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  • O Preço de um amor - Capitulo 5




    Rebecca foi recebida com grande festa por todos do orfanato, principalmente pelas crianças menores. Ela também sentia saudades delas, foram sua família por longos anos.
    Foi com muita insistência que conseguiu que a Madre Superiora aceitasse parte do dinheiro que o Sr. Hunter havia dado a ela. Crescera ali, foi amada e cuidada da melhor forma que podiam. O mínimo que poderia fazer era retribuir de alguma forma.
    — Nossa! Eu sempre quis vir em um lugar como esse, Rebecca — disse Briana, sua boca transbordando de sorvete. Ela mal conseguia falar — Lembra quando víamos todos aqueles cartazes e nos imaginávamos aqui dentro?
    Estavam na mesma sorveteria que tinha ido com Carol no dia anterior. Era uma das soverterias mais conhecida da cidade. Eles tinham uma variedade impressionante de massas e sabores. Briana encontrava-se com uma tigela enorme e colorida.
    — Se eu fosse você, eu iria com calma, Bri — Rebecca sorrio divertida. — A Madre me mata se tiver uma dor de barriga a noite toda.
    — Hum... — ela voltou a encher a boca com uma colherada enorme — Vai saber quando terei outra oportunidade como essa?
    Briana sabia que Rebecca a amava; sabia também que a amiga faria todo o possível para que ficassem sempre juntas, mas ela também sabia que a vida nos surpreende das formas mais duras possíveis. Sua mãe a amava, mas isso não impediu que fosse tirada dela quando ainda era apenas uma menina. Por isso queria aproveitar cada minuto e tudo o que pudesse, enquanto ainda tinha sua amiga consigo. Isso incluía devorar aquela maravilhosa tigela de sorvete como se não houvesse amanhã, pois era assim que sentia às vezes. E quando chegasse a vez de ser somente ela mesma no mundo, queria ter na lembrança a certeza que aproveitara cada minuto com as pessoas que amava. Na vida não se tem garantias, passara longos anos no orfanato sabendo o quanto a premissa era verdadeira.
    E com a boca lambuzada de sorvete e seus olhos brilhando como uma criança em dia de festa, Briana se sentia absurdamente feliz por tão pouco. Para qualquer pessoa seria um típico domingo ensolarado para passar o tempo na sorveteria; para ela, era o seu dia de festa.
    — Que tal voltarmos aqui domingo que vem? — diz Rebecca com a voz cálida. — Ou melhor: que tal irmos àquela loja de chocolate?
    Brianna pulou da cadeira, animada, e seus olhos pareciam duas esferas gigantes.
    — Sério? De verdade?
    — Se você sobreviver a todo esse sorvete, sim.
    — Você é a melhor amiga do mundo.
    Brianna sendo Brianna, rodeou a cadeira para abraçar a amiga, sujando sua blusa de framboesa.
    Como última extravagância do dia, as duas foram ao cinema assistir uma comédia romântica. Foi a primeira experiência das duas e juraram repetir muitas vezes. Ao contrário de Rebecca, Brianna conseguiu devorar um balde de pipoca. E no caminho de volta para o orfanato, passaram rapidamente em uma livraria. Rebecca comprou alguns livros para Brianna e um novo romance para si mesma. 
    Os livros fariam a companhia a Brianna que Rebecca já não poderia fazer. Ela não contara nada sobre Michael à amiga. Sabendo que era comprometido, não haveria o porquê de encher a cabeça dela com sonhos adolescentes e impossíveis.
    Já anoitecia quando retornou à mansão dos Hunter. Entrou pela ala dos empregados, como deveria fazer, mas seria obrigada a passar pela sala principal antes de chegar ao seu quarto.
