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  • Louco por você - Capitulo 25 e 26




    Ellen dizia que eu estava usando o casamento do meu pai como desculpa, para fugir dos primeiros ensaios com Liam. Honestamente, eu sabia que ela tinha razão, mas precisava desse fim de semana para meditar.
    Podia estar sendo covarde, mas eu tinha certeza que, a partir do primeiro ensaio, a partir da primeira hora juntos, seguiríamos para um caminho que não haveria volta. Eu só queria um pouco da minha casa, da minha família. Dos amigos que deixei para trás.
    — Tem alguém em casa?
    Apesar das portas da oficina estarem entreabertas, tinha certeza que não estava funcionando. Vi James descer e me encarar com um sorriso feliz. Ele usava a parte de cima do terno e, claro, calças jeans. Erámos os tipos de amigos que poderiam brigar, passar anos sem ver a cara um do outro, mas cada reencontro seria como se nada tivesse acontecido.
    — Eu sinto muito, J. — ele me abraçou forte, e percebi que não importava mais, toda mágoa que tive dele, ao deixar Peachwood, desapareceu — Senti muito sua falta, minha querida.
    — Também senti sua falta — sorri, secando as lágrimas antes que saltassem de meus olhos. 
    Ficamos apenas nos abraçando por longos momentos.
    — Veio para o casamento do seu pai, eu suponho?
    — Achei que poderia me dar uma carona até a fazenda.
    — Com todo prazer.
    Durante o caminho, fiz um breve resumo sobre como vem sendo minha vida em Nova York, e não poderia deixar de falar em Liam.
    — Então está apaixonada? — perguntou ele, estacionando no campo aberto, ao lado de dezenas de outros carros.
    Acho que a cidade inteira está aqui.
    — Se eu não estiver, creio que há uma grande possibilidade de ficar — suspirei, antes de tirar o cinto — Ele é diferente de tudo que já conheci, James. Na maior parte do tempo, me sinto completamente atraída e enfeitiçada; na outra parte, algumas vezes o detesto.
    James circulou o carro e colocou seus braços em meus ombros antes de dizer:
    — Acho bom que ele seja bem legal com você — seguimos caminhando assim — Ou esse playboy da cidade grande verá o que um homem do Texas é capaz de fazer.

    Não mexa com o Texas! Esse era o nosso lema.
    Fomos para a parte dos fundos do celeiro. O casamento seria celebrado ali, a céu aberto. Surgimos no momento que Charlote atravessava a nave, feita de pétalas de girassóis. Usava vestido creme, e uma coroa de flores campestres enfeitava sua cabeça.
    Nunca a vi tão linda como hoje. Meu pai só tinha os olhos apaixonados focados nela, mas desviaram para mim, quando fui em direção aos últimos bancos vazios. Amava muito meu pai, e vi, pelos seus olhos emocionados, como era importante que eu estivesse no altar.
    Depois de pegar Charlote, que foi entregue por Ted, eles foram em direção ao altar. Sorri para Penelope, que fez um sinal de agradecimento, e cumprimentei meus irmãos com um leve balanço de dedos.
    Foi uma cerimônia bonita. Eu podia ter deixado a fazenda carregada de mágoa e raiva, mas não podia negar que o amor de Charlote e meu pai havia resistido ao tempo. Era verdadeiro e forte.
    — Que bom que você veio, Julienne — Penelope me alcançou antes que eu fosse com os convidados em direção ao celeiro — Raul ficou muito feliz.
    — Ele é meu pai. Eu não me perdoaria se meu orgulho tivesse me impedido de vir.
    Ela tocou o meu rosto e me olhou seriamente, como se me estudasse.
    — Nova York está fazendo muito bem a você — encaixou seu braço nos meus e caminhamos para onde seria realizada a festa.
    Apesar de sorrir e aparentemente o ar da fazenda já estar fazendo bem a ela, era impossível não perceber que os olhos continuavam tristes. Assim como ela, quando deixei a carta de despedida na casa de Adam, acreditei que ele iria procurá-la assim que a lesse. Isso não aconteceu.
    ­— E como anda o meu bebê?
