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  • Além da Atração - Capítulo 5

    Capítulo 05


    Havia passado uma semana desde o ano novo, e meu encontro com o homem misterioso. Eu pensei nele todos os dias, algumas vezes cogitei se tudo não tinha sido fruto de minha imaginação. Se não fosse o fato de que eu nunca fui uma garota avoada e sonhadora, acreditaria que ele nunca existiu.
    Os primeiros dias foram os piores. Lola voltou ao trabalho e eu tinha horas e horas ociosas. Andei pela cidade e conheci alguns lugares da minha lista, os que eram mais próximos ao apartamento ou tivessem fácil acesso a ônibus e metro. Em sua maioria museus e pontos turísticos.
    Também aproveitei do tempo livre para limpar o apartamento e explorar a cozinha. Mas nada do que eu fizesse, afastava aquela noite da minha cabeça por muito tempo. Sempre que recordo do beijo meu coração dispara.
    — Sabe Lola, eu gostaria de ficar na cidade — informo a ela durante o jantar — Acha que eu conseguiria um emprego por aqui?
    — Essa é uma grande notícia! — murmura ela, abraçando-me por cima da mesa — Posso ver algo na DET para você.
    — Eu gostaria de tentar sozinha, se não se importa? — murmuro de volta — Não quero ser acusada de aproveitar de minhas influências novamente.
    Lola me encara com olhar sério e volta a concentrar-se na comida.
    — Isso é bobagem de cidade pequena — ela revira os olhos — Mas faça da sua maneira, se a faz se sentir melhor.
    Ela volta a me encarar como se uma grande ideia acabasse de surgir em sua cabeça.
    — Você pode morar aqui — Lola volta a sorrir — Eu não queria colocar o apartamento a venda, não sei se me habituarei no Texas, e não me agrada a ideia de alugar a casa para um desconhecido.
    — Eu ainda tenho um pouco das minhas economias — falo animadamente — Conseguirei pagar o aluguel por um tempo, até conseguir um novo emprego.
    — Não cobrarei aluguel de você, não diga bobagens — retruca Lola, injuriada — Ofende-me que pense assim. É minha sobrinha e minha casa sempre estará aberta para você. Além disso, estará me fazendo um grande favor, cuidando da casa e das minhas plantas.
    — Eu não posso aceitar, Lola...
    — Pode como irá — insiste ela — Mas se a deixa mais à vontade, pode administrar as contas e, não discutiremos mais sobre isso.
    Como não há nenhuma forma de argumentar com ela, e Nova Iorque ser uma cidade relativamente cara, eu cedo, pelo menos por enquanto. Já que Lola consegue ser tão teimosa como é generosa.


