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  • Caminhando entre espinhos - Capitulo 18



    Samira gemeu e balbuciou alguma coisa na língua dela. Pela angústia na voz, notei que estava sonhando — ou em uma definição melhor, tendo um pesadelo. A abracei mais forte e sussurrei que estava tudo bem.
    Estávamos em um porão, após uma nova tentativa de fuga minha. Samira tinha seduzido e enganado um dos vigias para roubar as chaves da casa para que eu fugisse durante a madrugada, pulando o muro.
    Mal consegui alcançar meu objetivo, quando fui alcançada por cães farejadores. A casa inteira, dentro e fora, tinha câmeras escondidas. Éramos vigiadas 24 horas.
    Samira e eu levamos uma surra até ficarmos desacordadas por algumas horas. Fomos jogadas e trancadas em um porão, sem roupa e comida. A única forma que encontramos de não morrermos de frio foi uma aquecendo a outra, usando nossos próprios corpos como cobertor. Das duas, Samira que ficou mais machucada. Eu tenho instinto de sobrevivência, então lutava bravamente. Samira era mais delicada e temerosa às represálias. Talvez porque tivesse mais tempo ali. De qualquer forma, era um alvo fácil para eles.
      Mas isso não me impediria de continuar lutando. A cada vez que fosse obrigada a entregar meu corpo contra minha vontade, o ódio que sentia me impulsionava a continuar. Só precisava voltar a estudar a casa um pouco mais e descobrir exatamente onde cada câmera escondida se encontrava.
    Descobri que, além desse cômodo onde estamos presas, existiam outros quartos na parte subterrânea, todos eles temáticos. Com objetos usados para tortura e sadismo, entre outras coisas que prefiro não pensar.
    — Você! — Um homem alto e narigudo, usando rabo de cavalo, apareceu, abrindo a porta — Dia de ligar para casa.

    A cada quinze dias, no início, e uma vez depois de um tempo, éramos obrigadas a entrar em contato com alguém da família, para avisar que estávamos bem e felizes.
    Eles nos mostravam fotos de casa, relatórios de como andavam nossas famílias e principalmente de que estavam sob a mira deles. Foi com alívio e angústia que soube que minha mãe estava bem.
    Klaus informou que ela estava recebendo os remédios, e que se quisesse que continuasse assim, teria que colaborar com eles.
    Tudo em nossas vidas era controlado. Nossa conta nas redes sociais. Postavam fotos, mensagens, conversavam com nossos amigos como se fôssemos nós.
    Ninguém nunca desconfiava o que acontecia realmente.
    Vesti o robe que ele me entregou e o segui para fora. Antes de sair e a porta ser fechada novamente, olhei para Samira, encolhida na cama.
    — Quando vamos sair daqui? — perguntei a ele, que me empurrou em direção à escada — Estamos com frio e com fome. Samira ficará doente.
    Eu não queria que ela sofresse ainda mais por minha causa. Enquanto eles nos achassem valiosas para eles, nos tratariam fisicamente bem, pelo menos no que se tratava de higiene e alimentação.
    — Quando aprenderem a se comportar.
    Odiava esse homem, como todos os demais. Mas ele principalmente, pois tinha o prazer de nos agredir fisicamente, diferente da maioria, que apenas xingava e ameaçava com seus revólveres.
    — Faz quatro dias — murmurei, mas calma agora — Quatro dias trancadas ali. Não vamos tentar fugir de novo.
    Ele me guiou até o escritório onde Klaus já me esperava, ao lado de Shane.
    Sentei na cadeira entre eles e esperei que fizesse a ligação.
    — Mamãe?
    — Minha filha...
    Um soluço agudo saiu da minha garganta. Todas as vezes eu dizia que conseguiria me controlar e aproveitar meus poucos momentos com ela, mas eram sentimentos demais sufocados em meu peito.
    Justificava meu choro dizendo que era saudade. A arma de Shane em minhas costas não me permitia fazer diferente.
    Queria perguntar como andavam as coisas no Juarez; se Caveira ainda dominava o morro. Se a tinha ameaçado de alguma forma. Mas tudo o que conseguia fazer era ouvir calada e dizer uma ou outra mentira. Mamãe também não falava nada que pudesse me deixar preocupada. Na cabeça dela, isso faria com que voltasse para casa, e ela estava aliviada por eu estar bem, segura e feliz.
    — Quando você liga de novo, filha? — sua voz tinha um toque de tristeza.
    — Não sei — encarei Klaus, que ouvia tudo pelo viva-voz — Eu tenho outra viagem para fazer. É, vou para o Japão, mas vou te mandar mais dinheiro...
    Klaus comprimiu os olhos com o que disse, mas isso não importava. Prometia dinheiro à minha mãe sempre que ligava, e sabia que eles teriam que cumprir.
    — Toma cuidado, garota — disse ele, quando a ligação foi encerrada — Ainda perderemos a paciência com você. Falcão não esqueceu o que aconteceu. Sua sorte é que o chefe se diverte muito.
    O chefe. Muitas vezes eles falavam dessa pessoa assim. Eu nunca tinha o visto, nem a Samira, mas era claro que havia alguém poderoso e covarde por trás de tudo aquilo.

