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  • Caminhando entre espinhos - Capítulo 20 e 21



    Capítulo 20



    20 W 29th St, New York, NY 100013, NY Palace Hotel. Passei tanto tempo alisando e olhando para o cartão no caminho de volta, que já começava a aparecer as marcas dos meus dedos no papel.
    Era onde Agatha estava, onde eu pretendia ir essa noite, em busca de mais uma tentativa de me livrar de tudo isso.
    — Você não vai precisar disso — Klaus arrancou o cartão de minhas mãos, amassou e jogou pela porta aberta. A bola de papel caiu sobre a grama.
    Estive tão concentrada imaginando outro plano e as falhas que poderiam existir, que não percebi que havíamos chegado à Casa das Rosas.
    — Agatha está me esperando — disse a ele, ao mesmo tempo que Shane me puxava para fora — Irá desconfiar se não...
    — Konrad já cuidou disso — Klaus sorriu sarcasticamente — Nesse momento, a grande modelo está a caminho de Milão.
    Fui arrastada para dentro, não porque estivesse brigando ou lutando contra eles, simplesmente era incapaz de me movimentar sozinha.
    A sensação de impotência, frustração e revolta e, claro, desespero profundo, me paralisavam. Outra chance desperdiçada. Uma a uma, elas iam caindo sobre meus pés.
    — Se arrume — disse Shane, jogando-me dentro do quarto — Você tem dois clientes hoje, no quarto negro.
    O quarto negro era o que tinha artigos de uso BDSM. Eu desprezava aquele quarto. Odiava as cordas sempre apertadas demais, as algemas e os chicotes com pontas pontiagudas que deixavam minha pele ferida e marcada por dias.
    Odiava assistir aqueles homens sentindo prazer em me causar dor. Odiava que outras pessoas vissem tudo e se excitassem com isso.
    — Eu tenho que sair daqui — sussurrei, deslizando contra a porta fechada — Eu tenho que sair daqui.
    20 W 29th St, New York, NY 100013, NY Palace, repeti e repeti o endereço em minha cabeça.

    ***
    Para executar o meu plano, precisava de ajuda, além da de Samira. Então, era preciso encontrar alguém com coragem e de confiança, e isso tinha que ser feito com muito cuidado.
    As mulheres confinadas tinham medo, e todas as minhas tentativas frustradas, seguidas de punição, faziam que o temor delas multiplicasse. A maioria já tinha aceitado o seu destino. Foram anos aqui, muitas tentativas, nenhum sucesso. Então, não podia culpá-las por desistir. Chega um momento em que você quer apenas sobreviver.
    Depois de estudarmos algumas garotas, escolhemos uma alemã, chamada Faiga. Inicialmente, ela riu e disse que não queria se envolver e nem causar problemas a si mesma, mas eu era uma pessoa persuasiva.

    O plano era o seguinte: toda sexta-feira vinha uma caminhonete recolher a roupa suja. Faiga iria seduzir e distrair o guarda responsável pela vigilância e monitoramento das câmeras. Samira distrairia os guardas na lavanderia. Eu ficaria dentro de um dos cestos de roupas sujas e, no momento certo, me esconderia dentro do carro. Quando chegássemos a um destino seguro, encontraria alguma forma de escapar.
    Todo o plano teria que ser executado em um curto e cronometrado tempo, sem falhas, sem erros, sem segunda chance.
    — Ok. Se isso der errado — Faiga entrou no quarto, apontando o dedo para Samira e eu —, não tive nada a ver com isso e não ajudei vocês.
    — De onde eu venho — levantei, ficando em frente a ela — Dedurar os outros é uma falta grave.
    Faiga me analisou por um instante antes de voltar a relaxar.
    — Tudo bem — murmurou ela, entregando um vestido preto a mim — Vamos repassar o seu plano mais uma vez. Logo o carro irá chegar e não teremos muito tempo.
    Seduzir os guardas em busca de favores, drogas ou simplesmente para ter a simpatia deles não era incomum ali, portanto, inicialmente nenhum deles desconfiou de Faiga e Samira.
    Fiquei escondida no penúltimo cesto, com um lençol me cobrindo, e cada vez que o homem jogava um saco de roupa no carro, minha ansiedade aumentava um pouco. Quando ele chegou a um cesto de onde eu estava, meu coração acelerou e levei as mãos à boca.
    Ele retornou, parou ao meu lado e passou as mãos na testa. Se ele pegasse o cesto, veria a diferença no peso e eu seria descoberta. Pensar sobre aquele plano tinha sido mais fácil do que realmente executar. E também estava preocupa por quanto tempo mais Faiga e Samira conseguiriam fazer o trabalho delas.
    Soltei o ar, aliviada, quando vi o homem caminhar até o bebedor de água. Era minha única chance e não iria desperdiçá-la.
    A parte mais difícil foi sair do cesto sem fazer ruídos ou chamar a atenção dele. Feito isso, corri rapidamente até o baú do furgão e voltei a me esconder entre os sacos de roupa.
    O homem retornou, terminou de esvaziar os cestos e fechou a porta. Ouvi quando bateu a porta do motorista e o carro começou a se movimentar.
    Eu tinha conseguido.
    20 W 29th St, New York, NY 100013, NY Palace.
    Tinha repetido tantas vezes o endereço que, tinha certeza, lembraria dele por anos.

