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  • O preço de um amor - Capitulo 1

    Dica da Música  - Andrea Ribeiro


    Capítulo 1


    17 anos depois

    — Entre!
    — Com licença, Madre, a senhora me chamou?
    — Sim, sente-se, Becca. — disse a Madre, indicando uma cadeira em frente a sua mesa. — Becca, você já fez 18 anos, pelo menos é o que achamos. Quando você foi entregue aqui, deveria ter por volta de um ano, não sabemos ao certo a sua idade. Tudo o que sabemos é seu nome, ou que seja seu nome, pelo que vimos na pulseirinha de bebê que carregava.
    — Sim, madre.
    Por incontáveis noites Becca meditou sobre isso. Ela não sabia se tinha irmãos, quem eram seus pais e nem se eles ainda estariam vivos. Se haveria, em algum lugar no mundo, alguém esperando por ela.
    — De acordo com as normas do orfanato, você não poderá continuar aqui.
    — Eu entendo, Madre. Vou arrumar minhas coisas. — disse ao se levantar, as lágrimas queimando nos olhos.
    “Para onde iria?”, pensou desolada.  Não tinha família e nem dinheiro. Tudo o que conhecia era o orfanato e as pessoas que viviam ali.  
    — Espere, querida! — o toque suave interrompe-a na porta — Para onde vai?
    — Eu não sei, Madre. — ela a abraçou aos prantos, o único abraço de mãe que já teve e que brevemente iria perder. Sabia que um dia isso aconteceria, o que não sabia é que machucaria tanto dizer adeus — Não sei…
    — Venha, sente-se e fique calma. — disse a Madre em sua voz branda, conduzindo-a à cadeira novamente. — Filha, eu não vou deixá-la desamparada. Jamais a deixaria solta no mundo. Uma garota como você não pode ser abandonada nas ruas. Você é muito linda Rebecca, seria alvo fácil para algum vigarista ou coisa pior.
    — Mas como, se eu não posso ficar aqui? — disse ela sem entender.
    — Eu conheço uma senhora de uma agência de empregos, que sempre nos ajuda com doações, e ela conseguiu um emprego para você.
    — Mas eu nunca trabalhei, Madre — falou preocupada.
    Tudo o que sabia era ajudar as freiras nas tarefas diárias, cuidar das crianças, ajudar na cozinha e onde mais fosse necessário.
    — Como não? Desde pequena você ajuda a cuidar das crianças menores e elas a adoram! Essa senhora a viu em atividade algumas vezes — continuou animada. — E sabe o quanto é dedicada e cuidadosa.
    — Mas isso não é um trabalho, faço com prazer, porque eu posso e devo ajudar. Eu sei das dificuldades que enfrentamos e o quanto nossos pequenos sofrem. 
    Só um órfão entende a dor do outro. As noites vazias e solitárias, a espera de alguém que nunca aparece com os braços estendidos na porta.
    — De qualquer forma, você nos ajudou e ajuda muito, vai ser muito difícil ficar sem você. — ela disse, segurando as lágrimas nos olhos. — Todos vamos sentir sua falta, principalmente as crianças. Mas infelizmente o orfanato vive de doações e não temos como contratá-la.
    — Eu entendo.
    — Mas consegui esse emprego de babá com uma boa família. A criança já tem 10 anos. O filho mais velho tem 19 e está na faculdade, só fica em casa nas férias.
