paulista, do que abrir meus lábios e dizer qualquer coisa a uma jornalista sensacionalista como ela. Aliás, sendo a mulher inteligente que eu acredito ser, o que tinha a fazer é me levantar e deixar que todos aproveitassem o jogo estúpido. 

    Mas até as mulheres inteligentes e sensatas como eu, carregava dentro de si um demônio vingativo. Eu queria muito, pelo menos uma vez em minha vida, fazer a Erica perder a pose. 

    Quem nunca desejou dar o troco e se vingar daquela vaca malvada da escola, nunca sofreu bullying como eu tinha sofrido. 

    — Você está muito por fora sobre a Gisele — a voz ébria de Luana veio em minha defesa — Ela estudou fora, meu amor. É uma mulher viajada e confiante, agora. Ficará com o desafio. 

    O olhar sarcástico e duvidoso que Erica deu a Luana logo foi direcionado a mim. 

    — É mesmo, Gisele? Pensei que conseguiria arrancar uma ou duas confissões picantes de você. Então, quer mesmo o desafio?

    "Eu quero que você vá para o inferno", pensei, antes de pegar o copo de Luana e virar o restante da bebida, que desceu queimando por minha garganta. O monstrinho da competição e o desejo de dar o troco falando cada vez mais alto dentro de mim. 

    — Sim, aceito o desafio. 

    Empinei o queixo, mas por dentro, meu coração parecia pulsar tão alto como a música que o DJ executava.  Luana sorriu para me encorajar e as outras pessoas a mesa me olharam ansiosas. 

    — Certo — Erica passou os dedos nos cabelos alisados e olhou em volta — Estamos em uma casa noturna, então o desafio tem que ser algo empolgante. Desafio você a ficar com alguém.

    Soltei o ar que havia prendido e relaxei. Isso não seria tão difícil assim. Homens não faltavam. Eu não fazia o tipo mulherão de parar o trânsito como ela, mas eu era e me sentia bonita. E nessa noite havia caprichado na maquiagem e completado o visual com um vestido curto e sexy, que Luana tinha sugerido que eu usasse. Não tinha muito peito, mas as minhas pernas eram bonitas e elegantes. Bem, era o que o meu ex-noivo sempre dizia.
    Encontrar alguém para dar uns amassos parecia uma tarefa relativamente fácil. 

    — Aceito! — abri um sorriso vitorioso. 

    Erica tinha uma ideia errada sobre mim. Morar fora e sozinha, fez grande proveito a minha personalidade e confiança. Como não havia ninguém para julgar meus erros e acertos, passei a me permitir arriscar. 

    — Mas não qualquer homem — Erica tornou a colocar os olhos frios sobre mim, mas havia algo mais incutido neles. 

    Ela estava tramando algo e na minha sede de provar que era corajosa e descolada, posso ter acabado cavando minha própria cova.

    — Tem que ser alguém da minha escolha — o sorriso que ela deu, fez meu coração voltar a acelerar — Isso é óbvio. 

    — Quando o milagre é demais, até o santo desconfia — murmurou Luana ao se espremer ao meu lado. 

    Claro que Erica indicaria a mim o cara mais feio ou desengonçado que haveria no local. Mas não tinha problema. Seria um desafio para mim e uma noite de sorte para o escolhido. E embora não tenha vindo essa noite pensando em curtir a balada dando uns amassos em alguém, daria o melhor de mim para que o felizardo tivesse uma noite satisfatória, e que não me fizesse sentir muito mal por estar de certa forma, usando-o. 

    — Pode escolher — segui os olhos dela que olhava em volta do salão — Quem você quiser desde que não tenha um par ou uma aliança no dedo. 

    Eu não iria ser causadora de dor a outra mulher para vencer o jogo contra Erica. Sei como é amarga a decepção de ser traída e trocada por outra. 
    Então comecei a analisar as opções mais absurdas que ela pudesse escolher. Vi em um canto na parede, na extremidade do bar, um jovem aparentemente solitário. Ele tinha um estilo desengonçado, com excesso de gel nos cabelos. Arrumava constantemente os óculos que insistia em deslizar enquanto mexia nas teclas do celular. Ele parecia mais perdido essa noite do que eu durante todo meu período escolar.

    — Aquele ali — apontou Erica na mesma direção que eu encarava — Aquele é o seu alvo. 

