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  • Além da Atração - Capitulo 1



    Dezembro de 2011, Edgartown, Massachusetts


    Dizem que o dia do seu casamento é a data mais importante da sua vida. Então porque eu não me sinto assim? Eu me sinto como se estivesse sendo enviada para o abatedouro, onde minha carne em breve seria dessecada, as melhores partes de mim seriam expostas na vitrine, e as piores seriam jogadas aos porcos. Esses são pensamentos são um tanto assustadores para um dia como esse, não é mesmo?
    Eu não me sinto como se a minha vida fosse mudar, como a ocasião sugeria. Apenas sairia das mãos de um homem dominador para entregar-me as mãos de outro. E não falo do meu noivo. O homem a qual me refiro é Patrick Wade pai do meu futuro marido, Maxwell Wade, ou apenas Max, que é quase tão submisso ao seu pai, quanto eu sou do meu.
      Numa cidade pequena e charmosa como Edgartown, as aparências significam tudo. Os Wade são uma das famílias mais antigas e abastadas da cidade. O principal banco, alguns imóveis e vários comércios da cidade, pertencem aos Wade. E eu tenho muita sorte que o único filho do casal Wade tenha se interessado por mim, a humilde e simples, filha do reverendo da cidade.
    Se os Wade tinham poder por causa do dinheiro, meu pai tinha poder por causa da igreja, a qual ele dirigia com mãos de ferro. Porque ninguém quer ser o motivo dos sermões de domingo. Meu pai é um homem duro e de regras firmes, mas nem sempre foi assim, prova isso é a escolha do meu nome. A escolha que havia sido feita em uma de suas bebedeiras com os amigos para comemorar meu nascimento. A mesma bebedeira que causou a morte de meu irmão mais novo Cory.
    Alguns sádicos como minha tia Charlote, a quem eu chamo de Lola, dizem que os fiéis mais fervorosos, eram aqueles que foram os mais pecadores, meu pai se enquadra nisso.
    É como se ele quisesse se redimir da culpa e fazer as pazes com Deus. A igreja, passou a ser para ele, o centro de tudo, minha mãe e eu tínhamos que segui-lo.
    Minha mãe é tipo de esposa submissa e servil, a que precisa ser guiada em cada mínimo detalhe, desde o que deveria dizer até as escolhas de suas roupas. 
    — Você está linda filha — murmura minha mãe, atrás de mim.
    — Sim, reluz a ouro — ironiza tia Lola — Mas por dentro...
    Olho-a através do espelho, observo quando ela senta em minha cama e acende um cigarro.
    Lola é a irmã mais velha da minha mãe, e considerada por meu pai, a ovelha negra da nossa família. Isso porque já se casou três vezes e tem dois filhos de pais diferentes. Ela mora em Nova Iorque, onde tem um emprego maravilhoso como secretária, em uma das companhias mais importantes do país.
    — Charlote, não fume aqui! — repreende mamãe, tomando-lhe o cigarro — Sabe que James não suporta cigarros.
    — Não suporta ou tem medo de retornar aos velhos hábitos? — pergunta ela acendendo outro, que novamente é recolhido por minha mãe — Veja a cara de felicidade dessa menina.
    Olho para minha imagem refletida no espelho. Uma jovem alta, levemente maquiada, em seu vestido branco de noiva, digno de princesa, escolhido e comprado por minha sogra, porque ela não permitiria que eu a envergonhasse perante os membros mais respeitáveis de Edgartown.
    Não há uma parte do meu corpo a mostra pelo vestido, exigência do meu pai, mas em vez de parecer recatado como ele gostaria, tinha um efeito exatamente o oposto, havia leve e misteriosa sensualidade.
    Pergunto-me o que meu pai acharia disso. Eu sempre tive que vestir algo que não que revelasse muito meu corpo ou incitasse pensamentos impuros. Meu pai sempre diz que a prevaricação dos homens é culpa das mulheres, e suas roupas indecentes, que instigando o pecado. E é irônico que no dia do meu casamento, eu revele mais de mim do que em meus vinte quatro anos.
    — Não diga bobagens — mamãe ajeita a cauda do vestido pela décima vez — Penélope está apenas nervosa como todas as noivas. É completamente natural que isso aconteça.
    Meus pais sentem orgulho e imensa satisfação com esse casamento, e minha mãe contou nos dedos os dias em que ela teria finalmente sua entrada na seleta e reclusa alta sociedade de Edgartown, carimbada. E meu pai, terá ainda mais poder. Sinto-me como uma moeda de troca.
    Ainda não entendo o que levou Max, o rapaz bonito e o bom partido da cidade, escolher a mim em meio a tantas garotas interessantes. Eu não vou as festas que ele costuma ir, a não ser as festas promovidas pela igreja, não visto roupas que as garotas da minha idade usavam, muito menos sensuais. O que o teria atraído para a filha do reverendo? Jamais tive uma resposta para essa pergunta.
    Temos um relacionamento de três anos, e nunca tínhamos passado de alguns beijos recatados, sempre supervisionado por meu pai. E ele não era nenhum santo, não pelo que já ouvi dos burburinhos. Mas comigo era sempre educado e frio. Certo que nossos encontros sempre foram depois da igreja e passávamos uma ou duas horas no sofá de casa, mas um homem apaixonado encontraria um jeito, certo? Contudo, não posso julgá-lo nunca senti a menor necessidade de ir além disso. Assim foram passando os dias. Agora, vejo-me aqui, prestes a unir-me a um homem que mal conheço. Pior do que isso, como entregaria minha virgindade a ele?
    Talvez o que o tenha atraído a mim, seja isso, além da minha reputação impecável, e isso é o mais importante, de acordo com minha mãe. Ele poderia sair com todas as garotas indecentes da cidade, mas nenhuma seria tão apropriada quanto eu. Eu não quero ser uma esposa conveniente como minha mãe havia se tornado. Eu quero um homem me faça sentir o que dizem nos romances escondidos em meu quarto. Embora às vezes eu acredite que o problema seja meu, crescer sufocando sentimentos e pensamentos impróprios possam ter me transformado em uma mulher frígida. Já que Max, em seus únicos momentos de rebeldia, não via problema algum de se exibir com as garotas da cidade.
    O que eu sinto é que eu serei apenas mais um enfeite naquela mansão elegante. Sim, eu teria uma bela casa, dinheiro e frequentaria os melhores lugares, mas não passaria de um bibelô. Será que é realmente isso que eu quero da minha vida?
