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  • Protegida por mim Capitulo 7

    Capítulo 7
    Jenny
    Tarde demais o conheci, por fim; cedo demais, sem conhecê-lo, amei-o.
    (William Shakespeare)
    Sinto seus dedos massageando meus cabelos com suavidade. A suavidade de seu toque e as bolhas de espuma me dão uma sensação agradável. E quando ele desliza as mãos pelo meu corpo, parece que sou atingida por uma descarga elétrica. Não é uma questão do que e certo ou não, perto dele, meu corpo tem vontade própria.
    Cruzo os braços quando ele pousa a mão por mais tempo em meu ventre inchado e todo desejo esvai-se. Não é o mesmo corpo que que ele sempre havia admirado. E temo que jamais volte a ser como era antes.
    — Continua linda, ainda mais linda — diz ele, as palavras sendo sussurradas de forma carinhosa, cravando-se em meu peito.
     Saímos do banheiro, ele me seca e me coloca na cama com tanto cuidado como se eu fosse a joia mais preciosas do mundo, e é assim que me sinto.
    — Descanse um pouco — diz ele, beijando minha testa antes de voltar para o banheiro.
    Os bebês dormem tranquilamente no amontoado de cobertas que fizemos para eles em um dos cantos da cama. Aconchego-me mais eles. Estou muito cansada, mas não me privo de olhá-los um pouco mais. Observo fascinada cada detalhe. São tão parecidos e tão diferentes ao mesmo tempo. Com exceção dos olhos que haviam herdado de mim, eles são gritantemente semelhantes ao Neil — os cabelos escuros, sobrancelhas grossas e invejosamente bem desenhadas e os cílios, não é possível que haviam herdado dele, os cílios perfeitos.
    Pego a pequena mãozinha e esfrego em minha bochecha. Ele solta um resmungo e faz beicinho com a boca. Beijo cada pontinha de seus dedos volto a deixá-lo sossegado. Inclino-me para seu irmão e beijo a pontinha de seu queixo. Os lábios do bebê tremulam e eu me convenço que foi uma tentativa de um sorriso em seu rosto lindo e angelical. 
    — Precisamos de nomes — sussurro para Neil, assim que ele retorna, a toalha ao redor da cintura. Meus olhos imediatamente fixam no peito nu e musculoso. Ele está absurdamente delicioso com os cabelos úmidos caindo de lado na testa. 
    — Pensei em Raphael e Gabriel.
    — Por quê? — pergunto, repetindo os nomes mentalmente.
    Com o máximo de cuidado para não acordar os bebês ele deita na cama puxando-me para seus braços. Encosto minhas costas em seu peito e apoio minha cabeça em seu queixo. Ele envolve os braços em volta de mim, protetores.
    — Ideia de Anne, são nomes de anjos — diz ele, acariciando meus braços.  Humm. Mordo os meus lábios na tentativa de impedir que uma cachoeira de lágrimas transbordasse de meus olhos. Eu acreditei que esse descontrole emocional iria embora após o parto, mas posso afirmar sem margem de dúvidas que a maternidade trouxe uma nova avalanche de sentimentos. Eu me sinto muito mais forte agora, a leoa que existia dentro de mim é capaz de fazer qualquer coisa para defendê-los. Ao mesmo tempo nunca me senti tão frágil.
    — Neil?
    — Sim.
    — Queria que Anne estivesse aqui — eu queria que todos que amo estivessem aqui.
    Paige minha amiga-irmã maluquinha. Richard com toda aquela doçura tão natural nele. Adam e seu jeito pragmático. Paul, meu querido e gentil amigo. Meus sogros a qual havia aprendido a construir um novo relacionamento. E a minha amada filha. De todos eles, Anne foi a que mais contou os dias e horas para que seus irmãos chegassem.
    — Eu também — diz ele, segurando forte meus braços.
    Isso não é justo. Merecíamos um quarto com lindos balões azuis cercados por todas as pessoas importantes de nossas vidas.
    — Rapha e Gabe — sussurro antes de pegar no sono, encolhendo-me em seu peito largo — Eu gosto.

    ****

    Acordo com sussurros tensos vindos da cozinha. Apuro meus ouvidos ao máximo na tentativa de ouvir alguma coisa, mas só consigo captar a tensão em suas vozes.