    O que importa é que estou feliz com a decisão que tomei, e nada está relacionado com a possibilidade de que eu possa reencontrar aquele homem outra vez, pelo menos é o que eu tento me convencer.
    Após dois dias, estou sentada na frente do computador que há na sala. Com currículo em uma mão, e uma lista de bancos e instituições financeiras na outra. Pretendo procurar emprego no dia seguinte. Eu sei que com apenas um diploma técnico em administração não seria páreo para centenas de pessoas especializadas, mas já que eu não precisaria me preocupar com gastos importantes como aluguel, por um tempo, qualquer coisa servirá. E mesmo que eu não tenha um diploma de curso superior eu tenho experiência na área financeira, isso com certeza deve contar para alguma coisa.
    Um pouco mais animada vou para cozinha preparar o jantar para Lola. Ligo o som portátil que há ali e até mesmo arrisco-me em provar uma taça de vinho, enquanto cozinho.
    — Que cheirinho bom — Lola coloca sua pasta em uma cadeira e verifica as panelas no fogo — O que está fazendo?
    — Legumes gratinados, peixe e bolo de frutas.
    — Por que eu não a sequestrei antes — ela respira fundo, inalando o aroma impregnado na cozinha — Vou apenas tomar um banho, separe uma taça de vinho para mim.
    Quando ela retorna, a mesa já está posta e os talheres nos seus devidos lugares. Sirvo-a, enquanto ela finge salivar pela boca.
    — Essa refeição é digna da boa notícia que trago — murmura ela, levando uma garfada a boca — Consegui uma vaga na DET para você.
    — Mas, Lola... — começo a protestar, mas sou impedida por seu olhar determinado.
    — Não seja orgulhosa, Penélope — zanga-se ela — Não combina com você. E faria isso se fosse filha de uma das minhas amigas, por exemplo.
    — Eu só queria caminhar pelas minhas próprias pernas.
    — É louvável, querida — diz ela — Posso ter-lhe arranjado esse emprego, mas só permanecerá nele, pelos seus próprios méritos, acredite.
    — E o que eu farei? — pergunto em expectativa.
    — Será minha assistente.
    — E a Aline? Ficará em seu lugar?
    Pelo que me lembro da festa, ela foi apresentada como a assistente de Lola.
    — Aline é uma cabeça oca — Lola esfrega os olhos — Tentei treiná-la para que me substituísse, mas ela vê a empresa como um caminho para um casamento promissor e escala social. Não conseguiu trabalhar diretamente com Neil, nem por vinte quatro horas. Acho que só não pediu demissão, porque ainda espera encontrar um bom partido ali.
    — Está falando sério? — pergunto, perplexa.
    Pensei que a última coisa que mulheres independentes e modernas que trabalhassem na DET pensasse, fosse em casamento.
    — Verá com os seus próprios olhos.
    — O Sr. Durant, sabe disso?
    Considerando que ele não aprovava relacionamentos interpessoais entre os funcionários da empresa, isso é algo preocupante. E ao contrário do irmão dela, eu simpatizei-me com Aline. Seria bom tê-la como amiga e trabalhar com ela.
    — Se ele sabe finge que não vê — ela sorri suavemente — No fundo ela é uma boa garota, apenas tem ideias tolas.
    — E quando eu começo?
    Apesar de me sentir um pouco constrangida, no fundo, estou bem animada em trabalhar na DET com ela. Outra vez eu teria que provar a muitas pessoas, além do próprio Sr. Durant, que era merecedora da oportunidade que me foi dada.
    Mas só o fato de não ter meu passado, e meus pais pesando sobre minha cabeça é reconfortante. Entre ser conhecida por ser a filha chata e antissocial do reverendo, e a sobrinha da extrovertida Lola, eu fico com a segunda opção.
    Talvez não fosse tão complicado como eu imagino. Eu poderia fazer novos amigos, corrigindo, poderia fazer amigos.
    De repente, sinto-me muito animada com essa nova perspectiva. Como nunca estive antes.
    — Brindemos a sua nova vida — Lola levanta a taça em minha direção.
    — A Nova Iorque e tudo o que ela tem a oferecer.
    Conversamos um pouco mais, após o jantar, e resolvo ir para cama cedo. Quero estar bem disposta para o dia seguinte.
    Infortunadamente, minha noite foi agitada e povoada de sonhos confusos, que me fizeram acordar durante a noite por várias vezes. Sendo a maioria deles protagonizado por ele, regados a beijos, abraços e outras coisas que me fazem enrubescer.