    Venho me perguntando isso nas últimas semanas, cada dia que a data se aproximava, mais a questão martelava em minha cabeça.
    — Até o último segundo você pode dizer não, querida — Lola esfrega meus ombros tensos — Não precisa agradar a ninguém além de você mesma. Sabe que minha casa estará sempre aberta para você. Agora que estou me aposentando, pode ir comigo para o Texas ou ficar na minha casa em Nova Iorque.
    — Não diga tolices, Charlote! — minha mãe colocasse entre minha tia e eu — Se James souber que anda colocando coisas na cabeça dela outra vez...
    As duas iniciam uma discussão ferrenha.
    Eu volto a encarar a jovem apática no espelho. O que eu deveria fazer? Seguir em frente e enfrentar a vida que meus pais haviam idealizado para mim ou dizer adeus a tudo e aceitar a oferta da minha tia Lola?
    Minha prima Juliene mora no Texas, eu gosto dela e sempre nos demos bem. Apesar do pai dela ser o irmão do meu pai, ele não a considera uma boa influência para mim. Mesmo ela sendo mais nova Juliene é muito mais independente e rebelde que eu.
    Meu tio é o xerife, os fofoqueiros da família dizem que minha tia e ele foram apaixonados na adolescência, mas ele havia engravidado outra garota e ido embora, ela seguiu para uma carreira promissora. O fato de Lola ir para lá agora, comprova que os rumores são bem verdadeiros.
    — Já estão prontas? — meu pai surge na porta, pelo olhar que me enviou, havia desaprovado o vestido completamente.
    Intimamente isso me traz uma satisfação prazerosa. Eu teria escolhido um modelo mais moderno, um que provavelmente causaria um infarto a ele. No entanto, é bom saber que uso algo que ele desaprova, e não há nada que ele possa fazer contra.
    Poderia esse casamento não ser tão ruim como eu tinha idealizado?
    A despeito de toda minha vida regrada e controlada, eu amo meus pais. Nunca fui contra eles, preferi aceitar as coisas como eram, então não tivemos grandes conflitos. Se eu não fizesse nada que desagradasse meu pai ficaria tudo bem.
    E tenho doces lembranças da infância, quando nossa vida era diferente. E o que encontraria no Texas? Quatro primos metidos a valentões, um tio xerife e tão cheio de regras quanto meu pai.
    Não importa para onde eu vá, as coisas sempre seriam as mesmas.
    — Estou pronta — respondo, após um suspiro.
    — Stephanie vá na frente com Charlote — instrui ele o que minha mãe prontamente começa a obedecer — Nós iremos em seguida.
    Tia Lola abraça-me forte e sussurra em meu ouvido:
    — Não precisa fazer isso.
    Meu pai sai logo em seguida. Nenhum beijo na testa ou palavras emocionadas de como sentiria minha falta. Acho que para ele, está tirando um grande peso dos ombros. Ele entregaria a filha pura e imaculada e quando eu saísse daquela igreja não teria mais responsabilidades comigo.
    Confesso que é um pouco triste sentir-me como um fardo para os meus próprios pais. Um abraço carinhoso e palavras de incentivo de que daria tudo certo fariam uma diferença enorme. Quem sabe afugentasse todas a hesitações que rondam meu coração e mente.
    Desço a escada estreita que me leva ao andar de baixo. Não é uma casa grande, dois quartos no andar de cima, cozinha e sala no andar de baixo. Sentirei falta dessa casa, principalmente do meu quarto, onde passei a maior parte da minha vida quando não estava refugiada na praia olhando as ondas do mar, indo e vindo em direção a orla. Às vezes sinto como se minha vida fosse aquelas ondas. Algumas vezes fortes e gigantescas, outras fracas do tipo que apenas fazem cosquinhas nos pés.
    Durante o caminho até a igreja em dos carros cedido pelos Wade com direito a motorista e tudo, um pesado silêncio vagou entre meu pai e eu. Penso que esse seja seu jeito de lidar com isso. Não quer dizer que não se importa, como aparenta.
    — Lembre-se de se comportar muito bem, Penélope —murmura meu pai — Os Wade não são apenas ricos e de uma família tradicional, mas também tementes a Deus e a igreja, não nos envergonhe.
    São as primeiras palavras de meu pai em vinte minutos e ele as havia usado para mais um dos seus sermões. Pisco os olhos para evitar que as lágrimas rolem pelos meus olhos, isso seria ruim, estragaria a maquiagem e hoje teria que ser nada menos do que perfeita. A nova filha dos Wade teria que estar à altura deles — palavras da minha futura mãe.
    — Não se preocupe, pai — murmuro, olhando através da janela, sem de fato prestar atenção em alguma coisa — Me comportarei como tenho feito a minha vida inteira, de forma impecável.
    — Confio em você — ele sorri e bate em minhas mãos que estão apoiadas em meus joelhos — Estou feliz que esteja se casando hoje. Não queremos que eles pensem que compraram gato por lebre. Investimos muito em sua criação, financeiramente como espiritualmente. Ver nosso trabalho árduo descendo pelo ralo, destruiria sua mãe.
    A mensagem é clara para mim, fui preparada. Como uma virgem oferecida ao sacrifício. O irônico da comparação é que sou uma virgem pura e imaculada.
    Eu penso no que eu fiz da minha vida. Sendo conduzida pelas pessoas, apenas dizendo sim e não o tempo todo. E que eu passaria o resto dos meus dias fazendo a mesma coisa.
    De repente, o cubículo dentro do carro vai diminuindo ainda mais, sufocando-me. Eu não posso fazer isso! Mas também não há para onde fugir.
    Aceite a oferta da tia Lola e acabe com isso! — minha mente ordena.
    Meus pais ficariam arrasados, envergonhados, jamais poderiam andar de cabeça erguida — Posso fazer isso com eles?
    Minuto a minuto minha guerra interior vai ficando mais fervorosa. Quando o carro estaciona em frente à igreja estou inteiramente dividida. Fugir em busca da minha felicidade ou causar a infelicidade dos meus pais? Eles jamais me perdoariam — não o meu pai.
    A expressão petrificada no lugar, cai em mim como uma luva. Todos os meus sentidos e sensações estão mais aguçados. Ouço o clique da porta quando meu pai a abre, o farfalhar de sua roupa quando ele escorrega pelo banco e batida de seus sapatos quando toca a rua. O som mais intenso, zunindo em meus ouvidos, são do meu coração, batendo acelerado em meu peito.
    — O reverendo Ryan é ótimo — murmura ele, esticando a mão para mim — Fará uma belíssima cerimônia.