    — Quem é você? — a pergunta saiu de uma garota ruiva, sentada em uma das poltronas próximo às janelas.
    A jovem levantou, caminhando até onde Rebecca estava. Usava um vestido branco e minúsculo. Os saltos deixavam-na alguns centímetros mais alta que ela. As unhas pintadas de vermelho lembravam garras afiadas de um falcão.
    — Sou Rebecca — estendeu a mão para ela. — A nova babá de Carol.
    — Babá? — questionou, uma sobrancelha erguida em uma análise desconcertante demais — Acho que Carol é um pouco velha para ter uma babá, e você nova demais para ser uma.
    — Na verdade, sou mais como uma dama de companhia, uma amiga enquanto a mãe dela...
    — Sei, não me espanta — interrompeu, circulando em volta de Rebecca — Aquela garota é tão chata, que os pais precisam pagar para que tenha amigos que possam aturá-la.
    — Ah... Não é assim...
    Não era o dinheiro que Rebecca receberia que a fazia gostar de Carol. Era uma menina doce e carinhosa. Não podia deixar que essa garota fosse tão venenosa.
    — Não me interessa. Mas eu a alerto para que fique longe de Michael — as unhas da garota se cravaram no braço de Rebecca. Involuntariamente ela soltou um gemido de dor e surpresa — Você não vai me querer como inimiga.
    Pela forma apaixonada, aquela só podia ser Stacy, namorada de Michael, que fora citada essa manhã durante o café. Era uma jovem bonita, não podia negar. 
    — Eu não...
    — Não mesmo! — ela a soltou. 
    Soltou o braço de Rebecca, como se tivessem acabado de finalizar uma saudação amigável. A ruiva retornou ao seu lugar e cruzou as pernas, exibindo um sorriso tão doce como fel.  
    Não havia gostado de Rebecca, e ela podia dizer que a recíproca era verdadeira. Algo rondando em torno da ruiva dizia que era tão perigosa como ela acabara de afirmar.
    Decidida a fazer exatamente o que a bruxa aconselhara, ficar longe dela, Rebecca continuou seu caminho até o quarto. Encontrou Michael no topo da escada. Ele a encarou da mesma forma intensa de sempre, mas havia algo mais em seu olhar.
    — A tarde foi boa? — a voz era gélida.
    Os olhos pararam na blusa manchada e nas marcas em seu braço. Um sorriso petulante surgiu em seu rosto,
    — Foi sim — respondeu simplesmente — Maravilhosa.
    — Eu notei — retrucou, dessa vez em um tom irritado — Posso imaginar.
      Michael passou rapidamente por ela. Rebecca segurou forte no corrimão. Não esperava encontrá-lo, ainda mais depois de uma cena tão tensa.
    Observou quando caminhou até a garota toda sorridente e manhosa para ele que, sorrindo, abraço-a pela cintura. Stacy sussurrou algo no ouvido dele. Michael encarou Rebecca com um sorriso lascivo brilhando em seu rosto.
    Beijou o pescoço de Stacy e voltou a sorrir. Claramente e levados por objetivos opostos, estavam provocando a garota na escada. Rebecca desejava ser indiferente e que nenhum dos dois pudesse afetá-la.  Mas o coração sentia o que precisava sentir.
    — Isso é bom — ouviu a jovem dizer antes de saírem rindo — Adorei a ideia. 
    Foi o barulho da porta batendo que fez Rebecca emergir do buraco profundo de mágoa e desapontamento no qual mergulhara.  A porta de seu quarto fechou com a mesma batida enfurecida que movia seu coração, enquanto afirmava que não se importava.
    Michael havia deixado bem clara sua posição diante de sua namorada. Rebecca havia entendido.