    Foi desnecessário programar o despertador, as seis da manhã, eu já estava de pé, de banho tomado e vestida. Escolhi um terninho azul marinho e um lenço mais claro, que Lola havia ajudado a escolher em nosso dia de compras. Prendi os cabelos em um coque severo, não me sentiria confortável de outra maneira, alguns hábitos não são tão fáceis de mudar de uma hora para outra. Fiz a maquiagem como o maquiador havia me ensinado — esfumacei meus olhos, destacando-os, um toque de rímel, blush para dar cor em minhas bochechas, e um batom cor da boca, discreto, mas que de certa forma parecia deixar meus lábios mais grossos. Uma gota de perfume atrás de cada orelha e estou pronta.
    Recebo um assovio de Lola ao entrar na cozinha e acompanho-a no café da manhã. Meia hora depois estamos em seu carro, a caminho da DET e a minha nova vida. Um destino amedrontador, mas ao mesmo tempo fascinante.
    Quando paramos por um minuto em frente ao arranha-céu, meus olhos brilham tanto como as paredes espelhadas, refletidas pelo sol. É gigantesco, um dos maiores edifícios que já vi, e já me deparei com prédios enormes em minhas andanças pela cidade.
    Respiro fundo algumas vezes, tentando controlar o nervosismo, que causa cócegas em minha barriga. Acompanho Lola para dentro do prédio, onde a movimentação de pessoas é intensa e constante.
    A sede da DET ocupa os últimos andares, o restante está alugado para comércio como: joalherias, lojas exclusivas e alguns dos maiores escritórios da cidade.
    Passamos pela recepção, Lola cumprimenta a recepcionista, ela me apresenta como a mais nova funcionária. A jovem me dá boas vindas com um sorriso gentil e me entrega um crachá provisório. Passamos pelo Recursos Humanos, assino os papéis de contratação e dou início aos exames contratuais.
    Conforme caminho pelas dependências do prédio, fico satisfeita por ter dado devida atenção em minha aparência. As mulheres que caminham ali, exalam elegância e sofisticação.
    Quando finalmente chego ao último andar, após passar por alguns seguranças, deparo-me com Aline em sua mesa, na ampla recepção que dá acesso as outras salas. O logo da empresa cravado na parede, chama a minha atenção por um momento. Tudo aqui tem um toque de poder e sofisticação.
    Aline sorri para mim, ela está ao telefone e faz um gesto para que eu me sente. Lola surge logo depois, e leva-me ao lugar que eu passarei a ocupar. Fica entre uma pequena cozinha e sala de arquivo, no qual eu passei quase toda a manhã.
    Vi Neil Durant chegar a sua sala acompanhado de Lola, e não sair de lá por muito tempo. Observei minha tia entrar e sair de lá muitas vezes, sendo algumas delas, falando sozinha ou bufando de raiva.

    Saio para o almoço sozinha, já que Lola terá que resolver um problema de última hora.
    Antes que as portas do elevador fechem, ouço a voz imponente dele, pedindo que segurasse o elevador. Após um agradecimento educado, ele volta a concentrar-se em sua ligação de negócios, ignorando minha presença completamente. Embora ele não dirigisse o olhar para mim, sentia que era observada o tempo todo. Quando saímos do elevador, eu volto a respirar com tranquilidade novamente.
    Ao sair do prédio, sou recebida por uma brisa suave em meu rosto, e ando pela calçada animadamente. Não foi difícil encontrar o restaurante que Aline me indicou. Como ela disse, o lugar era simples, mas a comida é excelente. Identifiquei uma ou duas funcionárias que vi circulando pela DET, uma até mesmo sorriu para mim e cumprimentou com um movimento de cabeça.
    Dez minutos antes do final da minha pausa, retorno a minha mesa e a pilha de papéis em cima dela. Há vários recados e instruções de Lola, volto a trabalhar imediatamente. Ela não havia mentido quando disse que só permaneceria ali, por mérito próprio. Se como assistente eu estava afogada em trabalho, o que dirá ela como secretária executiva.
    Mas estou incrivelmente feliz. Tenho certeza que amarei trabalhar aqui. É tudo muito corrido, não há muitas conversinhas paralelas, e acho que isso, é o que me agrada mais. É empolgante e desafiador.
    A semana passou rápido, agitada, mas sem grandes surpresas. Duas secretárias haviam passado pelo treinamento de Lola e nenhuma delas havia ficado, sendo que a primeira, havia saído excomungando até a terceira geração da família do Sr. Durant e a segunda... bem, a segunda saiu chorando.

    Passamos o fim de semana em casa, relembrando fatos engraçados do nosso passado, em sua maioria, envolvia meu pai e tudo que Lola fazia para irritá-lo. Como aparecer em um fim de semana em nossa casa, acompanhada de um namorado motoqueiro tatuado, dez anos mais jovem que ela. É claro que o reverendo havia excomungado os dois, e eles acabaram passando a noite em um hotel da cidade.
    No domingo, assistimos um pouco de TV e à noite liguei para meus pais. Papai não quis falar comigo, minha mãe foi breve, com respostas curtas. Ela não queria contrariar meu pai e não parecia muito preocupada comigo, algo que sinceramente me magoou.
    A segunda-feira foi tranquila, mas o dia seguinte foi meio tenso. A nova secretária que deve ser treinada por minha tia, tem um temperamento um tanto intragável. Ela é grossa e rígida o tempo todo. Sendo sincera, ela é uma verdadeira bruxa.
    Eu diria que é o Sr. Durante de saia, um verdadeiro general, ditando ordens a todo momento. A grande diferença entre eles, é que no caso de Neil é que ele é brilhante, além de ser compreensível sua falta de paciência para algumas pessoas. Afinal, ele carrega a responsabilidade de um império em seus ombros. Além disso, ele não era mal educado, apenas exigente. Espera que as pessoas o acompanhe com rapidez, como um pequeno menino gênio, sem paciência para grandes explicações. 
    Já a Sra. Morgan, mandava apenas pela necessidade de se sentir no controle. Em poucos minutos eu virei a sua garota preferida do cafezinho.
    Felizmente, ela não durou nem até metade da semana. Neil a colocou para fora, quase que aos berros, foi a primeira vez que o vi, realmente fora de controle. E quase estrangulou tia Lola com olhar, devido a péssima escolha para substituí-la.
    Com a saída da Morgan eu não fui a única no escritório a ficar aliviada. Aline foi a que mais comemorou e deu pulos de alegria, inclusive, levou-me a um dos seus bares preferidos para brindarmos isso.
    No fundo, eu me senti mal por estar feliz pelo infortúnio de outra pessoa, mesmo ela sendo uma bruxa horrível.