    Eu não tive tempo de dizer nada ou menos sair do carro. Minha mãe desce as escadas correndo, acompanhada de minha tia, e se ela não estivesse dentro da igreja, posso jurar que ela tinha visto o diabo em pessoa, tamanho é seu estado de pânico e inquietação.
    — James! Uma tragédia — ela nos alcança, o rosto coberto de lágrimas — É o apocalipse!
    — Contenha-se mulher! — meu pai afasta-a dele sem a mínima gentileza — O que está acontecendo aqui?
     A pergunta é direcionada a minha tia, que diferente de minha mãe, exibe um sorriso vitorioso no rosto.
    — Ao que parece o noivo foi mais inteligente e fugiu — murmura ela com calma.
    Observo-a tirar o maço de cigarros da bolsa de seda e acender. Meu pai parece tão chocado com a revelação que nem implicou com a fumaça no rosto dele, como é de costume.
     — Isso não é possível! — vocifera ele, incrédulo — Maxwell não faria algo tão infame quanto isso.
    — Pois ele fez — murmura minha tia entre baforadas — Agora está livre, Penélope.
    Charlote é a única pessoa que parece feliz com o ocorrido. Minha mãe parece desolada apoiada contra o carro, meu pai furioso e eu, bem eu não sei expressar exatamente o que acontece em meu interior. Só sei que sinto uma grande e profunda paz. Como se um capítulo da minha vida houvesse se encerrado, libertando-me de correntes invisíveis.
    — Isso não é verdade! — papai puxa-me de dentro do carro e arrasta-me para os fundos da igreja — Ficará no meu escritório até que possamos resolver isso. Seja lá o que fez Penélope, acho bom que eu consiga consertar.
    De que droga ele está falando? Eu sou abandonada na porta da igreja por um mauricinho mimado e a culpa era minha?
    Sou eu que serei o motivo de risadas de toda a cidade. Posso até imaginar os comentários que farão no trabalho. Eu já não era bem vista por ser a noiva do filho do patrão. Teriam o que falar por dias a fio.
    Nem minha tia ou minha mãe tiveram permissão para ficar comigo enquanto eu aguardava que ele retornasse com novas informações.
    Eu me sinto como na sala do diretor da escola e estivesse aguardando meus pais chegarem à espera de um longo sermão.
    Eu estudo o desenho da renda no vestido branco e tento concentrar minha mente em alguma coisa — os relatórios das duas últimas semanas que havia deixado na mesa de Abby a secretária de James, parecer ser uma boa opção. Números geralmente me acalmam. Há lógica e sempre chegamos a um resultado, bem diferente da minha vida que por mais simplória e monótona que pareça, não faz sentido algum para mim.


    Ouço o grito do meu pai e os choramingos de minha mãe quando ergo a cabeça da mesa, onde acabei pegando no sono. Não sei quanto tempo se passou, mas pelo que vejo da noite escura lá fora, haviam se passado muitas horas.
    — Acorda! — grita novamente meu pai, puxando-me pelo braço em direção a saída — Vamos para casa!
    — Mas e o casamento? — pergunto, ainda confusa — Encontrou o Max.
    — Aquele sem vergonha fugiu com uma das libertinas que andava com ele — cospe ele, pouco se importando se revelação poderia ferir-me ou não.
     Estranhamente, não havia me afetado nenhum pouco. Apesar de eu saber que viria uma dura batalha pela frente, começando pelo meu pai.
    — A culpa disso tudo, é sua! — continua ele aos berros — Com certeza fez algo para que ele desistisse do casamento. Eu notei que andou distante e distraída.
    — Eu não tenho culpa que ele tenha fugido com outra, papai — defendo-me, magoada.
    O fato de Max ter me traído e abandonado diante de metade da cidade não me fere mais do que a reação irracional e cruel de meu pai em relação a mim. Eu havia feito tudo que esperavam de mim como fiz a minha vida toda. Estou nesse vestido estúpido e fui de encontro a um destino que não escolhi como uma boa filha. Não é justo que ele jogue a responsabilidade de outras pessoas em cima de mim.
    — O que aconteceu na última sexta-feira? — ele torce meus braços, encolerizado — Entregou-se a ele, não é?
    O tapa que ardeu em meu rosto não doeu tanto quanto suas palavras ferinas.
    A noite que ele se refere me vem à cabeça. Eu não me sentia muito bem, e devido ao meu nervosismo com a proximidade do casamento, meu pai permitiu que eu ficasse em casa, em vez de acompanhá-los nas reuniões que aconteciam na igreja todas as sextas.
    Pouco antes de meus pais retornarem Max apareceu em nossa porta, visivelmente embriagado e não dizia nada coerente. Pela primeira vez, ele avançou o sinal e veio todo apaixonado para cima de mim. Por alguns segundos, permiti que ele me beijasse de forma apaixonada, e que suas mãos explorassem meu corpo. O único problema é que não senti nada. Frustrada e assustada empurrei-o para longe, exatamente no mesmo momento em que meu abria a porta, pegando-nos em uma situação constrangedora.
    Meu pai havia aceitado as desculpas esfarrapadas de Max para o meu espanto, e mais tarde, soube por minha mãe que ele optou por fazer vistas grossas já que estamos com o casamento marcado, mas que a vigilância sobre mim seria ainda maior.
    — Entregou sua pureza como uma vagabunda — murmura ele — Agora que ele já teve o que quis foi embora com outra.
    — Mas nós não...
    — Cale-se, Penélope! — sua mão fecha em torno de meu pulso e sou arrastada para fora — Seremos motivos de comentários da cidade toda. Fique calada! Quanto aos seus atos imorais. Jogarei a culpa naquele imoral e sua messalina. 
    Meu pai não havia exagerado quando disse que seriamos motivo de fofoca em Edgartown. Mais da metade dos convidados continuavam no lado de fora apreciando a cena. Outras pessoas que nem faziam parte da lista juntaram-se a elas.
    Algumas pessoas me olham com pena, outras, mal disfarçam os risinhos e as que não suportavam meu pai e a igreja, falavam abertamente.
    Apesar disso, caminho de cabeça erguida. Não tinha feito nada de errado ou que pudesse me fazer sentir vergonha. Essas pessoas deveriam envergonhar-se de si mesmas por comportarem-se de forma tão vil e mesquinha.
    Não voltamos no mesmo carro dos Wade, minha tia Charlote foi encarregada de nos levar de volta para casa.