    ****

    Pela primeira vez na vida, ao menos que ela se lembrasse, havia perdido a hora. Saltou da cama tão rápido como uma lebre desajeitada e correu para o banheiro. Lavou o rosto, escovou os dentes, penteou os cabelos e trocou de roupa em tempo recorde.
    Rebecca passara boa parte da noite pensando em Michael e no fato de namorar uma garota tão irritante como Stacy a incomodar tanto.  Era melhor que a jovem fosse tão intragável, seria mais difícil sonhar com os olhos azuis, se ela fosse uma pessoa afável.  
    Bloqueou esses disparates em sua cabeça. O despertador ao lado da cama marcava quase oito horas. Não teria muito tempo para verificar Carol e descerem para o café da manhã.
     Tirar Caroline de debaixo das cobertas exigira uma boa dose de paciência e determinação, mas, após o banho, ela pareceu mais disposta e animada.
    Para a sorte de ambas, o Sr. Hunter já havia saído para o trabalho. A Sra. Dickson estava no quarto com Olivia. Fora o que Marisa informara quando se acomodaram à mesa para o café.
    Não preocupara a Rebecca o longo sermão que certamente a governanta faria sobre o horário de atraso. O que a deixou desconcertada foi se deparar com o jovem lindo, irritante e de olhar debochado tomando café.
    Sentou rapidamente ao lado de Caroline, duvidando que suas pernas trêmulas fossem capazes de a sustentar. O ambiente estava deveras carregado de grande tensão, emanando de Michel para ela, como sempre acontecia quando estavam próximos.
    — Então, descobriu que tem um emprego? — disse Michael de forma sarcástica. — Saiu com seu namorado ontem à noite também?
    Rebecca sentiu as bochechas pegarem fogo. Não que estivesse envergonhada, mas pelo tom e porque a pergunta fora inapropriada e sem cabimento. Não devia satisfações a ele do que fazia em suas noites de folga, com quem saía ou não.
    — Nada contra suas aventuras por ai... — continua Michael, no mesmo tom provocativo — Só não negligencie seu trabalho. Meu pai não irá gostar de saber que a paga para ficar dormindo.
    — Bom dia, Sr. Hunter — Rebecca murmurou educadamente ao abrir o guardanapo em seu colo — Não devo explicações ao senhor, mas já que está tão interessado em saber sobre o meu horário de trabalho, ele inicia às oito. Tenho certeza que seu pai ficará satisfeito em saber que estive de prontidão quinze minutos antes do acordado.
    A expressão de surpresa e indignação que Michael exibiu teria sido engraçada, se Rebecca não estivesse tão furiosa com ele.
    Era irônico que ele exigisse explicações e não refreasse as críticas, quando o mesmo deveria ter passado a noite toda na farra com aquela garota esnobe e sem graça que é a namorada dele. A mesma camisa xadrez da noite anterior e os cabelos bagunçados não deixavam dúvidas que mais uma vez ele havia passado a noite fora. 
    — Bom dia, Mike —  Carol o cumprimentou, tentando esconder o sorriso — Acho que alguém sabe te colocar no devido lugar.
    Com a mesma naturalidade que Carol havia proferido as palavras sábias, ela se concentrou em seu cereal, deixando Michael e Rebecca trocando farpas pelo olhar.
    Rebecca não conseguia explicar os sentimentos que Michael invocava nela. Tudo que podia dizer é que ninguém mais a irritava tanto quanto a atraía.
    No orfanato tinha pouco contato com o mundo exterior. Eram educadas pelas freiras, portanto não iam à escola como qualquer criança. Os poucos meninos que passaram pelo orfanato sempre foram vistos como irmãos adotivos.  Os maiores que passaram pelo orfanato tiveram a sorte de serem adotados ou fugiram. Seu contato com homens fora o Sr. Stryder, o contador que fazia serviço voluntário uma vez por semana, e o médico que ocasionalmente as visitavam, ambos com idade avançada. De certa forma, cresceram em um pequeno casulo, protegidas demais do mundo que as cercava.