    ***

    “Fabiana, pegue a última caixa que está lá fora. É onde estão suas bonecas, depois venha para dentro para lanchar.”
    “Tá bom, mamãe.”
    Nós tínhamos acabado de nos mudar para a casa nova ou barraco, como costumava dizer meu irmão. Não era exatamente bonita, mas sabia que minha mãe iria deixá-la melhor e que seríamos felizes ali como ela tinha prometido, era isso que me importava.
    Quando cheguei à calçada, tinha uma garota de tranças compridas segurando uma de minhas bonecas preferidas. Não que eu tivesse muitas, mas daquela eu realmente gostava.
    Era uma princesa da Disney, que a ex-patroa de minha mãe tinha dado para mim, no Natal. Era usada, passada da filha dela, mas eu não ligava para isso. 
    “Oi”, a menina estendeu a mão para mim. “Eu sou a Ana, moro do outro lado da rua, ali, depois daquela casa verde”.
    Não olhei em direção à casa, e nem peguei a mão que ela estendia, tudo que me preocupava era que minha boneca continuava na sua mão.
    “A boneca é minha”, soltei, em um fio de voz. Geralmente eu não era rude com as pessoas, mas eu gostava mesmo daquela boneca e sentia que seria minha única amiga em um bom tempo. Eu era tímida e difícil de me relacionar com as pessoas.
    “Eu sei” Ana sorriu, mas continuou com a boneca presa em seus braços. “Não vou roubar de você. Seremos amigas, e amigos não pegam as coisas dos outros. É o que minha mãe sempre diz”.
    “Seremos amigas?” Perguntei, confusa com a determinação dela.
    “Claro que sim.” Disse ela, vindo em minha direção, mas não parou ao meu lado, seguiu em direção à minha casa. “Vamos brincar no seu quarto. Se mostrar suas bonecas, prometo mostrar as minhas para você também.
    Peguei a caixa e corri de volta para casa, atrás dela.
    E aquele tinha sido meu primeiro contato com a Ana, aos sete anos. Depois daquele dia, eu tinha me tornado mais do que sua amiga. O espírito livre e aventureiro dela que me impulsionava a fazer as coisas.
    Me declarar a um menino aos quatorze anos. Brigar com uma garota por dizer coisas horríveis sobre meus cabelos.
    “Seu cabelo é fantástico.” Disse ela ao deixarmos a sala da direção com uma advertência.
    “Fantástico?” Ri da nova palavra que ela começou a usar com frequência.
    Ana esteve comigo nos piores e melhores momentos da minha vida. Sequei minhas lágrimas e pedi que, de onde ela estivesse, continuasse a cuidar de mim.
    O carro parou. Olhei através da janela. Começava a anoitecer. Ergui um pouco a cabeça e vi que o motorista estava com o telefone ao ouvido.
    Quando tempo havia se passado?
    É horrível não ter controle algum sobre o tempo.
    O homem circulou o carro, parando na traseira. A porta foi aberta antes que pudesse me preparar para isso.
    — Eu vou verificar e retorno em seguida — disse o homem ao telefone — Certo, moça. Se está aí, é melhor sair agora.
    Eu tinha que pensar rápido. Não havia nada no carro que eu pudesse usar como arma. Só havia sacos e sacos de roupa suja.
    O homem foi retirando cada um deles, e quando ficou apenas o que me encobria, o chutei com força, fazendo o cara se desequilibrar. Voei pela cabine até a rua, caindo no chão.
    Antes de começar a engatinhar para longe do carro, o homem agarrou um dos meus pés, puxando-me para ele. Cravei as unhas no asfalto, que se quebraram conforme eu era arrastada. As palmas das mãos raspando no chão duro e quente.
    — Me solta! — me debati — Solta, seu porco imundo!
    Sabia que ele não conseguiria me entender, falava em português. Estava apavorada demais para raciocinar em outra língua. Comecei a gritar, na esperança de que algum carro passasse por nós e alguém viesse ao meu auxílio.
    — Sua piranha! — Ele berrou, agarrando meus braços, me sacudindo de frente a ele — Não vai causar problemas para mim.
    Era um momento de vida ou morte para mim. Não iria deixar que aquele homem me obrigasse a voltar. Mordi seu braço, fazendo-o gritar, e dei um chute entre suas pernas.