    Os únicos sons audíveis, são os soluços sufocados de minha mãe. Ainda não consigo identificar se ela sofre por mim ou se pelo futuro glamoroso que teria com meu casamento, o que é de certa forma incoerente já que na igreja eles pregam sobre humildade.  
    Pelo espelho retrovisor eu encontro o olhar compreensivo de Lola. Acho que ela é a única pessoa a se importar com meus sentimentos. Recebo um sorriso encorajador a qual retribuo com igual sinceridade.
    Mesmo que eu tenha que enfrentar a comunidade inteira falando de mim as minhas costas, eu vejo o que aconteceu como algo bom. Sinceramente, Max e eu não tínhamos nada em comum. Não apenas por eu ser a filha do reverendo, mas porque ele era egocêntrico demais, fútil demais, e de certa forma, pouco inteligente. Ah, ele era bonito, não há como questionar isso, alto, loiro, forte, e acabava aí.
    Quando o carro estaciona em frente a nossa casa eu não carrego a melancolia de uma jovem abandonada no altar. Eu tenho imensa felicidade em voltar para casa, felicidade que tenho que disfarçar dos olhares acusadores do meu pai e dos desolados de minha mãe. Graças a Deus, tia Charlote passaria a noite em nossa casa, com toda certeza me entenderia, pois ela foi a única a incentivar-me a dar um fim a esse casamento ridículo.
    — Eu vou para o meu quarto — informo assim que cruzamos a porta.
    — Antes vamos ter uma conversinha — papai joga-me sobre o sofá.
    Minha tia coloca-se entre nós dois, enfrentando-o.
    — Pare de ser um ogro uma vez na sua vida, James! — exclama ela — Penélope passou por um dia terrível, converse amanhã.
    — Cuide da sua vida e daquela sua filha de cabaré — ruge ele, afastando-a.
    — Paula é bailarina! — defende Lola — E muito bem reconhecida.
    — Charlote, se quer continuar em minha casa, não se intrometa!
    Eu não posso permitir que papai expulse Lola no meio da noite, algo que certamente ele faria.
    — Não se preocupe tia Lola — murmuro, levantando-me — Espere-me lá em cima.
    — Stephanie? — minha tia parece indignada — Não fará nada? É sua filha mulher.
    Minha mãe apenas abaixa a cabeça e permanece calada.
    — Eu não acredito nisso — tia Lola tira a cartela de cigarro da bolsa e acende um, apenas para desafiar meu pai — Se tocar um dedo nela, James, eu mesmo parto a sua cara.
    Não acredito que papai faça algo assim. Eu já o vi bravo muitas vezes, claro que hoje ele pareça além do normal, mas não acho que chegue a ser violento comigo.
    Observo as duas saírem da sala. Minha mãe ainda em uma atitude submissa e minha tia pisando duro a cada passo. Volto a sentar no sofá porque nesse momento, minhas pernas parecem trêmulas.
    — De agora em diante todos os seus passos serão monitorados — murmura ele, com uma voz calma — Por mim ou sua mãe. De casa para o trabalho, de casa para a igreja. Vamos tentar de alguma forma deixar sua reputação intacta e encontrar um bom homem para limpar sua imagem novamente.
    — Mas eu não fiz nada, pai! — levanto-me, inconformada — Max fugiu com outra no dia do nosso casamento.
    — Se não houvesse se entregado a ele com certeza ainda teria interesse por você! — reprende ele — Agora não passa apenas mais uma das vagabundas com a qual ele saía.
    Eu poderia dizer a ele que ainda sou virgem, sim, virgem aos vinte três anos, e que algum exame ginecológico comprovaria isso. Mas uma rebeldia dentro de mim, faz com que eu me cale. Se ele não é capaz de acreditar em minha integridade não seria eu a esfregar a verdade na cara dele.
    — Deus onde nós dois erramos com você? — ele me encara, o olhar carregado de decepção — Fizemos o possível para afastá-la das perversidades do mundo e olha o que aconteceu, traiu nossa confiança em nossa própria casa.
    — Pai... — dou dois paços em direção a ele — Eu não...
    — Suba Penélope — ele senta na poltrona ao meu lado esfregando o rosto — Daremos um jeito de contornar essa história. Se não serei obrigado a enviá-la para morar com sua tia Virginia no Alasca, pelo menos até esses comentários acabarem.
    Virginia é a irmã mais velha de meu pai. Solteirona e ainda mais religiosa que meu pai. Na verdade, foi ela a convertê-lo e a colocá-lo nos caminhos do Senhor. Na época acreditámos mesmo que ela houvesse o levado para o caminho da luz. Minha mãe sofria muito ao vê-lo cair pelos cantos quando a culpa pela morte de meu irmão pesava em seus ombros. Minha tia havia o transformado em outro homem e eu acho que perdi o meu pai.
    Com ela eu teria uma vida ainda mais reclusa e sufocante do que levo em Edgartown. Definitivamente, morar com tia Virginia, seria um inferno.
    Vou em direção as escadas como se pesos tivessem sido colocados em meus pés.
    Encontro minha tia em frente à janela, em sua camisola vermelha, finalizando um cigarro. Ela não vira em minha direção, mas sei que notou minha presença.
    Caminho até a meu guarda roupa e pego um dos meus pijamas — conjunto de calça e blusa de algodão.
    — Deixe que eu ajude você — oferece tia Lola quando presencia minha guerra contra o zíper em minhas costas — Sabe, muitas mulheres pensam que o casamento é significado de felicidade e realização pessoal.
    Sua voz mistura-se ao som do zíper deslizando pelo meu corpo sob o vestido.
    — Nada poderia estar mais errado — ela sorri — Se não é feliz com você mesmo, não poderá fazer ninguém mais feliz e no final, teremos duas pessoas frustradas. E olhe, eu tenho conhecimento de causa.
    — Estou aliviada que esse casamento não tenha acontecido, Lola — escorrego o vestido pelo meu corpo e viro-me de frente a ela — Eu não amava o Max e ficou claro que ele não me amava também.
    — Isso é bom — Lola toca meu rosto — O amor é a base de tudo, mesmo assim, muitas vezes não é o suficiente.
    Estou feliz que tia Charlote esteja aqui hoje. Obviamente minha mãe não virá consolar o que seria meu coração partido. Também não tenho uma amiga na qual pudesse desabafar, se fosse o caso. As garotas da cidade não se aproximavam de mim por dois motivos — ou me achavam chata demais para gastar seu tempo comigo ou tinham medo de serem alvos dos julgamentos e cobranças do meu pai. No início, quando chegamos aqui e principalmente no colégio, foi difícil adaptar-me a essa nova realidade. Mesmo com as garotas da igreja eu não tinha um relacionamento mais íntimo, grande parte por minha culpa, devo admitir, sempre fui meio distante. Concentrei-me nos estudos e na vontade de não desagradar meu pai — a pedido de minha mãe.