    ***
    A cada semana que passava, minha angústia aumentava e minha fé em fugir daqui morria um pouquinho. Tive toda e qualquer tentativa frustrada. Parecia que eles sempre estavam um passo à minha frente.
    Hoje era o meu dia de ir à tal agência, que um dia pensei que trabalharia para tirar fotos.
    Os vidros do carro eram escuros, impedindo que qualquer pessoa pudesse ver seu interior. As portas estavam travadas e Shane estava ao meu lado com sua arma em punho.
    A única chance que eu tenho é a agência.
    — Você terá uma visita — disse ele, quando o carro começou a entrar na cidade — Se não quiser que sua amiga seja ferida, é melhor se comportar.
    — Amiga? — disse, com a voz trêmula.
    — Mrs. Jones —  disse ele —  Vaca insistente.
    Agatha estava nos Estados Unidos e queria me ver. Entre chorar e sorrir de felicidade, escolhi a segunda opção. Agatha era esperta. Ela saberia ler os sinais que daria a ela e me ajudaria.
    — Não tente nenhuma gracinha —  Shane puxou meus cabelos, puxando minha cabeça para trás — Sabemos tudo sobre a Sra. Jones e o marido dela, que inclusive estão sendo vigiados no hotel. A vida deles estará em suas mãos, entendeu?
    Meu coração se contraiu no peito. Não desejava que nada de ruim acontecesse com Agatha. Foi uma das poucas pessoas no mundo que sempre me ajudou. Não suportaria que algum mal acontecesse a ela também.
    Lembrei-me de Ana, e que, mesmo sem intenção, tinha sido eu quem a levou à morte. Não conseguiria lidar com mais essa culpa. Teria que encontrar uma forma de conseguir a ajuda de Agatha sem colocar a vida dela e de seu marido em risco.
    Mas só o fato de rever Agatha me deixava feliz.
    — Entendi — murmurei, e ele soltou meus cabelos — Não farei nada.
    ***