    Olhei para o rapaz e sorri. Eu me senti quase como uma pessoa prestes a dar uma grande contribuição à caridade. O que ao mesmo tempo me fez me sentir mal. Não era porque o rapaz parecia totalmente deslocado que deveria ser desprezado ou merecesse ser um joguete nas mãos de duas mulheres em guerra. Essa não era eu. E talvez ele até fosse um cara legal. 

    — Tudo bem, o jovenzinho de óculos e cara de nerd — murmuro incerta. 

    — O quê? Aquela coisinha ali?

    Ele era o cara mais estranho e deslocado que eu conseguia encontrar. Voltei a olhar na direção que Erica indicou. Só havia mais uma pessoa desacompanhada no bar. Como estávamos indo para mais da metade da noite, os casais já começavam a se formar ou as pessoas reuniam-se em grupos. 

    — Não. Eu quero aquele ali — disse ela, dando-me um sorriso de orelha a orelha e indicou o homem aparentemente sozinho no bar — De camisa branca e calça escura. 

    Meu olhar caiu sobre o homem de quem ela estava falando. Havia no mínimo umas quatro mulheres próximas a ele, tentando chamar a sua atenção, com uma dança mais sexy do que Rihanna e Shakira juntas. 

    — Com olhar de menino malvado — disse Erica em uma voz mansa ao se curvar em minha direção — Ele tem ar de que sabe o que fazer entre quatro paredes, não acha isso?

    Fixei meu olhar nele e observei com mais atenção. 
    Homens de cabelos longos, mesmo que presos em um coque de samurai como ele usava, nunca foram meu fraco, mas nele parecia algo quase que obrigatório. Lembrava um viking dos livros românticos que via na banca do seu Zé, quando comprava revistas voltando da escola, quando adolescente. 

    — Por que ele? — a encarei, atônita. 

    Brian, meu ex-noivo era um inglês charmoso e elegante. Algumas das minhas primas declaradamente sentirem inveja quando enviei vídeos e fotos a elas. Mas o homem que Erica queria que eu me aproximasse, ia muito além. Ele era pura sensualidade masculina. O homem mais bonito e atraente que tinha colocado os olhos essa noite. E existia algo nele que eu não sabia exatamente como definir. Força e magnetismo emanavam dele. E Sexy Appel deveria ser o seu nome. Definitivamente, ele não era alguém por quem a gente passe  duas vezes sem notar. Acho que nem uma.

    Era O homem! 

    — Ora, você acabou de chegar à cidade — disse Erica com a voz inocente que eu sabia fazer parte de seu teatrinho — Considere como meu presente de boas-vindas.

    Presente de boas-vindas? O que ela estava sedenta era por outra oportunidade de me humilhar. E claro, havia mais uma vez me deixado levar pelas emoções e caído em seu jogo como uma patinha.

    — Como você é um amor. Nesse caso, acho que não posso decepcioná-la — retribuí o sorriso falsamente gentil, eu não iria me acovardar, não mesmo — Mas o que eu ganho se cumprir o desafio?

    Afinal de contas estava prestes a passar a maior vergonha da minha vida ao também ser dispensada por ele, como fazia com as lindas mulheres que o cercava.  

    — Prometo te deixar em paz por... — ela murmurou com um amplo sorriso — sei lá. Um mês? 

    Uma noite sendo deixado em paz por ela já era grande coisa, um mês então.

    Olho novamente para o meu alvo. Bíceps bem marcados pela camisa branca e um peitoral que indicava que era alguém acostumado a cuidar do físico, era musculoso, mas não tão exagerado como alguns dos bombados viciados em academia, que era a grande parte dos rapazes se exibindo na pista. Ele também era alto, concluí, quando uma garota que eu tinha cruzado no banheiro parou ao lado dele. Mesmo estando um pouco inclinado sobre o balcão, notei que passava uns bons centímetros de altura dela. E eu era quase uns dez centímetros mais alta que a garota. 

    Antes de retornar a minha atenção para a Erica, compreendi a intenção dela. Com certeza achava que eu ainda fosse garotinha ingênua e boba dos tempos de escola. Ela duvidava que um cara atraente como aquele pudesse olhar uma única vez para alguém como eu. 

    — Eu aceito — levantei, e antes de seguir em direção ao meu alvo, Luana saltou em minha direção. 

    Ela segurou o meu pulso e olhou na direção do homem

    — Gisele, deixa para lá. Ninguém está ligando para esse jogo adolescente mesmo. 