    Os melhores momentos da minha vida eram quando passava as férias na fazenda com Juliene, mas foram raras às vezes. A única amiga que posso dizer que tenho de verdade é ela. Escrevemos cartas uma a outra a cada quinze dias, já que nossas conversas no telefone eram monitoradas pelo meu pai.
    — O que acha de aceitar minha oferta? — inquire Lola — Pode passar um tempo em Nova Iorque comigo e assim que me aposentar nos mudamos para o Texas. O marido de Paula acabou de herdar uma fazenda.
    — Meu tio Raul não tem nada a ver com sua decisão em ir para o Texas? — provoca-a, divertida.
    — Claro que não — vejo-a ficar vermelha — Você mais do que ninguém deveria não dar ouvidos a fofocas de família.
    — Desculpe-me Lola — após colocar a calça do pijama eu deito no lado da cama destinado a mim — Não queria invadir sua privacidade.
    Sempre e nas raras vezes que ela vem nos visitar, dividimos a cama e passamos horas a fio conversando.
    — Não invadiu — murmura ela — Raul e eu éramos muito jovens. Não era nosso destino ficarmos juntos. Ele construiu a história dele e eu a minha. A vida é assim.
    Essa noite foi diferente das outras. Nós duas ficamos presas dentro de nós mesmo por motivos diferentes. Eu não consigo pensar em outra coisa além de como será minha vida após esse dia desastroso.
    Bem, farei o que fiz a minha vida toda, ignorarei as pessoas a minha volta, sempre funcionou.

    Acordo com movimentos em meu quarto. Sempre tive um sono leve, então mesmo com o esforço de Lola em não fazer barulho, eu abro os olhos, desperta.
    — Já vai? — pergunto, esfregando os olhos.
    — Pedi uns dias apenas para acompanhar seu casamento, querida — murmura ela, colocando os sapatos — As coisas não andam bem no escritório, e Neil não tem tido muita paciência com as secretárias que arranjo para ele. Com minha aposentaria chegando eu não tenho muito tempo e recuso-me a sair e deixá-lo sozinho.
    — Você parece gostar muito dele, não é mesmo? — pergunto, mais por curiosidade. É inegável o carinho na voz dela.
    — Como um filho — murmura ela, pegando a bolsa em cima da penteadeira — Trabalhei para o pai dele e para ele em seguida. É muito exigente, tem uma mente difícil de acompanhar, mas é fascinante também. No fim, é um homem gentil depois que você conquista a sua confiança.
    — Não pode ficar nem mais um dia? — pergunto, sentindo-me culpada por demonstrar minha insegurança.
    — Venha comigo — insiste ela novamente.
    — Eu não posso deixar que meus pais enfrentem tudo isso sozinhos — respiro fundo, sentando sobre os meus joelhos — Talvez em alguns dias, quem sabe?
    — Pode me ligar a qualquer momento — ela beija minha testa — Cuide-se criança e não permita que ninguém mais magoe você. 
    Isso é complicado de se prometer, as pessoas vêm me magoando a vida inteira, começando pelos meus pais, tão presentes e tão distantes ao mesmo tempo.


    É quinta-feira e tenho alguns dias para ficar em casa. Na verdade, após o casamento, eu não deveria mais voltar ao banco, foi uma das coisas que mais me deixou infeliz.
    Eu gosto da minha sala e de manter minha mente ocupada durante o dia. Trabalhava com o setor de empréstimos e mesmo que na maioria das vezes, eu tentasse ajudar as pessoas, não era sempre que eu conseguia. Como todo banco, a agencia Wade, visa o lucro. Não foram raras as vezes que as pessoas saíram furiosas comigo, quando um pedido era negado ou quando seu crédito não era renovado. Era mais fácil culpar a mim, do que o dono do banco, apesar disso, eu gosto dos desafios do meu trabalho, eu sempre procuro provar que o pedido de empréstimo era rentável, de alguma maneira. Mas na maioria das vezes, eu era vista mais como uma víbora, prestes a unir-me a família Wade do que uma possível conselheira. O fato de ter sido a noiva de Max, não ajudou a mudar a ideia sobre mim. Eu era vista apenas como mais uma mercenária metida. A falsa santa, filha do reverendo.
    Quem sabe as coisas mudassem agora que já não tenho conexão alguma com os Wade? Até mesmo no trabalho as pessoas poderão ser mais receptivas comigo. Afinal, ninguém nunca, gostando ou não de mim, poderia questionar minha competência e dedicação ao meu trabalho.
    Eu estudei mais que algumas pessoas antigas ali, havia feito um curso técnico de administração e finanças, e um curso a distância na faculdade, que foi o máximo que meu pai permitiu ou quis custear para mim. E em todos os dias eu me dediquei com afinco, sempre era a primeira a chegar e uma das últimas a sair.
    Por hoje, decidi ficar em casa, não tenho disposição para enfrentar o mundo ainda, mas amanhã, concentrarei minhas energias no trabalho. Não havia assinado os papéis de demissão e não acredito que o Sr. Wade tenha coragem de me dispensar depois do que o filho dele fez.
    Isso mesmo, evitaria os choramingos de minha mãe e os olhares acusatórios de meu pai enquanto reúno forças para o dia seguinte. Voltaria para o meu trabalho como se Maxwell Wade nunca tivesse feito parte da minha vida, afinal, ele não havia feito mesmo.




    As pessoas pareceram surpresas quando me viram entrar no prédio, na manhã de sexta-feira. Fingi que os olhares debochados e cochichos ao redor, não eram direcionados a mim e segui para minha sala.
    A primeira pessoa que tenho a atender é a Sra. Johnson. Ela possui uma floricultura na cidade, deve um valor astronômico ao banco e busca uma nova tentativa de empréstimo, que eu nem precisaria olhar nos documentos para saber que foi recusado.
    Sorrio calorosamente quando ela entra, tento encontrar as palavras certas para dar a má notícia a ela. 
    — Sente-se Sra. Johnson — indico a cadeira em frente à minha mesa.
    — Oh, querida não sabia que estaria aqui, depois de tudo que aconteceu ontem — ela fala em uma voz simpática.