    Ele não era treinado como os outros capangas, e quando gemeu de dor, curvando-se, aproveitei que o aperto em meus braços afrouxou para escapar e fugir.
    Corri para dentro da mata, ignorando os pedregulhos e galhos secos caídos no chão, cortando meus pés descalços.
    Corra!
    Corra!
    Corra!
    As palavras explodiam em minha cabeça, forçando-me a continuar. Corri o máximo que eu podia, até a voz atrás de mim silenciar, meus pulmões começarem a arder e minhas pernas cansadas fraquejarem. Ainda assim, corri, corri muito, e fui vencida por um galho que me fez cair e rolar um barranco.
    Descobri que tinha desmaiado quando meus olhos abriram e vi as estrelas surgindo entre as árvores ao redor de mim. Levei alguns segundos para me orientar, e quando fiquei em pé, soltei um gemido ao perceber que tinha o tornozelo esquerdo torcido.
    — Preciso continuar — murmurei, na esperança que dizer isso em voz alta pudesse renovar minhas forças.
    E eu continuei.
    Estava frio, e eu só usava aquele vestido preto e curto. Cruzei os meus braços em volta do corpo e continuei andando. Tinha sede, fome e muito medo do que poderia surgir na floresta. Precisava voltar para a estrada e conseguir ajuda.
    Estava saindo da mata quando vi três carros pretos passando na estrada. Eles tinham um emblema de uma rosa branca. Eram os seguranças do cativeiro procurando por mim. Recuei e me escondi atrás de uma árvore até que o último carro passou.
    Esperei longos minutos até ter coragem e correr até o outro lado da pista. Era arriscado eu ficar no lado que dava de volta à Casa das Rosas, mas tinha que seguir o caminho oposto de onde os carros tinham ido.
    A cada metro que eu dava, o pânico dentro de mim crescia. Estava no meio do nada e carro nenhum passava por ali.
    Perdia minhas esperanças, quando vi uma luz amarela aparecer no fim da estrada. Minha experiência com Konrad me deixava receosa em acreditar nas pessoas, mas que alternativa eu tinha?
    Sinceramente, tinha que acreditar que todas as desgraças do mundo já tinham acontecido comigo. Além disso, ainda lutava contra o tempo. Se os administradores daquela casa acreditassem que tive êxito ao fugir e que a qualquer momento iria denunciá-los, iriam pegar as garotas e fugirem dali. Nunca mais teríamos notícias delas.
    Eu tinha jurado à Samira e Faiga que as buscaria, não poderia falhar com elas, não conseguiria carregar mais essa culpa. Então, eu tinha que controlar o meu medo e continuar lutando por mim e por elas.
    A luz branca foi se aproximando. Era o primeiro carro que via em horas. Uma caminhonete branca, que freou quando eu pulei na estrada sacudindo os braços.
    Um homem de cabelos pretos e olhos igualmente escuros desceu do carro, vindo em minha direção.
    — Moça, você é maluca? — resmungou ele — Quase atropelei você.
    — Por favor — cambaleei até ele, que me segurou quando as minhas pernas cederam — Fui sequestrada. Há outras garotas...
    Sabia que não estava sendo muito clara, mas esperava que ele conseguisse capitar a gravidade do que lhe contava.
    — Eu fugi... — continuei, agora chorando — Fugi deles, preciso de ajuda. Polícia...
    — Calma, calma — ele sussurrou, me levando até seu carro — Você foi sequestrada e tem outras garotas presas lá?
    Acenei com a cabeça, tentando ficar calma como ele pediu.
    — Ajuda — pedi mais uma vez.
    Ele me colocou no banco de passageiro e tirou o celular do painel do carro. Observei enquanto fazia a ligação, sentindo-me apreensiva.
    — É da polícia? — soltei o ar quando ele disse isso — Acabei de socorrer uma garota. Está machucada e me disse que há outras garotas em um cativeiro. Sim... Isso mesmo. Estamos na...
    Fechei os meus olhos enquanto ele dava as coordenadas. Aquele inferno finalmente teria um fim.
    — Meu nome? — continuou ele — Neil... Neil Durant.
    Ele encerrou a ligação e sorriu para mim.
    — Logo a polícia estará aqui — disse ele.
    Sorri de volta, completamente agradecida.
    — Obrigada, Neil — disse, com a voz fraca — Meu nome é Fabiana.
    Ainda havia pessoas boas no mundo.