    O primeiro sorriso legítimo brilhou em seu rosto.
    — Nem nasceu e já está sendo muito mimado.
    Mal nos acomodamos e senti uma mão tocar o meu ombro. Era papai, ao lado de sua nova esposa.
    — Podemos falar com você, minha filha?
    Penelope me incentivou com o olhar, e concluí que precisávamos mesmo esclarecer algumas coisas. Quando chegamos em casa, para minha surpresa, seguimos para o meu antigo quarto. Estava igualzinho como deixei, embora houvesse sinais de que era cuidado diariamente.
    Era como se estivesse pronto para quando eu voltasse. Aquilo me tocou. Depois do Ano Novo, não tive coragem de procurar nenhum deles, tampouco fui procurada. Saber que ainda esperavam por mim arruinou todas as minhas defesas.
    — Quero dizer que, à minha maneira, eu amei a sua mãe.
    Sentei na cama e coloquei um travesseiro em meu colo.
    — Pai, isso já não importa mais.
    — Importa, Julienne — foi Lola a dizer — Queremos que saiba como tudo realmente aconteceu.
    — Tudo bem.
    Papai sentou ao meu lado e segurou minhas mãos trêmulas.
    — A parte que Charlote e eu fomos namorados, na adolescência, você já conhece — balancei a cabeça, confirmando — Como todo jovem, erámos orgulhosos e cabeças-duras. Naquela época, os homens eram um pouquinho mais machistas. Comigo não era diferente. Minha família sempre foi muito religiosa, e eu acreditava que, quando terminássemos o colegial, devíamos nos casar e Charlote cuidaria da casa e dos filhos que teríamos.
    Ele fez uma pausa e bateu sobre o colchão, pedindo que Lola se juntasse a nós.
    —  Charlote sempre foi à frente do seu tempo — ele sorriu carinhosamente para ela — Assim que nós nos formamos, decidiu que deveríamos prolongar a decisão de ficarmos noivos. Ela queria ir para a universidade. Aquilo me deixou muito decepcionado. Achei que estava tendo outras prioridades que não fosse eu e a família que queria formar com ela.
    Mais do que tristeza, havia arrependimento em sua voz.
    — Tivemos a pior e mais calorosa briga do nosso relacionamento. Ela foi para uma viagem de férias, e eu disse que não estaria esperando por ela quando voltasse.
    — E não esperou — disse Lola. Apesar da acusação, havia um toque de humor em suas palavras.
    Papai sorriu e continuou narrando sua história.
    — Conheci sua mãe. Ela era exatamente o tipo de mulher que eu tinha idealizado  — bonita e disposta a ter uma família. Começamos a namorar, e eu quis muito esquecer Charlote com ela.
    Mas não conseguiu, concluí em pensamento. Nunca tinha conseguido, por mais que tenha tentado esquecer.
    — Quando Charlote voltou de viagem, eu sabia que não podia continuar usando Lidia como escudo. No dia que fui terminar com ela, descobri que estava grávida de Dallas.
    — Eu insisti que seu pai devia ficar com ela — os lábios de Lola tremeram, e papai afastou uma mão das minhas para pegar a dela — Era o certo a fazer. Nós tínhamos jogado fora a oportunidade de sermos felizes.
    — Charlote foi para Nova York e eu vim para o Texas. Os pais de Lidia, já bem idosos, possuíam essas terras, e ela queria ficar mais próxima da família.
    Não tenho qualquer lembrança deles. Faleceram nos primeiros anos de casamento dos meus pais. Tudo o que sei da família vinha de Dallas e meus irmãos.
    — Os anos foram passando — ele continuou — Veio Austin e assumi a posição de xerife. Mas, apesar de ter exatamente as coisas como desejava, no fundo me sentia vazio. Faltava parte de mim. Uma parte que deixei para trás.
    Faltava Charlote.
    — Não era feliz e nem fazia sua mãe feliz. Ela notou isso. Quando esqueci, pela terceira vez, nosso aniversário de casamento, Lídia decidiu que não podíamos continuar assim — disse ele — Exigiu que eu procurasse Charlote e avaliasse o que eu realmente sentia. Um dia antes de ir, pediu que tivéssemos uma última noite juntos. Para que ficasse de lembrança, caso eu decidisse pelo meu primeiro amor.