    Outro Mais um fim de semana. Lola e eu estamos na praça de alimentação de um shopping, tomando sorvete, enquanto esperamos a sessão com o nosso filme começar.
    — Eu realmente não sei mais o que fazer — suspira ela, largando a taça em cima da mesa — Pensei que o general conseguiria ficar por ali, ela tem boas referências, mas Neil e ela não se bicaram.
    — Você sabia sobre o apelido? — pergunto, divertida.
    Foi dado por Aline e eu, em dos momentos de tensão.
    — Todos sabiam — ela sorri — Acho que até a própria sabia disso.
    Concentro no meu sorvete de abacaxi com creme, e penso em algo que possa ajudar Lola.
    — Paula já está com quase oito meses — diz ela, mexendo na calda do seu sorvete de morango — Gostaria muito de estar presente quando o bebê nascer.
    Lamento pelo dilema que ela está passando. Ela ama a filha, por outro lado sente grande apreço e gratidão pelo Sr. Durant. Em algum momento ela terá que fazer uma escolha, e não ficará feliz com qualquer decisão que tenha que tomar.
    — Acho que ele precisa de alguém maleável, mas que saiba ter pulso firme quando precisar — mexo no suco, derretido que havia formado na borda da taça, sem olhar para ela — Alguém que consiga acompanhar seus pensamentos como você ou pelo menos finja muito bem.
    Lola escuta-me atentamente e em silêncio, concluo que pondera sobre o que eu falo.
    — Alguém que não se assuste com seus gritos e, que principalmente não tenha medo de cara feia — continuo, distraída — Que saiba trabalhar em momentos de tensão. Sabe, no fundo acho que ele só está temeroso por perder uma amiga e alguém de sua confiança. Algo me diz que vocês têm um relacionamento mais do que profissional, sem ofensas — sorrio, encabulada — Após tanto tempo trabalhando juntos, é normal que tenham criado esse vínculo. Mas tenho certeza que em breve irá encontrar a pessoa certa, Lola.
    Ergo a cabeça para encará-la e de alguma forma, não gosto do sorriso radiante em seus lábios, e o brilho maroto em seus olhos.
    — Como eu não pensei nisso antes? — pergunta ela — Estava diante dos meus olhos, o tempo todo.
    — Conseguiu pensar em alguém?  — pergunto, animada por ela — É alguém que eu conheça ou já vi?
    — Está na minha frente, agora.
    Olho para trás de mim, querendo descobrir de quem ela está falando. Não há ninguém, além de uma mulher com seus dois filhos pequenos, e na outra mesa, um grupo de adolescentes conversando.
    — O que quer dizer? — pergunto, desconfiada.
    — Você! — ela sorri abertamente e toca minha mão sobre a mesa — Era você o tempo todo. É tão obvio... na verdade eu cogitei a possibilidade desde que decidiu ficar aqui, mas você ainda estava abrindo suas asas, parecia um pouco acuada ainda.
    — Não! — interrompo-a, assustada — Não estou preparada para isso.
    — Nasceu preparada — Lola coloca uma porção de sorvete em sua boca e me encara com olhar determinado — As poucas vezes que a vi com Neil, me dão a certeza disso.
    — Por quê?
    — Não está deslumbrada por ele como as outras ficam. Isso o irrita muito — continua ela — E vi que ele gostou das opiniões que deu a ele, aquele dia.
    — Isso não me qualifica — insisto, agora em pânico.