    Eu sei o que ela está tentando aqui. Ganhar minha simpatia para que eu aprove seu novo pedido. Infelizmente, a decisão não está em minhas mãos, faço apenas a análise dos riscos. A Sra. Johnson é uma espécie de viciada por reforma, se é que o termo existe, nos dois últimos anos, sua floricultura havia mudado cinco vezes, além disso, o estabelecimento não está sendo muito rentável, acho que as pessoas em Edgartown, não andam muito românticas, suas vendas vêm caindo, consideravelmente ou talvez seja apenas a má administração.
    — Obrigada por sua preocupação, senhora Johnson — sorrio, novamente — Mas a vida continua.
    — Admiro garotas como você, com fibra — ela pisca um olho — Continuam firmes, mesmo em meio as adversidades. Vejo o meu caso mesmo, por exemplo, viúva, mas continuo firme e forte. A floricultura não anda muito bem, mas eu sei que com essa nova reforma, as coisas irão melhorar. Com o novo capital que o banco irá me dar...
    — Sobre isso — interrompo-a com a voz calma — Não tenho notícias muito agradáveis. Infelizmente o pedido não foi aprovado.
    — Como assim? — ela encara-me como se eu fosse algum tipo de alienígena com duas cabeças ou falasse uma língua diferente da dela — Você não pode fazer isso!
    Vejo suas bochechas redondas ficarem vermelhas e o corpo rechonchudo começar a tremer.
    — Sra Johnson, não sou eu... os lucros da floricultura mal cobrirão o empréstimo existente — início as explicações, que ela interrompe.
    — Você é uma cadela frustrada e desumana — grita ela — Não é porque sua vida virou uma merda, que tem que descontar em pessoas honestas como eu.
    Eu havia sido imprudente de deixar a porta aberta, e tenho certeza que as pessoas em volta, conseguiam ouvir seus berros e acusações.
    — Sra. Johnson, posso indicá-la um consultor de negócios — procuro o cartão em minha gaveta — Tenho certeza que ele pode ajudá-la e, quem sabe em alguns meses...
    — Enfia esse cartão no seu rabo! — berra ela, de forma grosseira, me encarando cheia de ódio, a gentileza anterior está completamente esquecida.
    — Peço que se acalme — caminho até a porta com intenção de fechá-la e, tentar fazer com que ela me ouça sem público.
    — Dane-se sua merdinha! — ela levanta, caminhando até a porta — Certo fez o Wade ao ver o quanto antes, a mulher desprezível que você é.
    Ela sai gritando a plenos pulmões e levanto para fechar a porta, procurando me acalmar para atender o próximo cliente.
    Foi assim a manhã inteira. Uma a uma, as pessoas apontavam o fracasso do meu quase casamento em meu rosto, dizendo que eu queria prejudicá-las por estar amarga. Não entendo como elas não veem a irracionalidade em suas acusações.
    Eu não saí para o almoço, preferi comer aqui mesmo, em minha sala. Já tive o suficiente de pessoas maldosas pelo dia inteiro, aliás por toda a minha vida.
    — O que está fazendo aqui? — a voz de Patrick Wade ecoa na sala, assim que me curvo para jogar as sobras do lanche que havia trazido.
    — Trabalhando Sr. Wade — murmuro, voltando para minha mesa.
    — Não foi demitida?
    — Eu não cheguei a assinar os papéis — respondo com calma — Como não há mais “casamento”, acredito que ainda terei meu emprego.
    Ressalto a palavra casamento para lembrá-lo que tudo que venho enfrentando, era culpa do irresponsável do filho dele. Não era mais fácil e decente ter desmanchado o noivado comigo?
    — Não acho que seja conveniente que venha trabalhar aqui — diz ele numa voz dura — Soube dos ocorridos essa manhã e acabará afetando a rotina de todo o departamento.
    Nenhum pedido de desculpas ou sinto muito, Penélope. O filho dele havia feito de mim, a chacota da cidade e tudo que interessa a ele é a paz e tranquilidade da sua empresa.
    E por que eu desejo continuar aqui? Onde claramente ninguém se importa comigo?
    Ah! Tudo o que eu quero é um pouco de normalidade, tentar esquecer o passado e recomeçar minha vida, afinal não sou a primeira e nem serei a última mulher a ser abandonada no altar. Essas coisas acontecem e a vida continua. Eu poderia estar na sala dele chorando, dizendo o quanto o filho dele havia feito-me infeliz, mas não, eu só quero trabalhar em paz e seguir em frente.
    — Por que não tira algumas semanas de férias? — diz ele.
    Observo-o por algum tempo. Olhos azuis, cabelos claros e calvo, barriga proeminente. Reflito se assim que ficará Max dentro de alguns anos, visto que não há como negar o quanto são parecidos, pelo menos fisicamente.
    — Preciso do meu emprego — começo, nervosa.
    Acho que manter minha mente ocupada é a única forma de eu não enlouquecer.
    — Não é uma sugestão, Penélope — diz ele, com a voz seca — É uma ordem.
    Quando ele se retira, encosto minha cabeça na mesa fria. Que ótimo, o que eu faria agora com tantos dias vazios a minha frente?
    Começo a arrumar minhas coisas e antes que eu termine a assistente do departamento pessoal surge em minha sala, com os documentos referente as minhas férias antecipadas em nãos. Assino-os rapidamente e não demoro a sair dali. O banco não fica longe da minha casa, então fiz o caminho de volta andando como fiz essa manhã.
    Encontro alguns conhecidos da igreja. Alguns são mais corajosos e tentam me dar conforto como se em vez de ter perdido um futuro marido, eu houvesse ficado viúva. Parece-me que aos olhos dessas senhoras, eu havia me tornado inapta para qualquer outro homem. Eu gostaria de poder dizer a elas, que outro homem não está em meus planos tão cedo. Não me livrei de uma prisão para afundar-me em outra, já bastava meu pai, sufocando-me o tempo todo.
    Passei o resto da tarde em meu quarto, concentrada em um dos meus romances clássicos preferidos. Emma de Jane Austin. Uma personagem a qual me identifico, não por achar-me parecida com ela, pelo contrário, gostaria de ser tão engenhosa quanto Emma, tomar as rédeas da minha própria vida. Ao invés disso, deixo-me levar pela maré, como tenho feito sempre.
    Meus pais não se mostraram muitos surpresos por Wade ter-me forçado as férias goela abaixo, a surpresa seria — de acordo com meu pai — era ele me manter no emprego.