    — Eu levarei Carol para a escola hoje — murmurou Michael, sem a encarar — É caminho para a faculdade.
    A declaração pegou Rebecca de surpresa. Já estava contando quantas colheradas ainda restavam para Carol encerrar o cereal e ela pudesse fugir para longe de Michael mais uma vez.
    — Obrigada pela carona, Sr. Hunter, mas não queremos incomodá-lo ainda mais — ela gostaria que sua resposta soasse menos desesperadora como pareceu.
    — Não é um favor a você, sempre faço isso quando volto para o campus — ele sorri para a irmã dessa vez — Temos mais tempo para nos torturar.
    Certo, Michael poderia ser um grande de um babaca em relação a Rebecca, mas era evidente o carinho que tinha por Carol.
    — Não é preciso que nos acompanhe — diz ele a Rebecca — Já que eu não vou retornar, seria perda de tempo.
    As palavras baquearam-na mais do que deveria permitir, e sentiu-se petrificada na cadeira. Rebecca deveria estar exultante com a sugestão, não deveria? Então, por que se sentia excluída? Como se estivesse sendo abandonada pela segunda vez?
    — Você vai embora? — O sussurro é mais como uma afirmação a si mesma do que uma pergunta em si — Quando você volta?
    Pelo que soube, as aulas de Michael iniciariam em uma semana. Por que decidira regressar antes da hora?
    — Por quê?  Sentirá minha falta, Rebecca?  — a pergunta não saiu debochada como esperava, e havia muita intensidade ao olhar para ela — Gostaria que eu ficasse?
    Estranhamente e de uma forma muito confusa, ela não queria que Michael fosse embora, mesmo que fosse por alguns meses na faculdade. Certamente, durante esse tempo, ele viria nos finais de semana para visitar a família e, ainda assim, ela não queria que ele partisse. Mas Rebecca entendia também que seria o momento ideal para esquecê-lo.
    — Não vai responder às minhas perguntas? — sussurrou ele, o sorriso enigmático dançando em seu rosto.
    — Nem uma coisa ou outra — mentiu.
    Ela sabia que era preciso. 
    — Se você diz... — disse em um comentário bem mais que polido; parecia decepcionado.
    Fugiu do olhar desafiador, do olhar cor de safira que parecia olhar além dela. Podia negar o que realmente a partida dele causava a ela, mas Michael sabia. Esse era o único que a fazia perder o fôlego, por mais que lutasse contra ele.
    — Bem... — levantou desajeitadamente. Os olhos azuis não despregavam dos delas um único instante — Como já não sou necessária, farei companhia à Sra. Hunter. Boa aula, Carol, e boa viagem, Sr. Hunter.
    Saiu apressadamente sem esperar a resposta de nenhum dos dois. Rebecca sentia-se vitoriosa por ter caminhado dignamente e por suas pernas trêmulas não terem falhado, fazendo-a se estatelar como a idiota que sentia ser. Obviamente a reação desnorteada à partida dele já contribuiu o suficiente para isso. 
    Subiu as escadas correndo. Não iria para o quarto de Olivia, como disse. Precisava de um tempo sozinha. Deveria acalmar o coração batendo acelerado em seu peito. Não queria ter que dar explicações do porquê do seu rosto afogueado e respiração acelerada. Mentiria se dissesse que a culpa foram os poucos lances de escada que subira.
    Era Michael a mexer com ela mais uma vez. Era Michael fazendo uma bagunça dentro de sua cabeça e coração. Tudo dentro dela estava mudando, e Rebecca já não tinha tanta certeza que pudesse controlar.
    Quando ela mal repousou as costas sobre a madeira da porta, batidas insistentes do outro lado a fizeram saltar. Não era preciso ter uma bola de cristal para saber quem estava lá.