    Eu tinha ido umas dez vezes na sala dele, realizar alguma tarefa que Lola havia pedido. Na maioria das vezes, ele mal olhou para mim ou pareceu notar minha presença. Apenas nas duas últimas, havia erguido o olhar quando respondi um de seus pensamentos em voz alta. Nem ao menos sei por que fiz aquilo, foi algo automático. Em outro momento, perguntou-me abertamente minha opinião sobre os riscos de um novo projeto. Sobre riscos financeiros eu entendo um pouco, mesmo que seja em uma escala bem menor, mas risco são sempre riscos.
    — Quem cresceu em um ambiente como o seu, e com um pai opressor, consegue conviver com qualquer pessoa — murmura ela — O que passou naquela cidade, todas as maldades e fofocas, toda aquela tensão a qualificam e muito.
    — Mas eu fugi, no fim das contas — murmuro de forma amarga — Não sou tão diferente das outras secretárias, pelo visto. Eu não tenho um curso superior e gosto de trabalhar na DET, conseguir outro emprego tão bom quanto esse se algo der errado, não será nada fácil.
    — Pense nisso como outra oportunidade de crescimento — insiste Lola — Neil é exigente, mas ele investe em seus funcionários também. Poderá estudar se quiser, irei treiná-la nas próximas semanas. Vou garantir que ele a mantenha no trabalho, caso não dê certo de trabalharem juntos.
    — Algumas semanas de treinamento, não fará de mim, uma secretária executiva que o Sr. Durant espera, Lola.
    — Um diploma universitário também não fez com que as outras fossem — rebate ela — Quantas pessoas iniciam ou iniciaram negócios de sucesso, sem nunca ter pisado em uma universidade?
    Eu vejo que meus argumentos contra ela, estão findando.
    — Quando eu comecei a trabalhar na DET, tinha apenas um curso de secretariado e muitos sonhos. Não foi fácil, mas eu cresci muito, não jogue essa oportunidade fora, Penélope.
    — Os tempos eram outros — insisto mais uma vez, tentando colocar algo racional em sua cabeça.
    — O que você tem é medo — murmura ela — Não foi para isso que veio até aqui? Para finalmente encarar o mundo e todas as suas possibilidades? E se nada der certo comece de novo.
    Constato que tudo o que ela me diz, é verdade. Não tenho medo de Neil Durant, e toda a fama que ele carrega, muito menos do trabalho e as dificuldades que possa encontrar no caminho. É que pela primeira vez, eu me sinto bem comigo mesma, com minha vida, meu trabalho, com as pessoas a minha volta — eu me sinto livre.
    Tenho tudo o que se quer, um dia sonhei, mas que eu já amo muito. Um emprego novo, uma cidade nova e até uma amiga. Tenho receio que tudo isso seja tirado de mim, como alguém puxando o tapete sob meus pés.
    — Não faça isso apenas por mim — Lola aperta meus dedos — Faça por você. Prove que todos estavam errados, a grande mulher você é.
    Ela me encara com olhar de cachorro sem dono, e eu sei que a partir dali, ela já havia me convencido.
    — Neil não é tão malvado assim — brinca ela — Só em noventa e nove por cento do dia.
    Rimos juntas e eu pondero sobre o que ela disse. Não, ele não é tão ruim como quer que as pessoas acreditem. Eu sei do que falo, conheço pessoas realmente más. Definitivamente ele não é assim. Apesar de toda aquela aura dominadora, olhar penetrante e semblante fechado, há alguém gentil. Sei disso pela forma que trata a filha no telefone, sempre carinhoso, não importa quem esteja presente. Seja eu, Lola ou em uma sala repleta de diretores. Há mais nele do que as pessoas realmente podem ver e mais do que ele permite-se mostrar.
    — Está bem, eu posso tentar — sorrio, vencida por seus argumentos — Mas o que ele terá a dizer sobre isso?
    — Deixe que com ele, eu me entendo.

