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  • Além da Atração - Prólogo


    Love My Decision - Dica Ana Claudia Bento 




    Prólogo

    Março de 2005


    Eu não tenho um passado conturbado, com marcas, ou uma vida cheia de traumas. Pelo menos... Até aqui. Cresci em uma família rica e privilegiada, na cidade de Nova York. Tenho uma bela casa, tive as melhores escolas, viagens incríveis, os melhores pais que alguém poderia ter. Por gerações e gerações, excelentes médicos surgiram em minha família. Meu avô chegou a receber um prêmio Nobel e uma das primeiras médicas do País havia saído de minha família. Meu irmão e irmã são estudantes de medicina exemplares, então, para meu pai, eu sou um caso atípico, a ovelha negra, um desperdício. Não é pelo que, imediatamente, se pensa que venha a ser um caso perdido, pois não levo uma vida inconsequente e desestabilizada, pelo contrário, sou um dos melhores alunos do curso de advocacia.
    Mas, eu sou o tipo de pessoa que consegue, sem esforço algum, destruir o mundo à sua volta e, principalmente, as pessoas que amo. Decepcionei meu pai, minha mãe, minha noiva e, acima de tudo... meu filho.
    De todas essas pessoas que magoei, ter feito isso com ele foi o que mais me destruiu. Eu nem sequer o conheci! Jamais vou perdoar a mim mesmo por isso.

    ≈≈≈≈

    Quando o meu orientador, na faculdade, requisita a minha presença, na sala dele, é porque algo não vai bem. Eu tenho me esforçado muito para mostrar a meu pai que posso ser tão bom advogado quanto meu irmão é um excelente estudante de medicina. Não tem surtido muito efeito. Ele espera que eu erre o tempo todo, curve-me à sua vontade e continue a linhagem de grandes médicos da família.
    Parece que o sonho dele está mais próximo do que ele imagina. Bato na porta e espero o consentimento do meu algoz, com desânimo.
    — Adam — o professor Petersburg ajeita o aro dos óculos, afasta os olhos dos documentos sobre sua mesa e olha para mim — Sente-se.
    — Com licença, senhor — ocupo a cadeira que ele indica-me. Tento manter um ar indiferente, mas, na verdade, eu fervo por dentro — Queria falar comigo, senhor?
    Ele encara-me, por alguns segundos, com aquele olhar de professor que nos faz gelar até os ossos. O professor Petersburg é um dos melhores advogados, se não o melhor, do País. Tê-lo como mestre já me coloca em um patamar elevado. A possibilidade de que ele venha a me dispensar levará toda minha promissora carreira para a sarjeta. Pelo visto, terei que me tornar um médico mediano e frustrado.
    — Sabe, Adam — ele acomoda-se em sua cadeira e encara-me com seu olhar de águia. Sinto-me como num tribunal, prestes a ser condenado à cadeira elétrica — você é um dos melhores alunos que tenho, talvez até mesmo o melhor.
    “Mas”... Sempre há um mas, não é? O que eu havia feito para ter estragado a minha vida? Eu tenho sido, como ele disse, excelente. As melhores notas, horas e horas de dedicação e empenho. Eu não entendo!
    — Você será um excelente advogado — ele ri. — Talvez tão bom quanto eu. Tenho uma proposta para você.
    — Uma proposta? — pergunto, confuso.
    — Eu só trabalho com os melhores e, em alguns anos, você será o melhor — diz ele — Quero que trabalhe comigo. Claro, inicialmente, será um estagiário, mas, em breve, poderá ser, quem sabe, um sócio da empresa.
    As palavras dele martelam em minha cabeça. Fui até ali com a certeza de que seria dispensado, mas, estou sendo convidado para o que qualquer aluno da faculdade, do País, ou melhor, do mundo sonharia. Trabalhar com o renomado advogado Alexander Petersburg.
    — Senhor, eu nem sei o que dizer — murmuro.
    — Diga que sim.
    — Eu não teria como recusar isso — respondo, aliviado. — É claro que eu aceito!
    Ele sorri de volta e continua a me olhar, como quem analisa uma testemunha.
    — Tenho algumas recomendações a fazer — começa ele, de forma calma — Mas, primeiro, diga-me, você tem namorada?
    Droga! O que isso tem a ver com minha vida acadêmica?
    — Tenho uma noiva.
    — Isso é bom — ele sorri — Mostra estabilidade...
    Solto o ar, novamente. Parece que a sorte começa a sorrir para mim. Eu sempre fui o tipo azarado. Aquele cara para quem as coisas mais absurdas acontecem. Ver que minha vida está seguindo pelo caminho planejado é reconfortante para mim. Uma bela noiva, também aspirante a advogada, e uma bela carreira à vista. O que mais posso querer da vida?
    — Só tome cuidado com coisas que podem tornar-se algo que venha a retardar o seu sucesso — continua ele, com voz de um pai orientando uma criança — Tenha a certeza de que um bom advogado tem que se dedicar muito. E este é o momento em que precisa estudar demasiadamente, dedicar-se à carreira. Converse com sua noiva e espere um pouco antes de iniciarem uma família.
    — Com certeza, senhor! — balanço a cabeça, rapidamente — Ter filhos não está em meus planos, por enquanto.
    — Haja com inteligência e terá uma carreira brilhante — insiste ele — Vá até a sede da empresa, amanhã, que poderá começar nestas férias. Eu estarei esperando-o.
    — Obrigado, professor — cumprimento-o, com animação — Irei dedicar-me com afinco.
    Enfim, meu pai terá que desfazer aquele ar de quem sabe tudo e, finalmente, dar um pouco de crédito a mim. Não que ele seja uma pessoa ruim, apenas é descrente quanto à minha opção.