    Peter e Liam estão de costas para mim e Neil escorado contra a pia a minha frente. Braços cruzados no peito, ombros tensos, mas o olhar focado em mim. Eu recebo um sorriso caloroso e noto o sinal para que os outros fiquem calados. Eles escondem algo. Não é preciso um QI a mais para identificar isso. O que poderia estar acontecendo de tão terrível que eles creem que eu não deva saber.
    Honestamente eu não me importo. Passei a minha vida inteira cuidando de mim mesma, sendo forte, corajosa e determinada. No entanto, chega um momento em nossas vidas que desejamos nos apoiar em alguém. Eu tenho meu porto seguro e eu confio nele. Isso é tudo o que me importa.
    Raphael solta um pequeno resmungo chamando minha atenção para ele. Pode parecer exagero, mas já consigo diferenciá-los muito bem. Rapha é mais impaciente, foi assim até para nascer, ele foi o primeiro, o apetite também é voraz, enquanto o irmão dorme como um anjinho ele já se faz presente, exigindo atenção.
    — Oi meu amorzinho — sussurro, pegando-o com cuidado. Seu corpinho ainda é tão frágil que temo machucá-lo de alguma forma — Está com fome, querido?
    Noto ao lado da cama, próximo a mim, várias sacolas de um departamento infantil com pacotes fraldas, mamadeiras e até mesmo um pequeno urso de pelúcia. Há tantas coisas ali que meus olhos mal conseguem registrar tudo. Outra vez aquela onda de emoção a qual prefiro novamente culpar os hormônios da gravidez, fazem uma pequena bola se formar em minha garganta. Peter, Liam e Dylan haviam desaparecido no dia anterior e tenho certeza que foram eles os responsáveis por todos esses presentes.
    Encaro-os com os olhos marejados. O carinho e apoio que sempre demonstraram a mim, principalmente agora, faz meu coração virar gelatina, mas esses pequenos detalhes como o ursinho de pelúcia para meus filhos é de fazer meu coração sair pela garganta. Que mãe não se senilizaria com isso? Faça mal aos meus filhos e encontrará uma fera, ame-os e terá minha gratidão eterna.
    Sorrio para eles em agradecimento e recebo três sorrisos radiantes de volta. Caramba, são homens mais incríveis que conheci em toda minha vida. Não por serem lindos e atraentes, isso é inegável, mas é pelo o que eu vejo além.
    Gabriel acorda nesse momento, os pulmões fazendo jus ao um cantor de ópera.
    — Aqui — coloco o urso marrom vestido de marinheiro ao lado dele, que encara o brinquedo por alguns segundos, voltando a berrar logo em seguida.
    — Eu ajudo — diz Neil, agora ao meu lado.
    Enquanto ele troca a fralda do bebê com uma agilidade e precisão que duvido que algum dia eu chegue, eu tento acalmar o outro.
    — Eu tenho que ir, Jenny. Pedi a Peter que esperasse mais alguns dias antes de removerem vocês daqui — Liam acaricia a cabeça do bebê em meus braços — Descanse bastante e cuide desses pequenos. Lembra que me prometeu que seria um dos padrinhos.
    Havia feito a promessa quando Neil esteve hospitalizado, brigando para se manter vivo e eu rezava para que ele voltasse para mim. Naquela época a promessa parecia algo impossível de acontecer. Hoje dou graças a Deus por suas palavras proféticas.
    — Obrigada Liam.
    — Espero você lá fora, Peter — diz Liam, com olhar provocativo — Acho melhor seguir o seu carro, vai que desmaia pelo caminho.
    O gesto obsceno, seguido de um travesseiro contra a porta, foi a única resposta que obteve dele, enquanto saía em meio a gargalhadas.
    — Não liga para ele — dou uma piscada para o grandão tatuado, fofo e envergonhado a minha frente — Sabe como ele é...
    — Um grandíssimo idiota — diz ele, contrariado.
    — Homem, você virou uma lenda — Neil coloca a cereja no bolo da provocação — Liam usará isso para sempre. Sua vida acabou depois disso.
    — Neil! — encaro-o zangada.
    É inacreditável que ele esteja colocando mais lenha na fogueira. Entrego Raphael a ele para que mantenha mãos e cabeça ocupada.
    — Engraçadinho — murmura Peter indo em direção a porta — Babaca!
    — Por que você fez isso? — pergunto em voz baixa.
    Pego Gabe da cama que parece mais calmo agora que está limpinho e de fralda trocada.