    — Você escolheu ela — apontei para Lola.
    — Quando a reencontrei, também estava saindo de um casamento, mas foi como se nunca tivéssemos nos afastado. Voltei a ser o garoto de dezoito anos. Completamente apaixonado por aquela mulher.
    — Eu nunca deixei de amar o seu pai, Julienne — Lola fungou e papai ofereceu o lenço de seu paletó a ela — Foi o melhor mês da minha vida, após tanto tempo.
    — Voltei para casa, disposto a dizer à sua mãe o que sentia. Tinha os meninos, e não queria de forma alguma perder o contato com eles.
    Eu podia imaginar como a história terminaria.
    — Sua mãe me recebeu com a notícia de que estava grávida  do Clyde, antes que pudesse dizer qualquer coisa — ele respirou fundo, essas lembranças do passado ainda mexiam com ele — Fiquei com tanta raiva dela. Brigamos como nunca tínhamos feito antes. Acusei-a de ter feito aquilo de propósito e que havia feito o mesmo da primeira vez. Charlote me abandou uma vez por aquele motivo e faria isso de novo.
     Só percebi que chorava também quando Lola ofereceu o lenço que usava.
    — Bebi muito naquele dia, liguei para Charlote e disse que tinha cometido um engano e que ficaria com a minha família. Não sabia que também esperava um filho meu.
    — Por que não contou a ele, Lola? Por que não contou ao meu pai, que também carregava um filho dele no ventre?
    — Orgulho ferido. Raiva, talvez. Tive medo de que me tomassem Paula. Conheci o homem que assumiu a paternidade dela e deixei que a vida seguisse seu rumo.
    — Se você odiava minha mãe — virei em direção a ele — Como foi que eu nasci?
    — Julienne, apesar de todos os erros que sua mãe e eu fizemos, de todas as brigas e desentendimentos, no fundo, sabia que ela me amava, apesar de tudo. Por seus irmãos, e já que tinha perdido pela segunda vez quem eu amava, dei mais uma chance ao nosso casamento. Eu guardaria para sempre a memória dos meus dias com Charlote.
    Na realidade, meu pai não tinha traído minha mãe, como acreditei. Ela o tinha empurrado para os braços de sua amada. E a vida cruelmente os tinha separado.
    — Quando você... você soube... — gaguejei, respirei fundo e me obriguei a continuar: — Quando soube sobre Paula?
    — Bom, você soube sobre toda aquela história maluca e do acidente dela — Lola respondeu — Paula descobriu aos quinze anos, que o homem que a criou não era pai dela.  No hospital, disse que poderia ter morrido e nunca ter falado com o pai. Exigiu que contasse a ela.
    — Então, quando foi vê-la — disse ao meu pai — Já sabia que era sua filha.
    — Não. Paula ficou muito surpresa, mas não quis que eu dissesse nada a Raul antes de conhecê-lo melhor.
    — Então, era isso que ela ia dizer, aquele dia na cozinha — murmurei, finalmente ligando os pontos — Não veio atrás de paz, veio atrás do meu pai. Do nosso pai.
    — Só soube que era pai dela quando Michelle nasceu.
    Lola olhou para os próprios pés, riscando o chão.
    — Estava começando a me entender com Raul e pedi que ela esperasse um pouco mais.
    Eram tantas informações para absorver. Embora a imagem de homem íntegro e honesto, que sempre fiz do meu pai, voltasse, não apagava o fato que haviam escondido aquela história de mim.
    — Filha, sei que no momento é difícil digerir tudo isso — ele afagou meus cabelos de forma carinhosa — Só espero que um dia não me odeie mais.
    Observei ele e Lola se levantarem.
    — Papai? — chamei, antes que chegassem à porta — Nunca odiei você. Nem a Charlote.
    Voei para os braços dele. Os três unidos, chorando, ligados por um sentimento chamado amor.