    — E os donos da casa?
    — A mãe da menina esta muito doente, se chama Olivia. Ela tem uma enfermeira que cuida dela, não vai precisar se preocupar com isso.
    — Não seria um incômodo.
    — Eu sei, querida, você sempre está disposta a ajudar o próximo, assim como ensinamos aqui. O pai das crianças se chama Nicholas e mal fica em casa. Não precisará se preocupar com as acomodações, eles têm quartos para empregados. Também darão alimentação e você terá um bom salário.
    Para quem via um destino obscuro à sua frente, Becca estava feliz em ter muito mais do que poderia sonhar.
    — Não sei como agradecer, Madre — o sorriso era franco e genuíno. Havia enfim uma luz brilhando em seu caminho.
    — Terá folga todos os domingos, que é o dia que o pai da menina fica em casa, mas dependendo da necessidade, poderão precisar de você.
    — Certo, sem problemas — respondeu rapidamente.
    Não havia a quem visitar e nem para onde ir, a não ser rever seus amigos e freiras no orfanato. Não perderia contato com eles, não importasse para onde a vida a levasse.
    — Também disseram que o irmão da menina, quando está em casa, fica bastante tempo com ela, são muito unidos, ainda mais depois que a mãe adoeceu. Ele sempre brinca com a garota, leva para passear e passam fins de semana na praia para que se afaste um pouco do clima da casa; provavelmente, nessas ocasiões, também terá algumas horas de folga.
    Enquanto Becca ouvia tudo atentamente, guardava o máximo de informações possíveis. Pareciam boas pessoas, e apesar da dificuldade que enfrentavam, imaginava-os felizes.
    — Ele pode querer ou não sua presença. Geralmente ele dispensa. A antiga babá foi babá do Sr. Hunter, já era idosa e se aposentou devido a problemas de saúde.
    — Que triste isso. — disse com pesar. — Deve sentir falta dela.
    — Mas será bom ter alguém jovem como você.
    — E quando poderei começar?
    — Amanhã. Arrume suas coisas, um carro virá buscá-la à tarde.
    — Sim, senhora.
    — E, Becca?
    — Sim.
    — Cuidado com o filho deles. Dizem que é um rapaz muito decente, mas também muito namorador, além de bonito. Não quero que você sofra.
    — Pode deixar, Madre, além disso, ele não olharia para uma simples babá como eu. Contos de fadas existem apenas nos livros, não é? Se fosse assim, meus pais viriam me buscar no natal ou no meu aniversário, como sempre pedi — a tristeza e amargura em sua voz foi perceptível à freira.
    Não a impediu quando a jovem saiu apressadamente porta afora para esconder o rastro de lágrimas em seu rosto. Havia absorvido coisas demais em um único dia. Sua vida mudaria drasticamente em algumas horas e ela não estaria mais ao seu lado para aconselhar e protegê-la. Esperava que tudo o que havia ensinado ajudasse sua pequena criança a enfrentar a vida. Mas ela também sabia o quanto a vida por trás dos muros do orfanato poderia ser perigosa.
    “Babá sim, Becca, mas simples jamais”, meditou a madre. Talvez contos de fadas não existissem, mas os milagres, sim!