    — Foi engraçado — Neil sacode os ombros, escondendo um sorriso — Admita.
    Garotos insuportáveis é isso o que eles são. E recuso-me a participar disso, pobre Peter, levará esse carma para vida toda ou até que um deles faça algo pior ou semelhante. Mas eu devo admitir, será muito difícil alguém conseguir superá-lo.
    — Ah, Neil... — Peter retorna um uma folha de papel em sua mão — Com toda essa confusão eu me esqueci disso.
    Minhas mãos ficam trêmulas e deposito o bebê na cama. Conheço a folha decorada de corações. Eu tenho uma folha desenhada, semelhante essa, em minha caixa de recordações.
    — Anne? — Neil pergunta com a voz trêmula.
    — Sua filha é muito esperta — murmura Peter antes de sair.
    Acompanho Neil com os olhos quando ele caminha para fora. Esse é um momento único entre ele e Anne. Entendo o quanto é difícil para os dois, essa separação. Enquanto amamento Raphael o mais exigente, pergunto-me como eu reagiria se houvesse dado a luz na prisão. Tenho apenas um dia com eles e se me tirassem isso, morreria de dor e tristeza. Conhecer a grandiosidade da dor que Neil vem suportando por estar longe de nossa filha, fere-me muito.
    Acaricio as bochechas rosadas enquanto meu filho mama avidamente. Os olhinhos presos aos meus.
    Cuido do outro pequeno, e assim que os bebês adormecem eu sigo em direção ao quintal. Dylan está absorto polindo o carro, que está estacionada no caminho de pedra que leva a estrada mais à frente.
    Circulo a cabana e encontro Neil sentado em um velho tronco de árvore, um dos braços apoiados contra os joelhos e a cabeça sobre ele. Eu só o vi chorar uma vez, essa foi a primeira imagem marcante que tive ao voltar a ver. Também é a que eu mais me empenho para esquecer, ainda mais, porque aquelas lágrimas foram provocadas por mim.
    Ele não é o tipo de homem que demonstra fraqueza e fragilidade com facilidade. Vê-lo assim causa em mim, uma dor profunda.
    E quando seus olhos vermelhos encontram os meus, após notar minha presença ao seu lado, toda minha estrutura desce ladeira a baixo.
    — Posso ver? — pergunto com voz rouca, provocada pela emoção.
    Ele me encara com olhar hesitante, indeciso, mas por fim, entrega-me a carta.

    Papai,
    Faz muitos dias que você e minha mãe partiram. Eu tenho sentido muito a sua falta. Às vezes eu choro escondido, porque minha vovó disse que eu tenho que ser forte. Também disse que você teve que ir e que em breve estará de volta.
    Você vai voltar, não é?
    Eu não tenho ido à escola nos últimos dias. Os deveres são entregues a mim e vovó me ajuda, as vezes. Ela não é como você, não entende tanto assim de matemática. Eu tenho dormindo com a boneca que a Jenny... minha mãe me deu, a mesma que eu joguei no chão aquele dia, por birra, diga a ela que eu me arrependo por ter sido malvada. Eu sinto falta dela, de como me abraçava e sempre cantava para mim antes de dormir. Sabia que o cabelo dela tem cheiro de morango? Espero que os bebês não tenham nascido ainda. Eu queria estar aí com vocês.
    Eu não vou escrever mais porque meus olhos estão esquisitos. Eu não vou chorar eu prometo, mesmo com esse negócio aqui no coração, machucando muito.
    Papai, eu amo você. Não se esqueça de mim.
    Sua filha Anne.

    Minhas pernas fraquejam e em poucos segundos vejo-me presa em seus braços. Desabamos juntos, entregues a esse mar de dor e devastação. Choramos e tentamos sustentar um ao outro. De tudo que enfrentamos até agora o sofrimento de Anne é o que mais nos destrói a alma.
    — Eu a amo tanto... — confidencia ele, a testa apoiada na minha.
    — Ela sabe — fungo, tentando segurar uma nova leva de lágrimas — Anne sabe disso, amor.
    — Preciso vê-la — continua ele, transtornado — Tenho que ver minha filha.
    — Você verá — esfrego meu peito, em busca de aplacar a dor que se formara ali — Peter dará um jeito nisso.