    Pelo que entendi, ao observar algumas pessoas, nem tudo ali era mentira. Usavam a agência para mascarar as coisas que eles faziam. Existiam pessoas honestas e que não tinham a menor consciência do que estava acontecendo.
    — Olá — um homem se aproximou de nós quando chegamos em um dos estúdios de foto — Você deve ser a Srta. Mendes. Eu sou Konrad, o fotógrafo.
    Ele estendeu a mão e sorriu para mim. Ele tinha olhos azuis e cabelos cacheados, que davam a ele um ar angelical.
    Apertei a mão que ele estendeu a mim e correspondi ao sorriso que me dava.
    — Estarei por aqui — disse Shane, indo para o outro lado da sala — Mas ficarei de olho.
    Konrad piscou o olho para mim e indicou o lugar que deveria ficar.
    — Mal-humorado esse seu agente, não é? — ele brincou, e decidi que ele seria uma das pessoas a me ajudar com meu plano — Essas são as roupas que vamos usar. A cada sessão de fotos você troca as roupas, ok?
    — Tudo bem — murmurei, pegando uma das roupas que ele ofereceu.
    Eu só precisava de tempo para Shane baixar um pouco a guarda e ganhar a confiança de Konrad.
    Quase duas horas depois, tinha feito umas cinco trocas de roupas e me sentia esgotada, tanto fisicamente como mentalmente. Todas as vezes que tentava dar um sinal ao fotógrafo, Shane dava um jeito de aparecer.
    — Querida, sei que modelos devem fazer carão — Konrad brincou — Mas que tal sorrir em algumas fotos?
    Tentei fazer isso, mas tinha a impressão que meu sorriso pareceria tão falso como eu transmitia.
    — O problema é aquele homem ali, né? — indagou ele, apontando Shane — Vou dar uma palavrinha com ele.
    Aproveitei que Konrad e Shane discutiam e corri até o celular de Konrad, próximo às araras de roupas.
    “Please, help me”, digitei rapidamente no bloco de notas e me afastei.
    Os vinte minutos seguintes foram angustiantes. Quando Konrad disse que faria uma pausa para fazer uma ligação, senti meu coração disparar.
    Por favor, por favor, por favor, meu coração praticamente gritava.
    Konrad ficou alguns segundos olhando para a  tela do celular, e em seguida fez a ligação que tinha falado.
    — Nathan? — Konrad olhou para mim, depois para Shane antes de se afastar com o telefone colado no ouvido.
     Ele foi se afastando, e me perguntei se ele tinha conseguido entender o recado que dei a ele.
    Cinco minutos depois, ele retornou, meu olhar implorava por ajuda. 
    — Ok. Então, peça que ele venha — Konrad desligou e veio até mim — Escuta, estamos há bastante tempo aqui. Que tal irmos até meu escritório e pedirmos comida? Esse negócio que modelo não come é pura lenda.
    Ele tinha entendido! Quase o abracei, agradecida, quando seguimos para a sala dele.
    Eu tinha conseguido! Meus olhos se encheram de lágrimas ao me dar conta. Logo eu, Samira e todas as garotas trancadas naquela casa teriam a sonhada liberdade.
    — Fique aqui — Konrad sussurrou quando passamos pela porta — Vou dar um jeito nele e já volto.
    Assim que avistei a cadeira próximo a uma mesa, desabei sobre ela e chorei.
    Chorei por todos os dias de cativeiro. Chorei por todas as coisas ruins que aconteceram desde que deixei o Brasil e chorei porque, finalmente, toda a tortura iria acabar.
    Voltaria para casa, veria minha mãe e minha tia. Seguiria em frente e, de alguma forma, reconstruiria minha vida. Estava tendo uma segunda chance e iria vivê-la.
    Depois de calma, comecei a ficar angustiada conforme os minutos passavam. Onde estava Konrad?
    — Foi buscar ajuda — respondi a mim mesma — Só foi buscar ajuda, Fabiana.
    Meu medo era que Shane tivesse desconfiado de algo e feito algum mal a ele. Outros longos minutos se passaram, até que a porta foi aberta e Konrad ressurgiu.
    — Ainda está aqui — ele sorriu, um sorriso diferente agora — Não é tão esperta quanto pensei. Cuide dela.
    Ele saiu da porta e Klaus apareceu.
    Emiti um grito angustiado antes de correr em direção à porta. Era uma pífia tentativa de fuga, jamais passaria por eles, mas tinha que tentar.
    — Sua visita chegou, minha querida — disse Klaus — Não acho que a senhora inglesa aprecie escândalos.
    Foi o suficiente para me fazer calar.

    5 comentários :

    1. A cada tentativa frustrada dela a gente sofre junto... que história!! Por favor poste mais capítulos pra gente!!!!! Bjsss

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    2. coração na mão a cada capitulo é só o começo do sofrimento dela

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    3. Beth quanto tempo ela ficou presa lá?

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