    ***

    Sempre disseram que Becca fora uma criança linda, querida por todos, nunca deu muito trabalho, nem quando bebê. Todas as freiras e os poucos funcionários que haviam passado por ali a amaram e paparicaram à sua maneira. Causava inveja algumas vezes, o que ocasionava em uma travessura ou outra para que a culpa caísse sobre ela e ficasse de castigo. Não se enganem: crianças também sabem ser maldosas. Mas para sua sorte, tinha mais amigos do que as que se incomodavam com seu jeito de ser. Quase sempre descobriam o verdadeiro culpado antes de ser repreendida.
    Teresa, a cozinheira, sempre dizia como Becca mudou e crescia assustadoramente. Com o decorrer do tempo, passou de uma criança bonita para se tornar uma jovem exuberante e linda, pela qual os homens não passariam sem olhar duas vezes.
    Enquanto recolhia suas coisas no quarto que dividia com sua melhor amiga Brianna e outras seis meninas, ponderava sobre isso. Nunca efetivamente pensara ou quisera pensar sobre isso. Nunca vivera nada além desses muros.
    Colocou sua última peça na mochila. Não tinha muito o que levar. As freiras não tinham condições de ajudar, as roupas que tinha eram doações e passadas de uma órfã para outra. Era assim que conseguiam se manter ali.
    Pendurou seu vestido branco próximo à janela. Seu melhor vestido, usava-o apenas quando precisava ir a algum lugar além do orfanato, o que era raríssimo. Tinha sido doado pelos pais de uma jovem falecida. Houvera uma pequena disputa entre as internas, sobrando a ela o vestido esquecido.
    — Becca! Diga que não é verdade! Por favor, diga que você não vai embora!
    Brianna irrompeu no quarto, chorando. Não sabia o que fazer para atenuar a dor da amiga, a mesma dor que duramente apunhalava seu peito.
    — Sinto muito, Bri, já tenho 18 anos. — murmurou, alisando seus cabelos afetuosamente. — Nós sabíamos que isso aconteceria um dia.
    Brianna era sua melhor amiga no orfanato. Ainda se lembrava de quando ela havia chegado ali. Tinha oito anos, Rebecca dez. Fora entregue pelos agentes sociais. A mãe de Brianna havia morrido em um assalto quando voltava do serviço à noite. Filha única de mãe solteira, não havia mais ninguém a quem recorrer. No começo era arredia, quase não falava e chorava muito. Becca conseguiu conquistar sua confiança, e a partir dali, tornaram-se grandes amigas, uma confortava a outra.
    Becca sempre acreditou que, para Brianna, fora ainda mais doloroso crescer no orfanato que ela. Nunca soubera o que era ter um lar de verdade. Brianna tivera mãe que a amara muito. Foi a vida a tirar isso dela.
    — Me leva com você. Eu posso trabalhar também, por favor. Você é minha única família. Disse que ficaríamos sempre juntas!
    — Eu sei, querida. Eu não posso levá-la agora. Mas virei vê-la todos os domingos, que é minha folga. Além do mais, eu vou guardar todo meu dinheiro. Você já tem 16 anos, e quando fizer 18, teremos um lugar para morar. Ficaremos juntas, como prometi.
    — Você promete mesmo, Becca?
    — Eu juro, nunca vou deixá-la! — ficaram abraçadas na cama, rindo do passado, chorando temendo o futuro.
    — Becca? Está com medo?
    — De quê?
    — De sair daqui e enfrentar o mundo?
    — Um pouco, mas eu tenho muita sorte porque consegui um emprego e um lugar para ficar. Aprendemos a viver com pouco. Vou guardar cada centavo para poder buscar você daqui a dois anos.
    — Um ano e sete meses, Becca — Brianna corrigiu-a sorrindo. — Esqueceu que já faz cinco meses que fiz aniversário? Você fez um bolo lindo.
    — Bri, você é tão sonhadora — sorriu de volta — Foi apenas um bolo simples, não tinha nem cobertura, recheio ou velas.
    — Mas para mim foi lindo, só minha mãe havia feito um bolo de aniversário para mim. Você sempre fez, desde que cheguei!
    — Aquele não conta. Eu queimei tudo e fiquei de castigo por usar a cozinha sem permissão.
    — Depois você passou a guardar cada dinheiro que ganhava em seu aniversário para fazer um bolo pra mim. Eu nunca vou esquecer isso, Becca. Eu nunca fiz isso por você  — disse Brianna, olhando para o chão.