    Para a felicidade do meu pai e, infelicidade minha, serei obrigada a passar mais tempo na igreja do que gostaria. Não que eu não goste de lá. Gostava de ministrar as dominicais as crianças e cuidar do coral infantil, sempre gostei muito das crianças, elas parecem gostar de mim também. Mas passar a maior parte do meu dia, com as senhoras da igreja e seus conselhos, não fará dos meus dias mais suportáveis.
    O que eu gostaria é de andar pela orla da praia, quem sabe testar os meus dons para pintura ou simplesmente apreciar o mar. Seria menos tedioso.


    No fim de semana seguinte, encontro-me em uma pequena sala, nos fundos da igreja. É um quartinho usado para guardar objetos de decorações e figurinos de teatro, que as vezes acontecem na igreja. Estou encoberta em meio as araras de roupas, quando duas garotas entram.
    — Soube que Max voltou para cidade, casado com a jovem que ele fugiu — uma delas solta um risinho — Parece que o pai dele aceitou o casamento e dará uma festa e tudo.
    — E a Penélope? — a outra pergunta.
    — O que tem aquela metida de nariz em pé? — pergunta a garota de forma ferina — Acho bem feito, sempre se achou melhor do que todo mundo, mas veja só, Deus é justo.
    — Mesmo ela sendo uma metida, eu tenho dó, ficaria arrasada se fosse comigo — murmura a outra garota, um pouco menos venenosa — Deve ser constrangedor, Teresa.
    Teresa Silver, nunca foi simpática comigo e sempre repeliu minhas tentativas de aproximação.
    — Cada um tem aquilo que merece, Angelita.
    Essa quando Teresa não estava por perto, respondia as minhas perguntas sempre que eu conseguia pegá-la sozinha, o que era raro. As duas andavam juntas como unha e carne. Confesso que algumas vezes cheguei a sentir inveja da amizade entre elas, embora muitas vezes eu cheguei a notar que a maior parte do tempo Angelina era manipulada pela amiga autoritária.
    Minhas mãos tremem tanto ao ouvir o que elas dizem, que o chapéu que eu estava segurando, deslizou das minhas mãos, revelando meu paradeiro.  Saio de trás da arara e tento estampar uma expressão neutra.
    — Meu pai disse que a peça desse mês será sobre Jó — murmuro, fingindo indiferença, como se as palavras delas, não tivessem me ferido.
    Não sobre o fato de Max ter retornado a cidade casado com outra, mas pelo o que pensavam de mim.
    Uma delas parece envergonha — Angelina, a mais baixinha, de olhar simpático. A alta com cara de cavalo, encara-me com indiferença.
    — Que eu saiba é sobre Noé — murmura ela — Mas talvez devêssemos falar sobre Salomé. Vamos Angelita, temos muito o que fazer.
    Elas saem apressadas e eu continuo por ali, por algum tempo. Esse passou a ser meu refúgio preferido na igreja.


    Sempre há uma quermesse antes do natal para arrecadar fundos para igreja. Eu sempre fico encarregada da barraca dos doces, esse ano não é diferente. Nos últimos anos Max havia ficado comigo, mesmo que na maior parte do tempo ele permanecesse calado e aborrecido.
    Hoje estou sozinha, e serei obrigada a enfrentar todos os olhares e risinhos em minha direção. Quando eu era somente a filha nojenta do reverendo, era mais fácil de lidar com as pessoas. Agora passei da garota intragável para a coitada que tinha que conviver com o ex noivo e sua nova esposa.
    Os piores momentos era quando apareciam no culto, sim eles começaram a frequentar a igreja, meu pai tratava-os como ovelhas perdidas, que retornaram ao rebanho. Já que não há o que fazer e os Wade ainda são uma família poderosa. E o importante é que Max havia corrigido seu erro, tornando-se um homem decente. Essas foram as palavras do meu pai, após a primeira aparição do mais novo casal.
    O que eu sei e pude notar em seus olhares aborrecidos, é que os pais de Wade os obrigavam a isso, nenhum dos dois pombinhos pareciam felizes ali. E sempre que eles cruzavam meu caminho eu sentia todos os olhares em minha direção. A pior parte era quando tinha que acompanhar o coral e era obrigada a encara-los de frente com todas as outras pessoas.
    Muitas vezes eu senti vontade de fugir, primeiro eu daria um belo tapa no rosto do Max, daria boa sorte a sua nova esposa e diria umas boas verdades a todos os membros presentes. Perdi as contas de quantas vezes fantasie sobre isso, enquanto fingia cantar.
    — Querido, quero um pedaço de torta de maça — ouça a voz que começou a ficar conhecida para mim.
    Abaixe-me para organizar os isopores em baixo do balcão, portanto não estou totalmente visível a quem estiver do outro lado da barraca. Por alguns segundos, tenho a propensão de continuar abaixada até eles desistirem e, irem embora, mas, se uma coisa que eu provei até aqui, é que não sou uma pessoa covarde. Além disso, cedo ou tarde, esse encontro teria que acontecer.
    — São cinco dólares — informo, levantando, enquanto remexo nos talheres e pratos descartáveis — Como vai Max?
    Ele parece incomodado e constrangido com minha presença.
    — Olá, Penélope — murmura ele — Essa é Harriet minha...
    — Esposa — concluo por ele.
    É decepcionante que a esposa dele, tenha o mesmo nome que uma das personagens do meu livro favorito. É como se a vida quisesse zombar de mim o tempo todo. Seria impossível conseguir esquecer essa Harriet, para sempre.
    — A torta é especialidade da Sra. Falcon — sorrio, gentil ao entregar o pedaço exagerado de torta, a jovem de olhar desdenhoso.
    Parece que me vê como uma ameaça. O por que não faço a mínima ideia, afinal, quem carrega a aliança e o nome dele, não sou eu.
    Estudo-a por alguns minutos enquanto Max tira o dinheiro da carteira. Lembro de já ter visto-a pela cidade, uma vez ou outra. Harriet havia mudado bastante, as roupas sensuais e maquiagem extravagante, havia desaparecido, dando lugar a uma cópia recatada e elegante de minha ex sogra.
    — Fique com o troco — Max oferece ao me ver contar as moedas no caixa.
    — Obrigada.
    Quando eles se afastam, eu não sinto tristeza ou humilhação. Na realidade, tenho um pequeno vislumbre de como teria sido minha vida ao lado dele, e sinto-me feliz por ter escapado disso a tempo. Então, mesmo ainda sendo alvo de metade da cidade, Max havia me feito um grande favor.