    — Minha menina cresceu e eu nem percebi — ele sorriu, em meio às lágrimas.
    Eu tinha um longo caminho pela frente, mas não era a mesma Julienne que tinha fugido da fazenda. E certamente não seria a mesma a voltar para Liam.
    Enquanto o casal voltava para a festa, pedi um momento para me recompor. Olhei carinhosamente para meu quarto quando fiquei pronta. As melhores recordações da minha vida tinham passado ali, na fazenda. Foram elas que me transformaram em quem era hoje. A vida diria quem eu seria amanhã. Mas isso ficaria para depois, agora queria voltar para a festa e curtir esse momento especial com minha família e amigos.

    ***

    Acordei com um afago de Emma e uma bela bandeja de café da manhã. Eu tinha me esquecido de como era bom ser tão cuidada.
    — Já está de pé.
    — A vida na cidade grande está te deixando molenga — ela suspirou e tocou o meu queixo — Que bom que você está de volta.
    — Está sendo um ótimo fim de semana.
    — Fim de semana? — ela enrugou a testa — Austin disse que tinha voltado para ficar.
    — Quando ele disse isso?
    Pulei da cama e rapidamente troquei a camisola por jeans, camiseta e, claro, meu par de botas.
    — Na cozinha, há dez minutos — disse ela, vindo até mim no banheiro — Pediu que preparasse o seu café da manhã na cama, como boas-vindas.
    Arg! Eles me irritavam quando agiam assim. Ter me divertido na festa, dançado com eles e cantado em frente à fogueira não significava que tinha voltado para casa, como uma ovelha perdida.
    — Onde ele está agora?
    — Acho que ainda na cozinha.
    Austin estava em frente à janela, com uma fumegante xícara de café na mão, observando as pastagens.
    — Por que disse a Emma que eu tinha voltado para casa? — perguntei, logo quando entrei.
    — Porque é a verdade — ele sorriu — Papai disse que já te explicou tudo. Está aqui, exatamente onde deveria estar.
    — Nada mudou, Austin — aborrecida, coloquei as mãos na cintura, mas me recusei a bater os pés — Amanhã volto para Nova York.
    Agora ele estava com raiva também.
    — Não vai, não. Papai pode ter tirado alguns dias de lua de mel, mas nós sabemos o que é melhor para você.
    — Nós quem? — sorri, nervosa — Claro! Dallas e Clyde.
    — O que está acontecendo aqui? — Dallas surgiu na porta, sem camisa e completamente desgrenhado.
    Ou tinha acordado com nossa gritaria ou Emma tinha corrido para pedir o auxílio dele.
    — Austin acha que irá me impedir de voltar a Nova York.
    Bufando feito um touro quando atiçado, ele veio em minha direção. Não me movi um passo. Não importa o que eu dissesse ou fizesse, sabia que jamais levantaria a mão contra mim.
    — Garota, você não vai para lugar nenhum.
    — Não pode me manter presa aqui — virei para Dallas e também o desafiei — Diga a ele, xerife. Diga que já tenho vinte e um anos e sou dona do meu próprio nariz.
    Resignado, Dallas coçou a cabeça. Como um homem da lei, ele sabia que eu tinha razão.
    — Austin, se ela quer voltar, é uma decisão dela — virou em minha direção com um olhar triste — Vamos respeitar isso.
    Austin poderia não levantar a mão contra mim. Era algo dele, aliás, de todos eles, nunca levantar as mãos para uma mulher, mas não queria dizer que pouparia Dallas, mesmo ele sendo o mais velho.
    — Seu hipócrita mentiroso — jogou a xícara dentro da pia, que espatifou em dezenas de pedaços.
    Ouvi o resmungo agitado de Emma. Ah, ele teria sérios problemas depois. Bem feito.
    — Passou todo esse tempo pedindo favores aos seus colegas policiais em Nova York. E vem me dizer em respeitar a decisão de Julienne?
    Opa! Aquilo era novo para mim. Olhei para Dallas com milhares de perguntas não pronunciadas.
    — Aquilo era bem diferente, Austin — ele olhou feio para nosso irmão, parecia que Austin precisaria de um baú para  armazenar toda confusão que vinha acumulando — Precisava ter a certeza que Julienne estava bem e segura.