    — Talvez porque você gasta seu dinheiro com doces e esses livros que lemos à noite?
    — Becca, quem vai cuidar de mim?
    — Sempre estarei por perto. E quando eu tiver o primeiro salário, vou comprar um cartão telefônico para que você me ligue sempre que tiver saudade. E eu já disse: virei todos os domingos.
    — Está bem. — Brianna murmura, fazendo beicinho, arrancando riso das duas.
    Naquela noite, conversaram e reviveram os melhores momentos de suas vidas. Releram as partes mais emocionantes dos seus livros preferidos, até que o sono foi mais forte. Brianna foi a primeira a dormir. Em seu rosto, o mesmo sorriso doce de sempre. Sentiria falta disso. Sentiria muita falta da sua melhor amiga, Brianna.
    Era ainda nutrindo esse sentimento angustiante, chamado saudade, que Rebeca recebeu a Madre em seu quarto pela última vez.
      — Becca, está pronta? — Embora a Madre tentasse esconder sua tristeza com um sorriso encorajador e gentil, Rebecca sabia que a despedida, mesmo que breve, também era dura para ela.
    — Sim, Madre.
    — Hoje é quinta, então domingo você vem, não é, Becca? — Brianna perguntou, ansiosa.
    — Brianna, para de perturbar a Rebecca.
    — Mas madre…
    — Ainda não sei, Bri, se não vier nesse, virei no próximo.
    — Mas, Becca…
    — Fique quieta, Brianna! — o tom agora autoritário fez com que a jovem se encolhesse em seu canto  — Já está na hora do almoço. Vá ajudar na cozinha!
    Orientar uma dúzia de freiras, algumas funcionárias e cuidar de quase cinquenta crianças perdidas exigia uma mão de ferro, mesmo que na verdade o coração da Madre fosse suave como manteiga.
    — Adeus, Becca — com um longo e sentido abraço, as duas se despediram.
    — Até logo, Bri.
    Cabisbaixa e como se carregasse todos os problemas do mundo em seu peito, Rebeca deixou-se ser guiada através do longo corredor. Sua tristeza era evidente. Para ela, a vida era como uma bonita estação de trem, repleta de chegadas e partidas, encontros e desencontros, e muitas vezes com separações dolorosas.
    — Que cabeça a minha, querida! — a Madre interrompeu os seus passos; poderiam ter se chocado se fosse um pouco mais desatenta  — Já é hora do almoço, você ainda não deve ter almoçado, não é? Posso pedir ao motorista que espere um pouco mais.
    — Não precisa. Eu não quero causar uma má impressão no primeiro dia e não estou com fome realmente. E depois, posso comer alguma coisa por lá mesmo.
    — Tem certeza?
    Após acenar que sim, as duas seguem até o portão. Na verdade, Rebeca sentia-se ansiosa demais, nervosa demais para que qualquer coisa passasse por sua garganta que não fossem os nós formados ali.
    No meio-fio em frente ao portão, havia um carro preto esperando por elas. O motorista era um senhor magro e calvo. Apesar da postura séria, o sorriso franco que ele lhe deu fez com que Rebeca relaxasse um pouco.
    — Se já estiver tudo pronto, Madre, podemos partir. Ainda tenho que buscar o Sr. Hunter no escritório — o motorista disse, se desculpando.
    — Ela está pronta, sim senhor. Só mais um minuto.
    Somos fortes até o momento que nossas fraquezas nos lembram que somos humanos.
    — Boa sorte, querida. Saiba que sempre estaremos aqui para o que precisar.
    — Obrigada, Madre — abraçaram-se fortemente, deixando que o coração falasse por elas.
    E com o último olhar para o lugar que havia sido seu lar, Rebeca entrou no carro. Passara alguns momentos tristes ali, com algumas órfãs a perseguindo; sentira dolorosamente a falta dos pais que nunca conheceu, mas também foi feliz. Teve na madre a figura carinhosa de uma mãe, conhecera Brianna a quem considera uma irmã. De alguma forma, o orfanato havia sido seu lar. Estava com medo do que o futuro reservava, mas a próxima parada de trem poderia ser incrível, se assim o desejasse.  
    — Chegamos, senhorita — disse o motorista, olhando-a através do espelho do motorista.
    — Obrigada... senhor?
    — Pode me chamar de Bill, senhorita.