    Não sei de que maneira, mas Lola havia convencido o Sr. Durant, que eu era a escolha perfeita para ocupar o lugar dela. Confesso que começar a passar tanto tempo ao lado dele, foi meio intimidante. Mas conforme os dias foram passando, fomos nos adaptando um ao outro, de forma gradual e naturalmente.
    E é claro que me testou o tempo todo. Lembro-me do único evento que quase me fez pedir demissão, além de causar-me um profundo desapontamento no momento.
    “Que tal sairmos uma noite dessas”. Disse ele, sentado na quina da minha mesa. “Podemos sair para jantar e esticar a noite.
    “Está falando sério?”
    Ele estava jogando a isca, mas fiquei extremamente irritada. 
    “Acho está confundindo as coisas Sr. Durant”. Levantei-me, indignada. “Se não é possível manter uma relação estritamente profissional, não vejo razão de eu estar aqui!”
    “Sente-se, Srta. Walker!” Disse ele, antes mesmo que eu pudesse pegar minha bolsa. “Não irá a lugar algum.
    Foi o brilho divertido em seu olhar que me fez enxergar que era apenas mais um dos seus testes absurdos.
    No último dia de trabalho de Lola, os funcionários comemoraram em um bar não muito longe dali. Eu fui obrigada a ficar no escritório até tarde, já que ele havia exigido um relatório para o dia seguinte, que no mínimo eu demoraria uma semana. Lola alertou que era mais um de seus testes para saber qual a prioridade em minha vida. Constatei sua teria no dia seguinte, quando ele disse que havia se enganado, portanto minhas horas trabalhando madrugada afora, não foram necessárias. Como desculpa me daria a tarde de sexta-feira livre.
    Foi a única vez que eu quis, realmente matá-lo. Gostaria de ter ido a despedida de Lola e poder estreitar ainda mais meus laços de amizade com outras pessoas da empresa. Principalmente com Aline, não tivemos muito tempo para conversarmos e não sei se está ressentida com minha promoção inesperada.
    Outros testes seguiram, aguentei firmemente cada um, inclusive suas crises de mau humor, quando algo saía fora do que ele havia planejado. No fim, Lola tinha razão, quem lidou com meu pai, conseguiria conviver com qualquer pessoa.
    Frequentemente eu sou chamada para assuntos pessoais, relacionadas as suas amantes — escolhas de vestidos, joias, reservar de mesas em restaurantes exclusivos, no último minuto. Foram muitas em poucas semanas, acredito que ele tenha tentado me chocar. O que não aconteceu. Eu só vi um homem solitário tentando preencher a lacuna de sua vida com mulheres fúteis e interesseiras. No fundo, sinto-me compadecida por ele.