    Encarei minha amiga e fiquei desapontada pela sua falta de confiança em mim. Tudo bem que eu não fosse à mulher mais deslumbrante da balada, e que pelo menos duas das garotas desesperadas para chamar a atenção dele, tivessem o corpo muito mais voluptuoso que o meu, mas eu também não era a versão ogro da Fiona. 

    Além disso, se quatro ou cinco mulheres bonitas não conseguiam chamar a atenção dele, certamente ele era gay. Sendo assim, poderíamos fazer um acordo divertido, eles geralmente tinham um ótimo sendo de humor. Eu o livraria das mocreias ensandecidas e ele me ajudaria a ganhar aquele desafio. Ou o cara poderia ser um garoto de programa esperando uma cliente, havia muitos por ali. Nesse caso, poderíamos fazer um ótimo negocio. As opções eram inúmeras, mas eu não sairia daqui sentindo-me arrasada e vencida.

    — Não se preocupe comigo, Luana — tentei acalmá-la para que soltasse a minha mão — Vai ser divertido. Não posso sair daqui sem uma companhia esta noite, lembra? 

    Olhei novamente para o cara que agora estava meio de lado, ouvindo a ruiva que exigia atenção dele. Ele balançou a cabeça muito suavemente e voltou a atenção para garrafa como se fosse a coisa mais interessante na noite. Disse algo para a ruiva que se afastou em seguida, com um olhar desapontado. 

    Ah, ele era gay. Só podia. Ela tinha jeito que não ligaria à mínima se precisasse pagar pelos serviços do cara. Sendo honesta, acho que eu até pagaria dependendo de qual momento estivesse da minha vida. 

    — Mas, Gi, eu acho que ele é... — ela tentou voltar a segurar minha mão, mas consegui me desvencilhar antes.

    Eu não era uma boa fisionomista, mas Luana parecia reconhecê-lo e ficar nervosa, então deveria ser alguém da nossa época de escola. Se bem que ele parecia bem mais velho. Com certeza não era um dos que já tivemos uma queda. Deveria fazer parte dos garotos maus. Desses aí, eu sempre mantive distância. Ele tinha mesmo ar de perigoso. 

    — Vai ficar tudo bem — sorri, um pouco mais aliviada, afinal, se o cara era alguém que já conhecíamos, eliminava a possibilidade de lidar com algum maluco ou psicopata. 

    — Gisele...

    Os protestos dela foram abafados pela música alta quando me afastei. Não sei se foram os vários drinques que tomei, ou meu rancor pela Erica que davam confiança para caminhar na direção do estranho no bar, mas em pouco menos de um minuto, me vi ao lado dele. 

    — Uma batida de morango, por favor — disse ao barman antes de me escorar no balcão. 

    Meu desafio parecia ocupado respondendo a alguma mensagem no celular. A forma como digitava, e as rugas formando linhas de expressão em sua testa eram um alerta de que não estava sendo uma noite agradável para ele também. Sondei-o discretamente. De perto era ainda muito mais intrigante e atraente do que eu tinha notado. E ele me fazia lembrar um ator de um seriado que gosto muito, Charlie Hunnam. 

    Girei minha bebida sobre o balcão e me dei conta de como estava sendo estúpida.  Estava claro que um homem intrigante e atraente como ele não se interessaria por mim. E lá vinha meu passado conturbado com Erica tentando baixar a minha confiança. 

    — Você venceu mais uma vez, Erica — murmurei antes de entornar o meu drinque — Mais uma, por favor. 

    Não sei dizer se foi o meu ar derrotado ao pedir a bebida, ou o barulho que fiz ao bater o copo sobre o balcão, a chamar a atenção dele, mas no instante seguinte, tinha seu olhar sobre mim, senti um calafrio me varrer todo meu corpo.

    — Noite difícil? — ele se inclinou para que o ouvisse e descobri que a voz era tão sexy quanto o seu dono.

    Olhei-o abertamente agora. Cabelos castanhos, os olhos tinham uma mistura que com as luzes da casa não conseguia identificar muito bem. Tinha o rosto de queixo quadrado e uma boca bem desenhada, que exibiam um sorriso sexy. 
    Baixei um pouquinho o olhar para admirar os músculos bem definidos. 
    Deus! 
    Definitivamente nada menos que uma afronta ao restante da espécie masculina. 
    Puta merda! 
    Eu estava perdida.

    * Créditos da capa Jhenifer Barroca. Um presente da Rosi, obrigada.
    ** Próximo capítulo na quarta-feira.

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