    Apesar de parcialmente me sentir chateada por não confiarem tanto em mim, por outro lado, fiquei muito feliz por não ter sido totalmente esquecida como eu imaginara. Passei dias amargando a tristeza de ter sido substituída por Paula no coração deles, mas, na verdade, sempre cuidaram de mim, mesmo quando eu não queria.
    — Isso explica o policial que começou a aparecer no café, me enchendo de perguntas — disse a Dallas — Apesar de não precisar, obrigada.
    — Sempre será nossa menininha, Julienne — murmurou Dallas — Mas eu vou tentar enxergar a mulher que está se tornando.
    — Para mim, irá continuar sendo a menininha mesmo — disse Clyde, ao entrar na cozinha e se escorar na mesa.
    Aparentemente, os dois estavam ao meu lado. O que fez Austin sair bufando para os estábulos. Que ele ficasse lá com seus animais. Ele teria que entender que eu não era um dos seus cavalos a ser domado.
    — Amo vocês dois — recebi um abraço sanduíche deles.
    Amo Austin também, embora, no momento, estivesse muito zangada com aquele cabeça-dura. 

    Capítulo 26 

    Eu não ficava tão nervoso desde o meu exame de admissão, na universidade.
    É só uma garota, repeti durante todo o percurso até o Let’s. Mas quem eu estava querendo enganar? Certamente, não eu.
    Havia dezenas de fatos a considerar, que nos tornavam impróprios um para o outro. Um dos mais relevantes, a idade. Eu já tinha vivido todas as experiências e aventuras da minha vida, enquanto ela era como uma rosa desabrochando. Eu queria paz e tranquilidade; Julienne deveria conquistar o mundo.
    Sei que me afastar seria o mais honrado que eu poderia fazer, mas o anseio de ficar mais perto dela era maior.
    Observar de longe, como fazia agora, através da fina camada de vidro, não era suficiente. Eu precisava atravessar a porta. Para o inferno todas as boas intenções.
    — Está atrasado, doutor.
    Não, eu não estava. Tinha passado um tempo considerável na calçada, observando-a de longe. Eu vi todas as vezes que mordia os dedos e olhava para o relógio. O jeito que balançava as botas no ar ou dedilhava no mármore do balcão  com impaciência.
     — Desculpe — sorri, sacudindo os cabelos, que começavam a ficar úmidos com a neve derretida — Normalmente sou tão pontual quanto um britânico.
    Julienne pulou do balcão e veio ao meu encontro. Alisou meu casaco, afastando os pequenos pontinhos brancos. Seus olhos presos nos meus, acolhedores e carinhosos. Eu me perguntava se, em todos os ensaios com Noah, eles trocaram essa espécie de intimidade.
    Não gostei do rumo dos meus pensamentos, então apenas permiti que me ajudasse a me livrar da peça e depois colocasse no espaldar de uma cadeira.
    — Está nevando mais forte hoje — ela olhou fascinada através da janela — No Texas não é assim.
    — Você tem um sotaque bonitinho. De que lugar do Texas você é?
    — Peachwood — ela sorriu com nostalgia — Um condado quase minúsculo. É um desses lugares pitorescos, onde todo mundo se conhece e você conhece todo mundo.
    — E o que uma flor do Texas veio fazer em Nova York?
    — Estava fugindo de uma gang.
    — Está de brincadeira.
    Ela apenas sorriu, olhou para as próprias mãos e logo mudou de assunto.
    — Acho melhor começarmos.
    Verdade ou não, era um assunto que ainda a incomodava. Sua expressão corporal advertia que não era o momento para insistir no assunto.
    — Acho que primeiro deve ouvir a música — disse ela, enquanto caminhava até o aparelho de som — É uma batida mais agitada, mas a letra é muito romântica.
    Ouvimos duas vezes a mesma faixa. Ela tinha razão sobre a letra. Falava de encontros e desencontros de um casal. Em acreditar quando tudo parecia impossível e, quando o amor é forte e verdadeiro, vencia todas as circunstâncias.