    Os dias passaram velozmente. Eu não fui tratada com a hostilidade que imaginei pelos outros funcionários, mas ainda tenho dúvidas em relação a Aline. De certa forma, nos distanciamos um pouco, e não quero que isso aconteça. Agora ela quem me auxiliará no lugar de Lola, portanto teremos contato diariamente.
    Hoje o Sr. Durant saiu para almoçar com futuros investidores, as coisas no escritório estão relativamente calmas, então aproveito o momento para falar com ela. Quando pergunto sobre o que ela pensa sobre o meu novo cargo, sou surpreendida por sua resposta calma.
    — Claro que eu não estou irritada — ela sorri, pela primeira vez na semana — Eu fiquei um pouco receosa, em como você se comportaria. Conhece a frase: quer saber mais sobre uma pessoa, dê poder a ela. Ainda não sabia como tratar você e se continuaria sendo a mesma de antes.
    — Você tem certeza? — pergunto, assombrada — Quero dizer, você está aqui a mais tempo e...
    — Tive minha oportunidade, querida — ela entrega a xícara de chá a mim e senta na quina da minha mesa — Além de Charlote, acho que você é a única pessoa a aguentar aquele homem — ela leva o dedo a boca — O que ele tem de bonito tem de cruel.
    — Não acho que seja dessa forma — assim como Lola vou em defesa dele.
    — Lealdade? — Aline pisca o olho — Isso é algo que ele aprecia. Além disso, eu quero uma vida pós DET, e não teria isso sendo a secretária dele.
    — Mas o salário e os benefícios são muitos bons — banco minha própria megera ao abrir-lhe os olhos.
    — Excelentes são as oportunidades que terei de encontrar um bom marido — suspira ela, com olhar sonhador — Trabalhar aqui é melhor do que frequentar os clubes mais badalados da cidade.
    — Está mesmo falando sério?
    Minha tia já havia me alertado sobre suas intenções matrimoniais, mas na época, achei absurdas demais para levar a sério. Aline é bonita, interessante e mesmo que queira provar o contrário, é muito inteligente.
    — Eu gosto do meu trabalho, não leve a mal — justifica ela — Mas eu quero mesmo é uma família. Uma casa bonita em Manhattan e circular nas melhores festas. Aparecer nas colunas sociais e viajar pelo mundo. Vou te confessar uma coisa.
    Ela olha para os lados para ter a certeza de que não somos ouvidas.
    — Estou de olho em um dos amigos do nosso chefe, já que o próprio já é casado — murmura ela, abaixando o tom de voz — Saí com Peter algumas vezes, o detetive, mas esse é um mulherengo e muito escorregadio. Meu grande alvo e o senhor Crighton, só que ele ainda não caiu nos meus encantos.
    — Será que é porque você saiu com amigo dele?
    —Ah, não, eles, não têm essas coisas — murmura ela, balançando os ombros — O problema de Adam, é outro.
    — Talvez ele seja gay, então — provoco-a, mas essa pode ser uma possibilidade.
    — Se aquele homem for gay, querida — ela se abana — Eu juro que mudo de sexo. Na verdade, acho que ele sabe que sou uma garota séria e deve ter medo de um relacionamento como o que eu procuro. Mas não é nada que uma mulher bonita e inteligente como eu, não consiga mudar.
    — Então, boa sorte — sorrio para ela antes de voltar ao meu trabalho — Você tem as duas coisas.
    Enquanto ela volta para sua mesa e eu medito sobre o assunto, concluo que sou a última pessoa no mundo que poderia julgá-la. As pessoas devem ir em busca do que as fazem felizes. Não é porque que havia escapado de um casamento fadado ao fracasso, fugido das garras de um pai tirano, e que não tenha intenção alguma de me prender a outro homem, que ela e todas as outras mulheres devem pensar como eu.
    Além do mais, é meio contraditório pensar sobre isso quando aquele homem atraente e sedutor, ainda permanece em meus pensamentos. Durante o dia é sempre mais fácil afastá-lo de minha cabeça, o trabalho ajuda muito, mas a noite, ainda mais agora que Lola já não está mais comigo, é quase impossível tirá-lo da minha cabeça, não pensar naquela noite especial, e no momento íntimo que havíamos compartilhado.
    Talvez seja a aura de mistério em volta dele ou a falta de um nome, que tenha feito com que eu ficasse aficionada. Ele poderia ser qualquer um, mas ao mesmo tempo é único, diferente de tudo que já conheci.
    Balanço minha cabeça e tento afastá-lo dos meus pensamentos. Faço a única coisa que me aparta dele, mergulho em meu trabalho. Um dia ele seria uma mera lembrança.