    — Então me chame de Becca.
    — Combinado, Becca — ele diz sorrindo.
    Haviam conversado bastante durante o caminho. Ele era muito brincalhão e simpático. Falou das peripécias dos netos, que era um dos poucos funcionários antigo da casa e que estava prestes a se aposentar também.
    — Nossa, essa casa é linda, parece um palácio.
    Enquanto o portão subia, Rebeca observava a residência imponente que só vira em revistas. Um imenso quintal, ao seu lado esquerdo um jardim de rosas brancas meticulosamente bem cuidadas. Podia sentir o perfume infiltrando em seu nariz conforme caminhava, um aroma doce e agradável. No centro do jardim, um lindo gazebo estilo georgiano dava um clima lúdico e romântico. A casa não era um castelo como os dos seus contos juvenis, mas chegava próximo a isso. Pensar em viver ali era mais do que um sonho para Rebeca.
    E quando alcançou os degraus que levavam à porta de entrada, seu coração batia muito mais rápido que o normal; sentia que sairia por sua boca a qualquer instante, e por alguns segundos, tudo o que ela pôde fazer foi admirar a maciça porta branca e antiga, toda trabalhada em arabescos, enquanto exigia de si mesmo que mantivesse a calma. As pessoas por trás daquela porta não eram ruins. A Madre passara boa parte da manhã afirmando isso. Ela só tinha receio do desconhecido.
    — Venha por aqui, Becca, os empregados devem entrar pela área de serviço —  ela assentiu.
    Eles rodearam a casa, passando próximo à enorme piscina quadrada.
    — Pode entrar — disse Bill ao abrir a porta — Você chegará à cozinha, logo a governanta mostrará o seu quarto. Vou buscar sua mala.
    — Obrigada, Bill.
    A cozinha era tão bonita como o exterior da casa. A pia em frente à janela era enorme, certamente deixaria a cozinheira do orfanato com alguns dedos de inveja. Havia tantos eletrodomésticos ali que eu só vira pela TV e uma mesa quadrada de mármore branco. Atraída pela cortina que balançava suavemente pela brisa do fim de tarde, Rebeca aproximou-se um pouco mais da janela para observar uma parte visível do jardim, enquanto aguardava.
    — Agora você vai se ferrar, sua fedelha! Tome isso!
    Splash! Rebeca não teve tempo de reagir ou saber de onde havia surgido o bombardeio. Choque e surpresa imediatamente tomaram conta do seu rosto quando um balão de água estourou em suas costas, molhando o vestido branco quase impecável.
    — Oh, meu Deus! —  a voz rouca e apreensiva do jovem veio  em sua direção ao mesmo tempo que ele.
    Quando se virou lentamente em direção à voz, foi como se uma onda gigantesca tivesse a atingido. Diante de seus olhos, até então atordoados e carregados de cólera, estava o jovem que pela primeira vez fez o seu coração paralisar em seu peito. Não apenas porque sem dúvida alguma era um rapaz atraente e bonito; era a forma que os olhos dele conectavam com os dela: firme e de uma forma intensa.
    Não conseguia desvendar se os cabelos caindo em sua testa eram loiros ou castanhos claros devido à umidade. Abaixo das sobrancelhas arqueadas, em um claro sinal de deboche, incríveis olhos azuis, tão cristalinos como a piscina que havia admirado há pouco. Aqueles olhos claros faziam-na se perguntar se o mar teria o mesmo tom profundo e de mistério que esses olhos lhe transmitiam.  
    O nariz imponente, de certa forma, atenuava ainda mais o rosto quadrado. Seus olhos continuaram a estudá-lo minuciosamente. Desde a boca carnuda, e que naquele momento estava levemente torta, nitidamente segurando um sorriso, ao corpo magro, mas de braços fortes e ombros longos. Sem dúvida alguma, fariam qualquer garota, mesmo ela, se perder dentro deles.
    — Já terminou a análise? — provocou-a, sorrindo.
    — O quê? — perguntou nervosa.
    Havia sido pega fazendo exatamente o que ele acusou: estava analisando-o como um bolo em uma vitrine.
    — Não seja tímida, eu vi que você estava me devorando com os olhos. — disse ele antes de se apoiar na mesa e lançar a Rebecca um olhar sedutor.
    — Eu não estava…