    Penso cada vez mais sobre a oferta que tia Lola me fez. Meu pai já não parece tão bravo, claro as pessoas disfarçam bem, perto dele e minha mãe parece mais conformada em não ter mais um passe livre dentro da alta sociedade, afinal de contas, esse nunca foi nosso mundo mesmo.


    Uma hora depois, Angelita veio ocupar meu lugar para que eu pudesse ir ao banheiro. Nos dias que decorreram aquele inconveniente, eu tentei me aproximar mais dela, visto que era um pouco mais associável que Teresa. Não fizemos muito progresso, já que a amiga dela sempre está presente, como um cão de guarda. Mas há um clima um pouco mais ameno entre nós duas, embora ela ainda me olhe com certa desconfiança.
    — Volto em alguns minutos — informo a ela, tirando o avental.
    — Por favor, não demore — murmura ela, encantada com a travessa de doces — Se não, quando voltar não encontrará mais nada.
    — Deus nos ajude — murmuro, entrando na brincadeira — Meu pai mataria nós duas.
    A peça de natal já havia começado, portanto tive que esperar apenas que duas pessoas desocupassem um dos banheiros.
    Ao sair lavo minhas mãos e meu rosto na pia. Quando me ergo, deparo-me com Harriet atrás de mim, observando-me.
    Ela caminha até a pia ao me lado e me olha com certa indiferença.
    — Deve ser humilhante para você ter que lidar com todas as fofocas, esbarrando comigo quase todos os dias — ela sorri, falsamente — Mas quero que saiba que Max e eu nunca quisemos magoar você, Penélope. Estamos perdidamente apaixonados e agora que teremos um filho...
    — Você está grávida? — pergunto, surpresa.
    Eu sei que alguns recém casados gostam de iniciar suas famílias rapidamente. O casal Cohen havia tido seu primeiro filho, um pouco mais de um ano após o casamento, mas Max e Harriet estão casados apenas há alguns dias.
    — Foi o que nos levou a fugir e Maxwell a enfrentar o pai dele para ficarmos juntos.
    Faz sentido. Por isso ele não tinha cancelado o casamento antes, talvez tenha descoberto apenas alguns dias ou horas antes. De qualquer forma, isso não justifica seus atos egoísta. Max engravidou outra mulher enquanto ainda estávamos noivos. Havia sido traída duplamente.
    — Será ainda mais humilhante ter que conviver com o fruto desse amor — continua ela fechando a torneira — Seria melhor para você deixar a cidade por algum tempo.
    Observo-a sair, satisfeita pelo veneno que jogou sobre mim. Eu acreditei que as coisas ficariam tranquilas, que com o tempo, as pessoas escolheriam um novo alvo de fofoca, mas agora vejo que receberiam um novo arsenal para suas vidas fúteis, por longos nove meses.
    Eu tentei com afinco superar tudo isso de cabeça erguida, mas o quanto disso vale a pena? Não há nada nessa cidade que me prenda aqui. Meus pais seguem suas vidas, eu sou a única a me torturar e ser torturada o tempo todo.
    De um jeito maldoso ou não, Harriet tem razão. O melhor que tenho a fazer é deixar essa maldita cidade e os fofoqueiros de plantão. Embora eu adore o charme e beleza de Edgartown, não há mais nada que possam me oferecer aqui, além de novos ressentimentos.
    O que eu preciso é de uma cidade nova, pessoas desconhecidas, que não me veriam como a filha do reverendo, e nem a noiva abandonada no altar.


    E na manhã de natal, na mesa do café da manhã, com minha carta de demissão em mãos, anuncio aos meus pais, minha decisão de passar uns dias em Nova Iorque com tia Lola. Para meu pai foi um verdadeiro ultraje. De forma alguma, ele quis aceitar que eu fosse fazer companhia a minha tia, arriscando-me a ficar ainda mais corrompida. Ele até me ameaçou de não precisar voltar para casa, se seguisse com meus planos, mas mantive-me irredutível.
    No dia seguinte, de malas prontas, sozinha e sem me despedir, segui para o aeroporto. Apesar de sair da cidade com a minha relação estremecida com meus pais, estou extremamente feliz, como não estive a muito tempo.
    Lola busca-me no aeroporto. Enquanto ela dirige, diz o quanto eu iria amar Nova Iorque, principalmente o bairro onde ela mora.
    É curioso que eu nunca tenha vindo visitá-la, mas para meu pai, essa cidade, é o centro da perdição. O que me faz gostar ainda mais daqui.
    O prédio de tijolos marrons, de três andares onde fica seu apartamento, é incrivelmente charmoso.
    Brooklyn Heights é um bairro de natureza peculiar e charme cordial. As ruas são alinhadas com uma maravilhosa mistura de arenito, semelhantes ao estilo grego ou gótico, que dá a ele um ambiente histórico de Nova Iorque.
    — Brooklyn Heights também foi palco de figuras importantes da história literária, incluindo a residência de Thomas Wolfe, W. H. Auden e Arthur Miller, e atualmente Norman Mailer — narra Lola, com orgulho, enquanto subimos a escada que nos leva para dentro do prédio — Vai da Avenida Atlântica, Rua Clinton até o East River, lá você poderá apreciar uma vista espetacular do horizonte da cidade de Manhattan, há playgrounds e townhouses maravilhosos.
    Paramos em frente a porta de madeira branca e quando ela abre parece que um mundo novo está sendo oferecido a mim.
    — Brooklyn Heights é considerado primeiro subúrbio da nação e o mais elegante. Fica apenas cinco minutos de metrô do centro de Manhattan, é uma área bem localizada, ideal para quem busca conforto e as conveniências de viver em Manhattan, só que com preços bem mais acessíveis — continua Lola ao atravessarmos a porta que dá acesso ao prédio — Paguei metade do imóvel com minhas economias e Sr. Durant financiou o resto. Ele tem um coração de ouro, embora queira aparentar o oposto. O problema é que não confia muito nas pessoas, nas mulheres, para ser mais específica, também com aquela esposa maluca. Mas quem o culparia por isso?
    É espantoso que não me sinta assustada com essa cidade gigante, cheia de luzes e magnetismo. Para uma garota criada e enterrada em uma pequena cidade como a minha, Nova Iorque deveria parecer assustadora, mas sinto exatamente o contrário.
    Pareço uma criança, encantada, ao deparar-me com as luzes e magia do circo. É como se eu tivesse encontrado meu lugar no mundo, pela primeira vez. Algo dentro de mim, diz que minha vida está prestes a mudar, completamente.


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