    Eu acalento-o como fiz alguns minutos com um dos gêmeos. Ele precisa de mim e tento me manter forte enquanto ele soluça em meus braços como um menino perdido e sem direção.

    ****
    Teriam sido três dias maravilhosos, se nas últimas horas meu corpo desleal não houvesse me traído de forma mais desonrosa. Desde a noite anterior esforço-me de todas as formas para amamentar os dois bebês, mas vem sendo praticamente impossível.
    Eu não venho produzido leite o suficiente para alimentá-los, o que tem me deixado em pânico e cada vez mais aflita. Isso também não ajuda muito.
    Balanço Gaby em meus braços, o choro sentido e angustiado parte meu coração em pedaços de forma inexplicável, aumentando cada vez mais meu desespero. Olho para o lado da cama onde Raphael dorme, após ter se saciado com o que havia de leite materno em mim e rezo para que ele não acorde.
    A primeira coisa que ele faz ao acordar é reivindicar meus seios em busca de leite. No momento não consigo suprir um quanto mais dois. Sempre o amamento primeiro porque dos dois é o mais impaciente e guloso. Eu deveria tê-lo tirado dos meus seios antes, mas foi quase impossível afastá-lo de mim. Não quando ele mamava com tanto ímpeto e vontade, principalmente com seus olhinhos focados nos meus, olhando-me com inocência e profundidade. Essa era nossa conexão, o momento que mais me sinto ligada a eles. Não era apenas o meu leite garantindo que cresceriam forte e saudáveis era todo o meu amor entregue ali, nesses singelos momentos.
    Agora com o irmão com fome e chorando desesperado em meus braços, sinto-me culpada. Ele tenta, algumas vezes acha que consegue, mas em seguida a frustração e o rostinho contorcido jogam um balde de água fria em mim, na realidade, congelante.
    — Por favor, Senhor! Por favor! — caminho pela sala pequena ninando-o em meus braços, pedindo aos céus que consiga produzir o alimento que o bebê precisa — Meu Deus!
    — Me dá ele aqui — Neil se aproxima de nós dois por trás e pega o pequeno de meus braços acalentando em seu peito — Ei garotão? Papai está aqui.
    Ele caminha até a mesa, senta em uma cadeira ao lado e continua sussurrando para o filho. Gabriel não fica em silêncio, mas o choro passa a ser choramingos.
    — O que é isso? — pergunto ao velo mergulhar o dedo mindinho em um copo e colocar na boca do bebê que suga com avidez.
    — Água com açúcar — diz ele, voltando a mergulhar o dedo no copo ao ver o bebê protestar novamente — Vai distraí-lo até Dylan chegar com o leite.
    Os meninos haviam pensado em tudo quando saíram para as compras para os bebês; chupetas, fraldas, mamadeiras, pomadas, roupas, brinquedos — menos leite. Afinal essa função é minha. Quando penso que sou incapaz até mesmo disso... Como poderei ser uma boa mãe se...
    —Ei... — uma voz rouca, mas suave corta meus pensamentos — Já disse para não se sentir culpada.
    — Eu não consigo — desabo na cadeira ao lado da dele — Se não estivesse aqui comigo, provavelmente eles morreriam de fome, sou uma péssima mãe e jamais pensaria nisso...
    Indico o copo em cima da mesa. A ideia parece ter surtido efeito já que o bebê está tranquilo e sonolento no colo dele.
    — Tenho experiência com criança Jennifer, apesar de contar com a ajuda da babá de Anne, eu quis aprender tudo sobre ela Não foi fácil no começo, assim como não está sendo para você. Além disso, toda essa tensão influencia no seu corpo e, é natural que algo assim, venha acontecer. Lembra do que Liam nos disse por telefone?
    Eu sei que ele tem razão. Liam havia nos explicado que todo estresse, preocupação e situação na qual passamos a viver, pode estar me afetando, fazendo com que produza menos leite do que o normal e ter que alimentar dois bebês ao mesmo tempo é outro agravante.
    No entanto, a informação em vez de me aliviar, só faz com que eu me sinta ainda mais frustrada. Pergunto-me, que tipo de mãe eu sou? Meus filhos precisam de mim e sou incapaz de fazer algo tão simples e natural como amamentá-los. Sinto-me um fracasso em pessoa.
    Até Neil sabe lidar e cuidar das necessidades dos dois, melhor do que eu e, isso é enlouquecedor. E ter que recorrer ao leite industrializado doí-me o coração.