    Encontro Cecilia deitada em minha cama, no meu quarto do campus. Eu não estranho isso, nós sempre passamos horas ali, estudando, entre outras coisas, afinal, somos jovens, sonhadores e cheios de energia.
    Beijo seus lábios, com empolgação, e ela abre os olhos castanhos para mim.
    — Eu tenho novidades — digo a ela, sentando-me ao pé da cama — Lembra-se de que eu tinha uma reunião com o professor Petersburg?
    Cecilia senta-se na cama, cruza as pernas e olha para mim, de forma apreensiva. Com certeza, imagina o mesmo que eu pensei, que fui dispensado.
    — Eu também tenho novidades — murmura ela, com a voz tensa. — Mas, primeiro, conte-me a sua.
    Com certeza, a novidade dela é contar que havia passado em seus exames finais. Embora seja uma boa aluna, há algumas matérias em que ela tem certa dificuldade.
    — O professor convidou-me para estagiar com ele.
    — Adam! — ela pula para meus braços — Isso é excelente! Eu estava tão preocupada com o que faríamos de nossas vidas, mas, agora tenho certeza de que tudo ficará bem.
    — Nossas vidas serão perfeitas — sorrio de volta — Como havíamos planejado.
    — Bem, não tão como havíamos planejado — murmura ela — Estou grávida.
    Se me dissessem que eu tinha uma doença terminal e que, em dois meses, eu partiria desta para outra vida, eu não teria ficado tão chocado como agora. O que ela acabou de dizer não só apenas mudará nossas vidas, mas, destruirá minha carreira para sempre.
    — O que está dizendo? — afasto-a de mim, com frieza — Está brincando comigo?
    — Eu sei que está surpreso — Cecilia ri, nervosa — Eu também fiquei, mas, tudo dará certo, querido. Este é o sinal de que precisávamos. Eu posso sair da faculdade e cuidar do bebê e você...
    — Está louca? — grito, exaltado. —Não estava tomando pílula?
    Ela encara-me, com um olhar assustado. Jamais gritei ou fui grosso antes. Nós conhecemos um ao outro desde crianças, sempre fomos amigos e ficarmos noivos foi algo natural para mim.
    — Eu tomei, mas, lembra-se de que tive aquela infecção na garganta? — diz ela, com a voz trêmula. — Os antibióticos... O médico disse que pode ter cortado o efeito...
    — Isso não importa! — encaro-a, furioso. Eu não acredito que ela preparou-me essa armadilha —Eu não quero esse filho!
    — Adam... — Cecilia afasta-se de mim, com o olhar magoado — se está dizendo para...
    — Livre-se dele! — digo, furioso.
    Pego a mochila que havia preparado mais cedo e saio dali. As paredes sufocam-me, o olhar consternado de Cecilia condena-me e eu desejo desaparecer. Isto não pode estar acontecendo comigo! Eu não posso e não quero ser pai agora! Nem sei se eu quero ser pai um dia! Não estou pronto para essa responsabilidade. Inferno! Meus pais vão matar-me. Eu já até consigo imaginar os gritos e os olhares de recriminação. E o professor Petersburg? Com certeza, retirará a oferta de estágio, além de, é claro, ficar tão decepcionado comigo, como meu pai. Minha vida não está mudando, como previ, está a mesma porcaria de sempre. Não, na verdade, não está igual, agora, está muito pior.