    O que Michael ainda queria com ela? Não havia a torturado o suficiente?
    — Abra, Rebecca! — a voz ecoou obstinada — Sei que está aí, se escondendo.
    “Que presunçoso!”, pensou estarrecida.
    — O que você quer, Michael? — abriu a porta, levada por uma coragem que logo se arrefeceu ao encará-lo.
    — Por que não me disse que tinha um namorado? — perguntou com frieza.
    — Outra vez esse assunto? E que importância isso tem?
    — Importa muito se você me beija como beijou e corre para os braços de outro no dia seguinte!
    — Também não me falou sobre sua namorada!
    — Stacy?
    — A menos que haja outras, sim...
    — Ela não é minha namorada — interrompe ele, pousando as mãos na parede, prendendo a cabeça dela entre elas;  sua respiração tão acelerada quanto a da jovem intrigante que frequentemente o deixava sem chão. Michael não era indiferente a Rebecca como quis transparecer no final de semana. Via-se isso em seu olhar apaixonado e respiração suspensa.
    — O que ele tem para preferi-lo a mim?  — perguntou, agora com suavidade em sua voz — Será que a faz se sentir assim?
    As perguntas ficaram flutuando no ar quando os lábios dele tocaram os dela. O beijo começou suave, tal como um beija-flor tocando a pétala.
    Rebecca sentiu o corpo reagir. Ainda assim, tentou permanecer rígida como uma estátua. Mas os lábios de Michael continuavam a beijar com delicadeza, a língua invadindo sua boca de forma implacável. Sem que percebesse, foi relaxando gradativamente.
    Rebecca estremeceu quando sentiu a leve carícia em seu quadril. E quando Michael moveu-se com sensualidade contra seu corpo, o beijo passou a ser mais exigente e apaixonado. Os lábios firmes e a língua aveludada faziam com que o seu mundo parecesse rodar e tudo à sua volta desaparecer.
    As mãos de Michael subiram até os seios dela, em uma carícia carregada de um erotismo excitante. Rebecca gemeu sem perceber, arqueando o corpo contra o dele, procurando o calor do corpo masculino junto de si.
    Michael se afastou por alguns segundos e respirou fundo em busca de ar. Acariciou os lábios dela com os seus, os olhos brilhando intensamente, e Rebecca sentia a necessidade de algo mais; uma urgência que a queimava por inteiro. 
    — Não volte a vê-lo! — disse ele. — Prometa-me!
    O pedido exigente a arrancou do estado de estupor que se encontrava. Que direito ele tinha em pedir que se afastasse de um namorado, mesmo que fictício, enquanto desfilava com a ruiva petulante por aí? 
    Antes mesmo que pudesse compreender sua reação intempestiva, sua mão voou firme, acertando-lhe o lado esquerdo do rosto. A marca de seus dedos na face perfeita a fez recuar dois ou três passos. O choque tomando conta do rosto de Rebecca era tão nítido quanto a raiva expressa em Michael.
    Nunca fora agressiva antes, mas Michael arrancava os melhores e piores sentimentos que Rebecca conseguia sentir.
    — Desculpe — murmurou com voz rouca — Eu não quis...
    — Não se atreva a fazer isso novamente — declarou ele. A mandíbula rija e a suavidade na voz eram mais ameaçadoras do que o brilho furioso em seus olhos — Pode negar o quanto quiser, mas seu corpo responde contra sua vontade. Divirta-se com esse idiota, pensando em mim.
    Por que com eles dois era tudo tão confuso? Como um quebra-cabeças onde as peças não se encaixavam.
    Michael se afastou, e Rebecca o acompanhou com o olhar até que sumisse no corredor. Seu corpo ainda fervilhava e as mãos tremiam e formigavam devido ao tapa. Desconhecia essa nova Rebecca, e tinha muito medo do que seria capaz de fazer.