    Era uma mentirosa. Mentirosos não vão para o céu. Era o que todas as freiras frequentemente diziam a ela. Mas Rebecca sabia também que o caminho até o paraíso era regado a espinhos. Um deles estava à sua frente.
    — Toma isso, marujo!
    Outro morteiro em forma de balão de água surgiu em direção a Rebecca, dessa vez acertando em cheio o seu peito.
    — Nossa!
    Encarou a menina assustada correndo para trás do jovem atônito.
    — Vocês são malucos! — Rebecca soltou, tentando controlar a nova onda de fúria.
    Provavelmente a Madre, todas as freiras, nem mesmo Brianna, conseguiriam reconhecer a doce Rebecca de todos os dias, com a jovem enfurecida encarando os dois causadores de confusão.
    — O que está acontecendo aqui? — disse uma mulher ao entrar na cozinha.
    Seus olhos assombrados vagavam de um para o outro. Imediatamente, um olhar destorcido cobriu o seu rosto enrugado.
    — Michael e Caroline! — a mulher diz extremamente irritada — Quantas vezes eu já disse que eu não quero vocês na minha cozinha?!
    Rebecca encarou o jovem que ela havia chamado de Michael e assistiu-o imitá-la sem que percebesse, revirando os olhos e balançando a cabeça, enquanto a menina gargalha sem parar.
    — Olhem só isso: a cozinha está toda alagada e a pobre moça toda molhada. Ela irá pensar que vivem como animais!
    Michael continuava imitando-a, enquanto a menina chorava de rir.
    — Acha isso engraçado, Caroline? — A senhora deu mais evidência à sua cara invocada — Você também está toda molhada! Quer ficar doente como sua mãe?
    — Não, senhora — a menina responde tristemente.
    — Não seja maldosa, Sra. Dickens. Limpamos tudo depois, como sempre fizemos. — Michael diz, agora com raiva.
    — Venha, Caroline, vamos tomar um banho quente e vestir uma roupa seca.
    Olhando para Rebecca, a Sra. Dickson suavizou o olhar. Talvez ela não fosse tão ruim como aparentava ser. Talvez o grande problema seja ele. Michael. Nos poucos minutos que Rebecca tivera com ele, teve uma pequena parcela do que aquele sorriso atraente e olhar astucioso poderiam fazer.
    — Rebecca, não é? Eu já venho mostrar seu quarto. Ou melhor, Michael, faça isso. Ela também precisa trocar de roupa ou será mais uma das vítimas das suas inconsequências.
    — E eu? — o charme lançado à governanta não teve efeito, não sobre ela — Não tem medo que eu caia morto aqui?
    — Você já está bem grandinho! —  disse ela, levando a menina consigo.
    Os olhos ardis voltam a cair sobre ela, na verdade, sobre o seu corpo, que o vestido agora nada tinha a esconder. 
    — Então você é a Rebecca, a nova babá? Pensei que fosse mais velha.
    — E eu que você fosse mais novo — sussurrou Rebecca, abraçando a si mesma.
    Havia pensado que ele fosse um menino mirrado, um completo adolescente com espinhas na cara, mas, pelo contrário; apesar da idade, Michael já era bem desenvolvido e mostrava que ficaria ainda mais bonito conforme fosse amadurecendo.
    — O quê?
    — Nada. Podemos ir? Estou com um pouco de frio.
    Michael a olhou de cima a baixo. O vestido tinha ficado transparente e colado ao corpo miúdo, revelando parte dos seios sem sutiã. E se perguntava se os bicos estavam duros e empinados por causa do frio, tal como imaginava naquele momento. Embora Rebecca tentasse se proteger, a peça havia encolhido um pouco, revelando pernas que ele foi incapaz de ignorar.
    — Muito melhor do que o concurso da camiseta molhada. —Michael diz, devorando-a com os olhos, enquanto morde os lábios descaradamente — Senhorita, sabe como mexer com um homem.
    — Não é minha culpa o que aconteceu… — após repreendê-lo, ela encarou o chão, onde certamente, se pudesse, enfiaria a cara.
    Enquanto Rebecca sentia suas bochechas queimarem, Michael fazia o som rouco de sua risada repercutir pela cozinha. 
    — Não tenha vergonha, querida, você tem um corpo que levaria qualquer homem à loucura. Não há nada de ruim nisso.
    Rebecca não era inocente. Sabia que tipos de desejo uma mulher despertava em um homem. As freiras ensinavam o necessário, e o que era tabu para as jovens senhoras, os livros que Brianna e elas liam à noite esclareciam.