    A noite foi tensa, mal consegui dormir. Há milhares de ligações de Cecilia em meu celular, fora todas as vezes que a empregada havia levado o telefone fixo até meu quarto. Não atendi, não posso falar com ela agora. Eu sei, estou sendo um canalha, covarde, mas, não posso falar com ela, não quando sei que a magoaria ainda mais. Preciso conversar com meu professor primeiro e resolver a merda da minha vida. 
    A manhã passou lenta e desastrosa, tudo o que aprendi nas aulas parece ter desaparecido da minha cabeça. Pareço perdido e alienado e isto não passa despercebido ao meu professor.
    — O que há de errado, Adam? — pergunta ele, após me pegar distraído, pela “décima vez”.
    Ainda não havia encontrado uma forma de dizer a ele.
    — Eu não poderei trabalhar com o senhor — digo, amargamente, as palavras parecendo fel, em minha boca — Sinto muito.
    Levanto-me e começo a recolher minhas coisas. Sim, eu havia reagido mal à notícia de Cecilia, mas, não posso deixá-la sozinha. É o meu filho e tenho responsabilidades para com ele. Vou continuar a faculdade, de qualquer jeito, tornar-me um grande advogado, mesmo que a muito custo.
    — Encontrou uma oferta melhor que a minha? — indaga ele, limpando os óculos.
    — Não, senhor.
    — Então, por que essa mudança repentina?
    — Lembra-se do conselho que me deu ontem?
    — Depende — ele ri e senta-se na quina da mesa — Foram alguns.
    — O mais importante deles — falo com um ar derrotado — a respeito de não iniciar uma família... Bem, acho que veio um pouco tarde.
    Ele olha para mim, por longos minutos, e estuda-me, minuciosamente.
    — Bem... — ele parece surpreso, mas, não está decepcionado como eu tinha imaginado — Eu não vou dizer que será uma tarefa fácil, mas, acontece. Você tem sorte por isso.
    Sorte? Ele é maluco ou o quê? Está certo, grandes gênios têm suas excentricidades, mas, ele havia sido enfático a respeito de não iniciar uma família tão cedo.
    — Eu não entendo, senhor.
    — Veja bem, Adam —começa ele, com voz calma — Dediquei-me à minha carreira a vida inteira. Nada foi mais importante do que isso, nem mesmo a mulher que, um dia, pensei amar e que, talvez, ainda ame...
    Escuto o que ele tem a falar, sem entender exatamente aonde quer chegar.
    — Eu não me casei ou tive filhos — murmura ele —Quando dei por mim, a jovem estava casada com outro homem, com filhos que poderiam ter sido meus. Então, não jogue essa dádiva fora. Vocês terão que trabalhar em dobro e sua vida será difícil, mas, no fim das contas, ela será completa. Quanto ao estágio, fique tranquilo.
    — Não vai dispensar-me dele?
    — Filho, como eu disse, é um excelente aluno — ele ri — Prefiro tê-lo ao meu lado do que contra mim, daqui a alguns anos. Resolva as coisas com sua noiva e volte amanhã.
    — Sr. Petersburg, eu...
    — Admiro-o, Adam! — murmura ele, emocionado. É estranho presenciar esse lado dele, o humano. —Se tivesse um filho, gostaria que fosse como você.
    — Obrigado, senhor.
    Saio da sala, apressadamente. Preciso desculpar-me com Cecilia, que deve estar sentindo-se sozinha e perdida. Como posso ter sido tão canalha com ela? Sinceramente, espero que me perdoe, porém, independentemente de como termine nossa relação, assumirei nosso filho. Até já me sinto animado com a ideia. Quem sabe esse bebê, assim como eu, siga uma nova geração de advogados em minha família... É uma possibilidade agradável. Só de lembrar que, horas antes, eu rejeitei essa nova vida, percebo o quanto o choque com a notícia embotou o meu bom senso. Agora, faço planos. Cecilia está certa. No fim das contas, pode ser algo bom. Um sinal de renovação.
    Ligo para o número dela e espero, com impaciência. Preciso ligar várias vezes. Com certeza quer dar um castigo em mim por ontem à noite, afinal, eu mereço.
    — Cecilia — falo, angustiado — Escute, sobre...
    — O que você quer? — pergunta ela, com uma voz estranha.
    — Preciso falar com você — respondo, preocupado — Onde você está?
    Silêncio. Um soluço.
    — Fazendo o que me pediu — ouço-a dizer, com uma voz fraca. — Vou dar um fim a isso.
    —Espere, Cecilia... Cecilia...
    Ligação encerrada.