    ****

    Rebecca saiu do seu quarto meia hora depois, o tempo que levou para se acalmar e manter Michael longe dos seus pensamentos. A raiva foi substituída pela tristeza e um desejo de que tudo pudesse ser diferente. Nunca questionara sua vida no orfanato. Apesar de tudo, era feliz. Os únicos momentos que ansiou por uma família eram em datas comemorativas, como natal e ano novo. Às vezes fazia pedidos para os pais ou qualquer outro casal que a levassem para um lar feliz. Sempre prometia ser uma boa criança, cumpria isso ano a ano, até perder a fé que os desejos do seu coração pudessem se realizar.
     Sempre foi pequena demais, grande demais ou bonita demais para ser adotada. Com isso, os anos foram passando e nunca experimentou a felicidade de ter um lar.
    Nesse momento, Rebecca gostaria de ser como qualquer outra garota normal, até mesmo como Stacy, com uma casa bonita e família respeitável. Acima de tudo, sentir que pertencia a alguém, a algum lugar; ter raízes, alguém para recorrer em momentos difíceis ou de dor. Uma mãe para conversar sobre rapazes e o primeiro amor.
    Havia Briana, que era como irmã e poderia confidenciar o que lhe afligia a alma. As freiras no orfanato também jamais a desamparariam, mas não era tão importante como os braços de uma mãe. Rebecca nunca desejou tanto isso como hoje.
    Mas nunca fora de se lamentar pelos cantos. A vida era como tinha que ser. Lançou tais pensamentos depressivos para longe, bateu na porta e aguardou.
    — Entre.
    — Bom dia — cumprimentou Olivia com o maior sorriso que consegui exibir — Como se sente hoje?
    Olivia sentou com certa dificuldade, e Rebecca logo apressou-se em ajustar os travesseiros em volta dela para que ficasse mais confortável.
    — Bem melhor do que ontem e espero estar melhor amanhã.
    Rebecca sentia-se comovida ao se deparar com a força interior dessa mulher, lutando bravamente para enfrentar a doença. Lembrou das vezes que a freirinha do orfanato ficava apática e chorava muito. Essa é uma doença que sensibiliza tanto as pessoas que a enfrentam, como as que estão ao redor delas. 
    — Eu tenho certeza que em breve estará dando piruetas pela casa toda — disse ao lembrar o quanto ela ama dançar. 
    — Melhor não, sempre fui muito desajeitada — disse ela com um leve toque de humor na voz. — Acho que era por isso que nunca fui uma boa bailarina. Quebraria todos os vasos da casa.
    — Bem-vinda ao meu clube — confessou Rebecca, envergonhada — Tenho dois pés esquerdos.
    Com um amplo sorriso, Olivia deu uma batinha na cama, pedindo que se unisse a ela. Havia surgido uma amizade instantânea entre as duas. Não como mãe e filha, era uma conexão diferente. Um carinho e respeito gratuito.
    — Como foi sua vida no orfanato?
    — Ah, eu não quero perturbá-la com minhas histórias, Sra. Hunter — murmurou — Já tem muito com que se preocupar.
    — Olivia, nada de senhora — ela segurou sua com certa firmeza — Eu quero saber. Antes pensei que estivesse imaginando coisas, mas são tão parecidas...
    Assim como no dia em que se conheceram, Olivia volta a falar sobre sua amiga, mas hoje não estava com febre e nem delirando. Isso não a perturbou. Não diz a lenda que todos temos um homônimo no mundo? 
    — Conte-me sobre sua vida — Olivia insiste.
    A palidez em seu rosto foi substituída pelo rubor, diante da excitação. Talvez sua história de vida seja deprimente apenas para ela mesma. Poderia esconder todos os momentos tristes e focar apenas nos fatos que a fizessem rir.
    — O que quer saber exatamente?
    — Tudo, desde o início — Olivia murmurou entusiasmada — Como chegou lá? Quantos anos tinha? Quem a levou?
    Essas perguntas não tinham respostas engraçadas. Até porque Rebecca pouco sabia do assunto. Fora abandonada ainda bebê. Nem mesmo as freiras tinham respostas.
    — Cheguei no orfanato com um pouco mais de um ano — começou a narrar sua história, exatamente como as freiras disseram. — Pelo menos é o que as irmãs acreditaram na época, já que eu parecia muito magra e negligenciada.