    — Dylan logo estará de volta — Neil acaricia minha mão em cima da mesa — É apenas uma situação provisória. Vamos sair daqui essa noite, talvez outro clima a ajude.
    Não é o local que me deixa apreensiva, eu poderia estar em uma choupana que não me importaria. Tendo-os ao meu lado, seguros e felizes é tudo o que me importa. O que me angustia é a tristeza que nossa filha se encontra. A carta dela para Neil estraçalhou nossos corações.
    — Não deveria ter mostrado a carta a você... — ele levanta e caminha com o bebê até a cama, colocando-o com cuidado para que não desperte e volte a ficar angustiado novamente.
    Eu respiro fundo e tento manter o controle. Neil vem absorvendo tanta pressão e responsabilidades em excesso nos últimos dias. Lidar com uma mulher descontrolada e chorosa não é o que ele precisa no momento.
    — A carta da Anne me deixou emocionada eu não posso negar — encontro-o no meio do caminho e entrego-me a seus braços, ele senta na cama e coloca-me em seu colo, olhando-me firme — Mas não é isso que me afetou, são todas essas coisas acumuladas. Eu sei que você está sofrendo e...
    — Jennifer...
    Coloco meus dedos em seus lábios para impedir que interrompa o que preciso dizer. Ele pode pensar que é uma fortaleza, mas no fundo não é, ninguém é assim o tempo todo.
    — Não fale...— abraço-o, apoiando minha cabeça em seu peito — Eu vou manter a calma, meu leite voltará e tudo ficara bem.
    — Se tivesse deixado você em paz quando me pediu... — sussurra ele, acariciando meus cabelos — Eu simplesmente não pude.
    — Ainda bem que não — aperto-o forte — Graças a Deus que não. Eu não teria vida sem você, Neil. Eu não tinha uma vida antes.

    Ficamos assim, juntinhos, por um longo tempo. Eu inebriada pelo cheiro de sua pele e sabonete cítrico enquanto o calor de seu corpo e os dedos enroscados em meus cabelos me dão a sensação de paz e aconchego.
    Sonolenta e quase de olhos cerrados eu sinto o telefone vibrar no bolso dele que afasta-me um pouco para atender. Eu fico em alerta, não recebemos ligações desse número e só usamos ser for para algo realmente urgente.
    — Mensagem do Dylan — diz ele, soltando o ar pesado — Há algum problema com o carro no meio do caminho.
    Neil me coloca na cama com a mesma delicadeza que faz com os bebês, deposita um beijo em minha testa e caminha até a cadeira onde havia deixado sua jaqueta.
    — É algo grave?
    — Acho que não — ele sorri — Precisamos dar um jeito ante que escureça, ainda quero sair daqui hoje. Liam conhece alguém de confiança que pode dar uma olhada em você e nos meninos e preciso falar com Adam o quanto antes. De algum jeito eu vou resolver isso.
    Ele toma meus lábios de um jeito possessivo e o beijo é urgente e faminto. Como se precisasse dele para sobreviver. Retribuo com igual ou maior intensidade.
    — Tranque a porta assim que eu sair — Neil leva-me com ele até a porta, ainda estamos presos um no outro — Não importa o que aconteça, saiba que amo você.
    — Não gosto quando diz isso — puxo-o para mais perto de mim, colando minha testa na dele — Soa-me como uma despedida.
    — Apenas a morte ou grades me manteriam longe de você, amor — seus lábios pressionam os meus novamente — Não aceitarei isso em nenhum dos dois casos.
    — Eu te amo — declaro, resistindo a deixá-lo partir. Algo dentro de mim, diz que alguma coisa está errada. Sexto sentido? Premonição? Eu não sei.
    — Vai voltar não vai?
    Cravo minhas mãos em seus braços e encaro-o apavorada.
    — Em alguns minutos. Vou deixar o celular aqui. Se precisar de ajuda, sabe a quem deve procurar — os lábios formam um sorriso cálido, mas no fundo de seus olhos vejo a mesma inquietação que habita em mim — Aproveite e descanse. Pelo o que conheço daquele anjinho — diz ele, olhando para o lado da cama, onde Raphael dorme tranquilamente — Vai acordar com espírito de Pavarotti.
    — Tenha cuidado.
    Assim que ele sai, após um último beijo apressado eu tranco a porta e apoio-me contra ela. A sensação esquisita de que algo ruim paira sobre nós persiste dentro de mim.