    As próximas horas foram terríveis! Liguei para seus pais, amigos, conhecidos e todas as pessoas em que pude pensar que tivessem alguma ligação com ela. Nenhum sinal. A angústia domina meu peito e o arrependimento não me deixa ter um minuto de paz. Eu não gostei de seu tom ao telefone e da resposta que ela deu... que me persegue como um fantasma. Que tipo de loucura Cecilia está fazendo por aí? Talvez em alguma clínica imunda! Tudo porque agi como um irresponsável. Abandonei-a no momento em que mais precisou de mim. Se algo acontecer a eles, jamais poderei perdoar-me.
    — Adam —diz Liam, assim que atendo — Cadê você?
    — Chegando em casa — murmuro, frustrado — Escuta, Liam... Cecilia deu notícias?
    — Sim.
    — Graças a Deus! — respiro, aliviado. — Onde ela está? Eu vou até lá.
    — Venha para casa — sinto a tensão em sua voz. Algo parece-me errado.
    — Cecilia está ai?
    — Venha para casa, Adam.
    — Certo — digo, nervoso — Estou apenas a algumas quadras daí.
    Ser recebido por meus pais, minha irmã e Liam, todos com olhar sério e apreensivo, deixa-me apavorado.
    — Sinto muito, Adam — Liam caminha até mim.
    — O que está acontecendo? — exijo — Falem!
    — Cecilia, ela... — Katty começa falar, com a voz entrecortada — sofreu um acidente de carro.
    — O quê? — meu coração para, no peito —Ela está bem, não é?
    — Sinto muito, Adam! — Liam coloca-se ao meu lado — Ela não sobreviveu.
    — Cale a boca! —já não sou dono das minhas ações. Quero que ele cale-se. O que diz só pode ser mentira. Eles não estão mortos, não podem estar.
    — Pare, Adam! — meu pai afasta-me do corpo quase inconsciente de Liam, enquanto ouço os choros desesperados de minha mãe e irmã, ao longe — Vai matá-lo, filho!
    Vou matá-lo! Repito isso, em pensamento, algumas vezes. Assim como matei Cecilia e matei meu filho. Eu enviei-os para morte e, como consequência, enterrar-me-ei junto.
    A minha capacidade em destruir tudo à minha volta é a única coisa que não mudou em minha vida. Quanto ao resto, alterou-se irrevogavelmente. Subo as escadas para meu quarto, sentindo os olhares perplexos em minhas costas. Eu não me importo. Na verdade, nada mais importa. Não haverá casamento, esposa e filhos. Não haverá nada. Jamais outra mulher ou criança ocuparão meu coração. Não mereço isso. Esses pensamentos e sentimentos vão perseguir-me eternamente...



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