    Capítulo 21



    Ele me deu sua jaqueta para eu me cobrir e proteger do frio. Também me deu uma garrafa de água e uma barra de cereal que tinha encontrado no carro.
    — Vou fechar a porta e ligar o ar, tudo bem?
    Assenti com a cabeça e olhei para a estrada. A verdade é que tinha medo de ficar com ele ali, mas tentei acalmar as batidas desenfreadas do meu coração.
    — Quando a polícia vem? — indaguei, não apenas por ansiedade, mas também para acabar com o silêncio constrangedor.
    O olhar de Neil estava fixado em mim, e aquilo me deixava apreensiva.
    — Disseram que em torno de meia hora — disse ele, ainda me analisando — Você me lembra alguém que eu conheço.
    Olhei para ele, confusa.
    — Não fisicamente. São como água e vinho, mas as duas são bem corajosas.
    Olhei para ele, desconfiada, depois para a porta ao meu lado. Como ele poderia fazer qualquer análise sobre mim, me conhecendo há pouco mais de vinte minutos?
    — Quer dizer... — ele continuou, com a voz mansa — Você conseguiu fugir, e sabe lá o que já passou.
    Apesar de relaxar um pouco, continuei com a mão apoiada no puxador da porta.
    — Sua namorada? — indaguei, notando que ele não usava aliança — A moça que eu o faço lembrar.
    — Ainda não — disse ele, com determinação na voz — Mas será.
    Algo naquilo causou arrepios em minha pele. Sensação que foi ignorada quando notei, pelo retrovisor, luzes aparecerem na estrada.
    Certamente era a polícia, pensei. Apesar de achar estranho não ouvir o barulho das sirenes. Provavelmente, deveriam querer chegar no cativeiro sem fazer alarde.
    — Fique aqui dentro — disse Neil, saindo do carro — Acho melhor falar com eles primeiro.
    Concordei e o observei se afastar. Três homens saíram do carro, mas só um se aproximou de Neil. Os faróis altos impediram que eu conseguisse identificar os rostos deles. Logo, Neil e o homem que ele conversava se aproximaram da caminhonete onde eu estava.
    — Foi uma sorte tê-la encontrado — disse Neil, abrindo a porta do passageiro — Mas a sorte sempre esteve comigo, não é mesmo, Konrad?
    Konrad?
    Olhei aterrorizada para Neil, no mesmo momento que ele me puxava para fora do carro. Ele me prendeu contra o seu peito, deixando-me de frente para Konrad, que me encarava com ar de poucos amigos.
    — Espero que continue assim, Nathan — disse ele, cruzando os braços — O que faremos com ela agora?
    Nathan? Já tinha escutado esse nome antes, pelos lábios de Konrad. Por que ele tinha mentido e falado que se chamava Neil Durant?
    — O que vocês foram incapazes de fazer — resmungou ele — Impedir que fuja e tente falar qualquer coisa outra vez.
    Eu podia dizer que era uma pessoa sensitiva. Todas as vezes, ou a maioria delas, em que me vi em perigo, tinha sentido de alguma forma. Agora, meu medo era intensificado. O que me aguardava era mais aterrorizante do que qualquer outra coisa que já tinha vivido.
    Comecei a gritar e tentar me desvencilhar dele até que minhas forças acabaram, o divertimento dele virar ira e a pancada em minha cabeça me fazer apagar.