    Podia ser virgem ainda, mas não era tola ou burra.
    — Só não quero que pense que…
    — Relaxe, Rebecca — Michael tocou o seu rosto. Seu corpo tremeu, e ela não tinha ideia se era o frio ou efeito do toque dele em sua pele —  Venha, eu vou mostrar seu quarto.
    Foi quando os dedos abandonaram o queixo de Rebecca, que ela soube que o frio não teve nenhuma relação à reação de seu corpo.
    Saíram da cozinha e passaram por um imenso corredor e algumas portas, até chegar ao centro da sala. Ao fundo dela, a escada em forma de Y que levava ao andar superior.
    — Na ala esquerda é onde fica o quarto dos meus pais e alguns quartos de hóspedes — disse ele ao se dirigirem ao lado direito no fim da escada. –Desse lado o meu quarto, o da Caroline e o seu, é claro.
     — Como assim, o meu? Pensei que ficaria com os outros empregados.
    — Não. Com minha mãe doente e meu pai trabalhando, às vezes ele viajando, e como passo muito tempo na faculdade, Caroline precisa de sua presença constantemente. Às vezes ela tem pesadelos à noite. Além do mais, a antiga babá era como um membro da família, e devido às circunstâncias, resolvemos deixar como está.
    Caminharam em silêncio pelo corredor que levava aos quartos. Rebecca absorvia as últimas palavras de Michael e não tinha noção do quão perigosa era estar tão próximo a ele assim.
    — Venha. — Michael disse, indicado o quarto — Esse é quarto de Carol.
    Ele abriu a porta, mostrando-lhe o quarto infantil mais lindo que já havia visto.
    — Ao lado há um quarto de hóspede — ele se virou e saiu — Esse é seu quarto, em frente ao da Carol, e ao lado, o meu.
    Michael foi se aproximando dela, posicionou as mãos na parede, e Rebeca presa entre elas.
    — Então, se precisar de um ombro amigo ou alguém para conversar à noite, jogar gamão... é só abrir a minha porta. Eu nunca tranco. — Michael sussurrou, os lábios a poucos centímetros do rosto hipnotizado de Rebecca. Ele não tinha apenas um olhar e sorriso capazes de fazê-la esquecer o próprio nome. Ele tinha uma voz sexy e hipnotizante que a faria dizer sim para qualquer pedido que ele fizesse. Como se ele fosse a sereia e ela um simples marinheiro naufragando no mar turbulento que eram seus olhos.
    O ar cálido e o hálito adocicado saindo dos lábios dele, infiltravam-se dentro dela, fazendo seu próprio corpo aquecer.
    Michael significava perigo. O próprio demônio em pele de cordeiro. E se havia algo que ela aprendeu muito bem, é que com o diabo não se brinca. Enquanto ela fosse capaz, fugiria dos seus encantos, mesmo que minasse todas as suas energias.
    Rebecca apenas não sabia até quando teria forças.
    — Não será preciso, obrigada. — disse ela ao se abaixar.
    Escorregando pela parede, conseguiu a proeza de fugir dos braços dele, fechando a porta em seguida. Não sem antes notar o olhar sexy e debochado que Michael emitia.
    Que Deus a ajudasse!
    Não seria nada fácil fugir de um demônio como ele...


    10 comentários :

    1. E vamos sofrer um pouco.... Amo ess história

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    2. Nossa! Se entendi bem, Becca foi trabalhar na casa do pai? Ou seja , o rapaz é irmao dela?

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      Respostas
      1. Não e não ... Se eu contar mais vou acabar soltando algum spoiler rsrsrs"

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      2. Não, eles não são irmãos rsrsr

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    3. Contando os capítulos para que chegue logo na parte onde a história havia sido interrompida!
      AmOo essa história

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    4. Amei....e quando vc vai falar sobre a mãe da Becca? Só na sofrência agora �� Anciosa!!!

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    5. Emocionante, esses dois são lindos, amo o Michel e a Becca.

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