    — Aposto que era um bebê lindo — murmurou Olivia. — Com essa pele, esses cabelos e olhos. Sabe como é linda?
    Nunca se preocupou com isso antes. Sempre disseram ter sido uma criança bonita após alguns cuidados. Consequentemente desabrochara em uma jovem atraente, mas Rebecca nunca dera importância a isso. Com Olivia afirmando, uma senhora elegante e bem-educada, fazia com que ela se sentisse, de certa forma, especial.
    — Não diria isso se tivesse visto como cheguei — disse ela com descontração. — Muito magra e uma cabeça enorme.
    Ao invés de rir como era o desejo de jovem babá, viu tristeza brilhar nos olhos de Olívia.
    — Sinto muito.
    — Não sei como cheguei, na verdade ninguém sabe — respondeu a outra pergunta, ignorando seu olhar de piedade — Em uma certa manhã, as freiras me encontraram dormindo em um embrulho dentro de uma caixa de papelão, próximo ao portão. Disseram que eu era um bebê muito calmo. Que se não precisassem fazer as compras matinais, eu teria passado a manhã inteira ali, sozinha. 
    — E os seus pais?
    — Eu não sei quem são — disse com indiferença. Já não doía tanto pensar sobre eles, acreditou que se acostumara ao passar dos anos. Não sentira necessariamente falta de pessoas, sentira a falta de amor — A madre acha que devo ser filha de alguma viciada, pela forma que me encontraram. E foi muita sorte que ela tenha tido um pouco de serenidade para me abandonar no orfanato.
    A tristeza encobriu o rosto dela por míseros segundos. Essa era uma parte de seu passado que fazia questão de esquecer. Imaginar que as drogas, ou qualquer outro vício, tenha sido mais importante que ela para sua mãe, magoava mais que o abandono em si. 
    — Mas eu não quero falar sobre isso — disse num tom alegre — Eu tenho histórias muito mais engraçadas para compartilhar. Você quer ouvir?
    — Claro.
    Foi o que Rebecca fez: contou algumas histórias entre ela e Briana. Algumas engraçadas o suficiente para levarem lágrimas aos olhos. 
    Em torno do meio-dia, o Sr. Hunter veio almoçar em casa. Rebecca quis deixá-los sozinhos, mas Olivia fez questão que permanecesse com eles. E por insistência dela, passaria a chamá-los apenas de Max e Olivia. Não se sentiu confortável no início, mas parecia ser tão natural tratar-se assim quanto o pedido.
    O Sr. Hunter, ou melhor, Max, não contestou ou achou estranho. Não haveria nada que ele negasse à esposa, e para Rebecca, em nada tinha a ver ela estar enferma. 
    O resto da tarde seria buscar Caroline na escola, auxiliá-la com o dever de casa e monitorar o sono de Olivia.
    Todas as tarefas foram cumpridas.


    17 comentários :

    1. Cheugeibda faculde e fui direto entrar no blog para ler mais um capítulo... Agora sim posoo ir estudar para prova kkkk....esperando ansiosamente o próximo capítulo

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      1. Que linda, muito obrigada Mikaela por esse apoio.

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    2. anciosa.....a mil por hora.....querida escritora, te digo q vai ser difícil esperar até próximo quarta 😉

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    3. Amo de paixão verdadeiro essa estória.

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      1. Gi, obrigada. Eu fico muito feliz! <3 <3

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    4. Michael se mordendo de ciumes, lindo demais, as revelações cada vez mais próximas, ansiosa por mais, amo muito esses dois, meu casal ternurinha.

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    5. Estou adorando esse romance!
      Quando você vai postar mais capítulos?

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    6. Beth cadê o capítulo mulher... ansiosa ja atualizei milhares de vezes desde a meia noite... kkk

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      1. Luna, fico muito feliz que esteja gostando. Eu posto toda quarta a noitinha <3

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    7. Beth cadê o capítulo mulher... ansiosa ja atualizei milhares de vezes desde a meia noite... kkk

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