    ***
    Estava em um quarto diferente. Nunca estive naquele lugar antes. As paredes eram cercadas por vidro espelhado. Eu conseguia me ver refletida em todos os lugares.
    Eu me mexi e averiguei que estava amarrada a uma cadeira. Ao meu lado tinha uma mesa com pinças e outros objetos cirúrgicos que eu não sabia identificar pelo nome.
    Meu corpo doía. Lembrei dos últimos acontecimentos e gemi. Eles tinham descoberto que fugi através de Faiga e Samira, mas não porque elas tinham me traído e denunciado. Shane tinha notado que eu estava sumida e conferiu com sua equipe. Os homens contaram o comportamento suspeito de Samira e Faiga, e as torturaram e agrediram até confessarem o que eu tinha feito.
    Não foi diferente comigo quando retornei à casa. Eu tinha que ser o exemplo para todas elas. Então, fui agredida na frente das mulheres assustadas. Agredida até cair inconsciente.
    Ouvi um ruído e vi a maçaneta se mexer. Não tinha para onde fugir, então me encolhi contra a cadeira o máximo que pude. A maçaneta continuou a remexer. Sei que o objetivo é me assustar e, devo confessar, conseguiu esse efeito.
    A maçaneta parou e voltou a mexer de novo. As lágrimas corriam livremente pelo meu rosto, e meu único pensamento foi que essa tortura terminasse logo.
    Meu corpo ferido já não sabia o quanto ainda seria capaz de suportar.
    Ele entrou.
    Nathan.
    Se algum dia alguém me pedisse para descrever fisicamente o diabo, descreveria aquele homem.
    O olhar frio, sorriso demoníaco e andar confiante. 
    Nathan se aproximou de uma mesa onde havia vários tipos de facas, adagas e até mesmo uma espada. Ele pegou uma faca mais parecida com uma adaga, passou a ponta afiada entre os dedos, brincou com a lâmina cortante e se aproximou de mim.
    — O que vai fazer? — murmurei, assustada, quando ele veio em minha direção.
    Encarei a ponta da adaga na mão dele, que depois ele passou sobre minha pele. Vi-o dar a volta na cadeira, ficando às minhas costas. Sinto-o agarrar meus cabelos, puxando minha cabeça para trás.
    — O que vai fazer? — repeti, o terror brilhando em meus olhos — Por favor, não me machuque mais...
    Acho que essa é a primeira vez que realmente imploro misericórdia desde que cheguei aqui. Tenho sempre lutado, lutado com todas as minhas forças, mas sempre acabava no mesmo lugar.
    Seja lá o que ele fosse fazer com a faca, esperava que minha morte fosse rápida.
    Ele soltou minha cadeira e tornou a ficar na minha frente. A faca brilhou em contraste com a luz e reflexos do espelho. Depois de uma risada que eu não poderia denominar menos que demoníaca, ele soltou a faca em cima da mesinha ao meu lado.
    — Todos podemos controlar a dor, exceto aquele que a sente — murmurou ele, segurando meu rosto com força — Uma das minhas frases preferidas de Shakespeare. Veremos quanta dor você é capaz de suportar.
    Os dedos impiedosos cravaram na minha bochecha, obrigando-me a abrir a boca. Meus gritos terrificados apenas o fizeram rir.
    A pinça grudou em minha língua e me debati na cadeira, tomando ciência do que ele iria fazer.
    — Não! — Meu lamento saía incompreensível em minha garganta já machucada — Não, não...Por favor.
    “Mamãe!”
    O primeiro corte me fez petrificar na cadeira.
    As lágrimas inundavam meus olhos, mas não impediram que, mesmo embaçados, eu assistisse através do espelho o que me acontecia.
    “Ana!”
    A lâmina continuou atravessando a minha língua até cortá-la por completo. Senti o sague jorrar pela minha boca, fazendo-me sufocar.
    Outro aparelho foi colocado em meus lábios, mantendo-os separados. Gazes ou algodões foram colocados dentro de minha boca.
    A dor era nauseante.  Fazia-me contorcer e convulsionar.
    Eu desejava morrer. Desejava que meu fim acabasse logo.
    Olhei para a lâmpada, brilhando contra meus olhos.
    “Ana... venha me buscar”, implorei, fechando os olhos.
    — Merda, Nathan.... Ela precisa de um médico.
    — Faça isso se o faz se sentir melhor, depois coloque-a no porão...
    — E se ela morrer?
    — Nos livramos do corpo...
    As vozes ficavam cada vez mais longe de mim. Acho que eu estava morrendo. Talvez fosse a única forma de ficar finalmente...
    Livre.



    8 comentários :

    1. não aguento mais esse sofrimento :(((((

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    2. OMG. Ainda tinha esperanças q ele só havia perfurado a língua dela. Do jeito q ele é bem ao médico a levou, onde provavelmente tentariam reinplantar o pedaço extirpado.
      ������

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    3. Quando achei q ela fosse se livrar desse tormento....q a estória iria pra outra direção.....eles acham ela de novo e ela volta pro inferno *_*

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