    Caminho até a cama e observo meus bebês com atenção. Mesmo seus peitos balançando lentamente ao ritmo da respiração eu coloco meus dedos embaixo de seus narizes para me certificar de que está tudo bem. Neil ri de mim quando faço isso, mas eu não ligo. Meu instinto é maior do que qualquer senso de ridículo. Eu tenho certeza que serei uma mãe que fará os filhos passarem vergonha de tanto que os beijarei o tempo todo. Lembro-me vagamente que com minha mãe era assim. nunca tivemos muito dinheiro, mas o calor humano, esse transbordava em cada canto da nossa casa humilde, mas repleta de felicidade. Pelo menos até aquele homem horrível cruzar nossos caminhos.
    Ainda desprezo-o profundamente. Odeio para ser honesta. Ainda é complicado separar a imagem que eu tenho dele com Neil. São como clones, a diferença é o calor e amor que eu vejo nos olhos de Neil quando olha para mim. Mas algumas vezes, ao acordar assustada a noite, perdida, olho-o por alguns segundos e sinto uma raiva indescritível. Então, eu me lembro de onde estou e que esse homem é outro. Que o amor que sinto por ele e o medo de perdê-lo, superam qualquer marca do passado, levando essas lembranças dolorosas para lado mais obscuro da minha mente e, é lá onde as mantenho, trancadas.
    Se Paige estivesse aqui. Quem precisa de terapia quando se tem uma amiga como ela? Sinto saudade das nossas conversas francas. De como aconselhamos uma a outra e como rimos de nossas idiotices. Será que ficou com raiva de mim por ter partido sem me despedir? A vida inteira pessoas entraram e saíram de sua vida sem olhar para trás. Eu jurei jamais fazer isso e havia quebrado minha promessa.
    Não! Eu conheço minha amiga. Ela ficou furiosa, desapontada, mas no fundo entenderá o que nos levou a isso. Havia perdoado a mãe que a abandonou em um orfanato aos sete anos. Ela não seria intolerante comigo. Assim espero, fervorosamente. É como uma irmã para mim e a amo muito.
    Decidida, afasto esses pensamentos dolorosos e, pego a carta de Anne que Neil havia guardado em baixo do travesseiro. Leio e releio várias vezes, até não haver lágrimas em meus olhos. Anne não havia nascido do meu ventre e nem tive tanto tempo com ela como Neil, mas eu posso afirmar que a amo tanto quando os gêmeos. Não há explicação para isso. É o que sinto e sei que sou retribuída nesse amor.
    Quando ela me pediu com os olhinhos úmidos e cheios de esperança que pudesse me chamar de mãe no dia do meu casamento foi um dos momentos mais inesquecíveis e emocionantes da minha vida. Naquele dia formamos um elo eterno.
    — Amo você Anne — aperto a carta em meu peito e desejo que minhas palavras levadas pelo vento possam chegar até seu coração.
    Meus cílios pesam sob meus olhos. O cansaço e estresse da noite anterior começam a cobrar seu preço e caio em um sono profundo.

    Eu estou sendo caçada. Eu corro e corro, mas pareço parada no mesmo lugar. As árvores na floresta parecem triplicar de tamanho, bizarramente parecem sorrir para mim, desafiando-me. A máscara branca surge a minha frente, como o gato em Alice no país das maravilhas, envolto de uma fumaça branca e fantasmagórica. E tento escapar mas parece que a fumaça tem efeitos paralisantes.
    Dois homens iguais caminham em minha direção. Não há olhos, apenas um profundo buraco negro. Os dois estendem as mãos em minha direção enquanto a máscara branca continua em volta de mim, zombando.
    Um estrondo faz-me saltar no lugar ecoando em minha cabeça no mesmo compasso das batidas do meu coração.
    Sento-me na cama com o suto. Há dois homens parados entre a porta arrombada.
    — Jennifer Durant — um deles caminha até mim, mostrando um distintivo prateado — Polícia de Nova Iorque.
    Tudo vira um verdadeiro caos. Os bebês que choram assustados devido a invasão repentina. Meu coração que parece querer sair pela boca. E minha alma encurralada que grita desesperada dentro de mim.
    Parece insano, mas eu prefiro volta r ao pesadelo anterior do que ter que enfrentar essa realidade terrível.



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