    Se Julienne não tivesse selecionado a música antes de eu me tornar o seu par, poderia jurar que tinha escolhido pensando em nós dois.
    — A coreografia consiste em duas partes — disse, dando pausa na música — Temos passos juntos e separados. Eu vou mostrar primeiro o que faremos sozinhos.
    Puxei uma cadeira, virando-a ao contrário. Cruzei minhas mãos sobre o encosto e apoiei meu queixo sobre elas. Mantive um olhar sério ao observá-la, mas eu estava em uma briga injusta entre o divertimento e a atração que ela exercia sobre mim.
    Quem poderia me culpar? Estava com um dos seus shortinhos jeans, uma regata branca e justa, por baixo de uma camisa xadrez nos tons vermelho e azul. Ah, e as botas. Sexy como só uma garota do Texas conseguia ser. Remexi na cadeira, ordenando ao meu corpo que se comportasse.
    A música voltou a tocar. Inicialmente tímida, ela começou a explicar as batidas de pernas, movimentos de braços, os tipos e quantidades de giros, sempre no ritmo da melodia.
    Eu sabia que deveria me concentrar exclusivamente no que ela falava. Mas era difícil quando ela se inclinava para frente e o decote da regata ficava mais evidente, ou quando levantava uma das pernas e o jeans, já curto, subia um pouco mais.
    Deus! Como Noah aguentava? Pior do que isso, certamente ele tinha observado as mesmas coisas que eu e ficado também de...
    — Liam, tudo bem? — Julienne me encarava, preocupada.
    Nada estava bem. Queria quebrar outra perna do Noah. Talvez os dois braços, também. Melhor seria se, acidentalmente, eu enfiasse o bisturi em seus dois olhos, durante uma cirurgia.
    — Acha que consegue pegar os passos?
    — Acho que sim — murmurei.
    — Você me olhava estranho — ela sorriu, para diminuir a tensão — Parecia que ia desmaiar. Tudo bem se não se sentir confortável para isso.
    — Estou bem, Julienne — resmunguei — Poderia mostrar de novo?
    — Claro.
    Não daria certo se, a cada minuto, eu ficasse pensando no que Julienne e Noah tinham feito. Então, dessa vez resolvi prestar realmente atenção na dança. Era uma coreografia simples, não via nenhum problema em decorá-la.
    — Bem, agora nós dois... — ela pigarreou, desconcertada — Nós dois vamos ter que ensaiar.
    Com um sorriso arrogante, o melhor que poderia exibir, caminhei até o aparelho de som e dei pausa na música.
    — Como eu disse aquele dia — peguei o meu celular e dei uma passada pela playlist. Depois de escolher a que eu queria, coloquei-o sobre o balcão — Nossos corpos precisam se sentir confortáveis um com o outro.
    Ao contrário de Julienne, escolhi a música de forma proposital. Love me tender, Elvis Presley.
    — É como nossos corpos se conectam — segurei suas mãos e as coloquei sobre meus ombros, as minhas encaixando em sua cintura, puxando-a mais próximo de mim — Como se completam.
    Seus braços circularam meu pescoço e sua cabeça se apoiou em meu peito. Dançamos ao som de Elvis. Completamente embalados pela canção e toda emoção que a letra nos trazia.
    Love me tender
    Love me true
     Palavras que um dia gostaria de ser capaz de falar, mas ansiava ouvir também.
    Já ouvi dizer que dançar era como fazer amor. Tinha que haver uma química entre o par. Quando a música acabou, continuamos dançando, lentamente, passos quase tímidos, temerosos que o momento de encantamento chegasse ao seu fim.
    — Acho que pode dar certo — murmurei, quando seus olhos se ergueram para mim.
    E não me referia apenas à dança.
    Alisei as maçãs de seu rosto com meu polegar. Deus, esperava não estar levando nós dois para a destruição.
    — Acho melhor aqueles primeiros passos primeiro — me afastei, indo em direção ao som.
    Eu tinha que ir com calma, decidi. Julienne era como um precipício sem fim. A loucura de tudo isso é que eu não tinha medo de mergulhar. Queria saber o que havia lá no fundo.