    Teria sido uma sexta-feira normal, se o caos não parecesse ter se instalado em todos os lugares. Primeiro eu tive que lidar com um cliente furioso, que exigia falar com Neil, que no momento está em uma reunião com alguns engenheiros, deixando ordens categóricas para não ser incomodado.
    Depois, tive que lidar com uma de suas amantes furiosas e ciumenta comigo. A máquina de café havia quebrado, meu computador havia pegado um vírus, que provavelmente havia apagado o trabalho que vinha fazendo por dois dias.
    E para finalizar, meu pai tinha ligado para avisar que faria uma visita neste fim de semana.
    Já são quase quatro horas da tarde, e eu não havia saído para almoçar ainda, minha cabeça já começa a dar indícios de uma terrível dor de cabeça.
    — Tem certeza que pode dar conta? — pergunto a Aline antes de pegar minha bolsa.
    — Pode ir tranquila — ela sorri — Agora sei porque tem esse corpinho. Ficar horas sem comer, não é saudável. Eu disse a você que ser a secretária dele, não era nenhum prazer.
    Apesar de eu estar satisfeita com meu corpo, e ter uma genética que me favorece, não sou o tipo de pessoa que passa fome para ter um corpo bonito. E embora agora eu tenha um horário completamente desregulado para me alimentar, acabei habituando-me a isso.
    — Já lidei com coisas bem piores, acredite — respiro fundo — E não se engane com meu corpinho, eu tenho um apetite feroz. Verá isso quando tiver uma oportunidade.
    Nunca almoçamos juntas, infelizmente nossos horários não batem.  
    Vou até uma lanchonete não muito longe do escritório, no qual sempre recorro quando tenho pressa. Mesmo que no momento as coisas estejam mais calmas por lá, eu só fico tranquila quando o Sr. Durant dá o dia por encerrado.
    Peço um suco de frutas e uma fatia de torta de ricota, que parece estar divino. Como rapidamente, sinto-me inquieta e não sei explicar o motivo. Tenho a mesma sensação estranha que tive antes da festa de ano novo.
    — Que bom que você retornou — Aline vem ao meu encontro, assim que saio do elevador — Aconteceu um problema gravíssimo.
    — O que houve? — pergunto levando a mão ao meu peito.
    — Ah, ele está lá dentro — ela se abana como se tivesse muito calor — Dispensei a mulher do cafezinho, eu mesma queria fazer isso, mas aconteceu um daqueles problemas “femininos”. Esse é o único momento em que me arrependo por ter nascido mulher.
    Ela pousa a mão em seu ventre e entendo do que ela está falando.
    — Pode fazer isso por mim? — Aline aponta o carrinho de café — Por favor?
    — Claro, pode ir.
    Observo-a pegar sua bolsa e sair praticamente correndo, vou em direção a sala de Neil, sentindo-me solidária com ela. Definitivamente deveríamos passar por esse transtorno uma vez por ano. Não, apenas em anos bi cestos ou quem sabe, poderia ser um desprazer dos homens, já que ficamos encarregadas de ter os bebês.
    Bato na porta enquanto aguardo o sinal para que eu entre, penso em quais dos amigos bonitões do meu chefe, está na sala dele, porque sem dúvida para Aline ter ficado eufórica daquele jeito, um dos dois deveria ter aparecido.
    Tento imaginar entre a parede de músculos que ela havia descrito, e o engravatado bonitão.
    Empurro o carrinho sala adentro, após a autorização para que eu entre. Não há ninguém na sala além do Sr. Durant, mas vejo um terno cor de chumbo sobre uma cadeira, em frente sua mesa dele e ouço barulho de água vindo do lavabo a esquerda.
    — Eu trouxe o café — informo separando duas xícaras — Aline teve um problema e teve que sair às pressas.
    — Puro e sem açúcar — ordena Neil, sem desviar o olhar do que está fazendo.
    — Mesmo para mim Charlote.
    Ouço a voz e som da porta abrir e fechar, quando o reconhecimento daquela voz chega a minha cabeça, o resto do meu corpo deixa de agir de forma coordenada. Minhas mãos tremem e xícara que havia segurado firmemente, despenca em um baque estridente. Todo o conteúdo da porcelana entorna no carpete imaculado.
    Viro-me em direção a voz e sensação que tenho é que tudo se movimenta como em câmera lenta.
    — Você! — falamos juntos, quase em um sussurro inaudível.
    Encaro-o estática sem conseguir desviar os olhos dele.
    — Algum problema? — sinto o olhar de Neil sobre nós — Penélope?
    Eu juro que tento desviar o olhar, e prestar atenção no que Neil está dizendo, mas eu não consigo.
    É como se eu estivesse petrificada no lugar. O homem no qual eu vinha sonhando, fixado em minha cabeça por todas aquelas semanas, está aqui na minha frente, há poucos passos de mim.
    Tão lindo e atraente como eu me lembrava, e para minha felicidade ou melhor dizendo, infelicidade, ele é melhor amigo do meu chefe.
    Isso definitivamente não deveria estar acontecendo.
    Deus! Estou completamente perdida.


    9 comentários :

    1. Ai que lindo Elizabeth,amei e estou cada vez mais apaixonada pela estória! Beijos!

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      1. Beijos minha flor, que bom que está gostando <3

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    2. Quanto mais eu leio mais eu quero lê, to muito xonada nessa historia e prevejo um novo amante literário para minha lista !!!!!!!!!!!!!!!!!

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    3. Amei, amei!!!! Perfeito! Agora realmente as coisas vão começar a esquentar!!!

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    4. Esse livro vai ser muito top,amo Adam e Penelope.

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