    ***

    Depois de quase uma hora, suados e exaustos por sincronizar as partes da coreografia que não envolvia nossos corpos grudados, desabei ao lado dela no chão. 
    — É, tinha razão quando disse que era bom — Julienne apoiou-se em seu cotovelo para me encarar — Dança quase tão bem quanto eu.
    Fiquei de joelhos, depois estendi minha mão, ajudando-a a ficar em pé.
    — Admita, danço maravilhosamente bem — eu disse, em tom provocativo — Possivelmente melhor que você.
    — Não sei o que é maior em você — começamos a colocar as mesas e cadeiras de volta em seus devidos lugares — Seu ego ou sua arrogância?
    — Deixe essas perguntas íntimas para daqui a algumas semanas, senhorita — não consigo vencer a necessidade de provocá-la — Tenho algo grande, que irá agradá-la muito mais.
    A forma como suas bochechas ficam rosadas e o jeito que seus olhos querem me fuzilar me divertem muito.
    Não sei como tive a ideia, mas parecia que minha boca e meu cérebro dançavam dois ritmos diferentes.
    — Nós já vimos que o concurso não será um problema para nós.
    Julienne me encarou, desconfiada, e se apoiou contra uma mesa, cruzando os braços.
    — Mas?
    — Como disse, não estou interessado no dinheiro, mas há algo que talvez possa fazer por mim.
    Certo, Liam. Pare enquanto ainda dá tempo.
    — Isso seria?
    — Há algum tempo, venho pensando em sair da casa dos meu pais...
    — Espera um pouco — ela levantou a mão no ar — Ainda mora com os seus pais?
    — Qual o problema nisso? — perguntei, sem nenhum constrangimento — Não preciso me preocupar com roupas e casa limpa. A comida é excelente e sempre há companhia à noite.
    — Eu só não achei que fosse o garotinho da mamãe —  sorriu, balançando a cabeça.
    — Nem você a garota boba que eu imaginava.
     Nos encaramos por alguns segundos. Ela foi a primeira a desviar o olhar. Apesar de ser muitas vezes petulante, havia uma fragilidade nela que me intrigava.
    — Voltando ao assunto, preciso encontrar um apartamento —  nunca fiz o tipo encabulado, mas parecia que era nosso primeiro encontro e estava convidando-a para o cinema — Pode ser muito chato e gostaria de receber algumas opiniões. 
    — Quer minha opinião para escolher um apartamento.
    Não. Estou inventando uma desculpa para ficarmos mais tempo juntos. Deixa de ser tão cega, garota.
    — Em troca da dança — respondi no lugar — Uma mão lava a outra. As minhas seguram o troféu e a suas os dez mil dólares.
    — Está me parecendo chantagem.
    — Eu diria troca de gentilezas, afinal, prometi te ajudar muito antes.
    — Hum...
    Ela mordeu a ponta do polegar, ponderando sobre minha proposta.
    — Só tenho folga aos domingos à tarde. Uma vez por mês, nas terças.
    — Eu pago o almoço ou jantar — estendi a mão para fechar o acordo.
    — Tudo bem.
    Vestimos nossos casacos, e eu a segui até a porta. Aguardei que verificasse as trancas e que colocasse as mãos em concha contra o vidro, conferindo mais uma vez o interior do café.
    — Quer uma carona para casa? — indiquei meu carro do outro lado da rua.
    — A irmã da Ellen está chegando — ela apontou para o velho Chevette vermelho se aproximando — Viu? Não tem com que se preocupar.
    O carro parou ruidosamente em frente ao Let’s. Fui educado dessa vez e saudei a jovem atrás do volante, com um sinal.
    — Liam? — Julienne parou na porta entreaberta — Obrigada.
    Concordei com a cabeça e fiquei observando o carro se afastar. Talvez o plano fosse não fazer planos. Deixar as coisas rolarem.
    Tinha dado certo essa noite. Tinha sido perfeita. E esperava ansiosamente por outro dia de ensaio.

    Com Julienne. 

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    O Preço de um amor

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