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  • Protegida por mim - Capitulo 6




    Aqueles que se amam e são separados, podem viver sua dor, mas isso não é desespero: Eles sabem que o amor existe.
    (Albert Camus)

    Ouço o ranger enferrujado da porta e o som quase inaudível do trinco ao ser fechado. E sinto seu olhar indagador pesando sobre mim. Ela deseja nos confrontar, vejo isso, pela forma enrijecida do maxilar e o brilho determinado nos olhos azuis. Peter pigarreia ao meu lado e se afasta, com passos decididos. É claro que ele não dirá uma palavra a ela como pedi, no entanto, também não dará um de bom mosqueteiro ao meu lado. Covarde.
    — Eu preciso ir — diz Peter, sem encarar nenhum de nós dois, as mãos, refugiadas nos bolsos traseiro da calça jeans — Providenciarei um novo celular, desses descartáveis e um local seguro para... — ele olha para o ventre de Jennifer sem completar a frase — Eu entrarei em contato assim que puder.
    — Obrigado — respondo, antes que ele saia, não sem antes de vê-lo lançar um sorriso de encorajamento a Jenny, que une-se a mim, na cama.
    Ela nota o prato ainda intacto sobre a cama, e retorna o olhar para mim, em um questionamento mudo. Afasto-me um pouco, olhando-a de relance, enquanto deposito minha atenção no prato a minha frente. Não que eu esteja com fome, mas manter a minha boca cheia, atrasará o bombardeio de perguntas, a qual tenho certeza, giram em sua cabeça.
    Enquanto como, minha mente divaga para o dia anterior, na realidade para algumas horas atrás. Lembro de toda dor e frustação que habitavam em mim, quando imaginei estar me entregando aos braços da morte. Do temor que quase me destruiu com a incerteza, se Dylan seria capaz de tirá-la dali. Acima de tudo, a fúria que me excitou a enfrentar o perigo a minha frente. É obvio que eu sabia que não haveria forma alguma de sair com vida.
    Ingenuamente, eu só queria ganhar um pouco de tempo. Embora, em meu interior eu soubesse que de nada adiantaria. Afinal, o quão longe um homem a pé, acompanhado de uma mulher grávida e frágil, conseguiria chegar. O maldito homem, os encontraria em questão de minutos, seriam aniquilados em segundos, sem misericórdia. Esse último pensamento, antes de dar o último passo que encerraria minha vida, fez-me vacilar, por um segundo. Já que íamos morrer eu deveria estar ao dela, assim como havíamos jurado em nosso casamento. Na vida e na morte. Sempre juntos. Eram os seus olhos que eu gostaria de olhar, antes que os meus fechassem-se para sempre. Em vez disso, teria o sorriso irônico e olhar frio por trás da máscara. Além do que ele me disse, algo que me desorientou instantaneamente.
    Sabe o que fazemos com as pragas... Sabe o que fazemos com as pragas... Sabe o que fazemos com as pragas?
    Apenas uma pessoa havia falado isso para mim. O choque de ouvir essas palavras, outra vez, havia-me pego desprevenido e baixado minha guarda, não apenas por isso, mas porque minutos antes, as lembranças de um dia a qual procurei enterrar no fundo da minha mente, surgiram, como demônios saídos do inferno. Naquele dia, eu tive a certeza de algo que tentei ignorar a minha vida inteira. Nathan odiava-me, a tal ponto, que seria capaz de qualquer coisa para que eu saísse de seu caminho.
    Por esse motivo eu havia ido embora para Inglaterra na época. Entregado cada pensamento obscuro ao Dr. Barkley, porque em minha cabeça, o erro estava comigo. Indiretamente eu deveria ter feito algo que desencadeou toda essa fúria e revolta de Nathan sobre mim.
    — Neil! — Jenny salta ao meu lado, o corpo tenso e olhos arregalados.
    Olho para o copo trincado em minha mão. Não havia me dado conta que segurava-o com tanta força. Suavizo a expressão endurecida em meu rosto, antes de voltar a olhar para ela. Deixo de ser eu mesmo quando penso e Nathan. Ele sempre traz todos os sentimentos maléficos que há em mim.
    — Tudo bem — murmuro com suavidade, puxando-a para meu peito, ignorando o desconforto em meu ombro.
    Escoro-me contra grade da cama, prendo-a em meus braços, de costas para mim. Acaricio seu cabelo úmido, enquanto as batidas de seu coração e respiração acelerada, voltam a se normalizar, aos poucos. Aliso seu ventre proeminente, fazendo círculos, enquanto ela apoia a cabeça na curva do meu pescoço. Ficamos assim, por um tempo, desfrutando desse breve momento de tranquilidade. Permitindo-nos esquecer por alguns minutos, toda essa merda que infesta nossa vida. Como se estivéssemos em nosso quarto, na tranquilidade de nossa casa, fazendo planos.

    — Onde estamos? — Jenny pergunta, entortando o pescoço para me encarar.
    — Eu não faço ideia — respondo, aliviado que pelo menos sobre isso eu não precisarei mentir, estive desacordado durante a viagem até aqui — Peter nunca me falou desse lugar antes. Parece-me o refúgio de alguém.
    — Peter? — ela volta para posição anterior, inclina a cabeça em direção a um par de botas e uma espingarda de caça, escorados contra a parede — Ele não é inglês? A caça ao faisão e perdiz é uma tradição em seu país.
    — O pai dele era, mas isso faz sentido — murmuro, olhando em volta da cabana rústica— Isso é bem a cara dele.
    Então é aqui que ele se esconde, sempre que precisa se refugiar do mundo. Assim como eu, ele traz um grande peso em sua alma. Pelo menos, eu havia encontrado alguém que me fez desejar construir um novo futuro e deixar para traz um passado triste. Acho que Peter jamais se permitira isso. Sinto por ele, pois de todos os meus amigos, é o que mais precisa de alguém que o ame, verdadeiramente. Embora tente se esconder na fachada de durão e mulherengo, que ele moldou para ele mesmo, no fundo, é apenas um homem perdido, cheio de músculos, mas solitário, que teme amar e ser amado, igualmente.
    — Sentiu isso? — pergunta ela, com a voz estremecida.
    Suas mãos prendem-se as minhas em seu ventre. Outro movimento de um dos meninos, dessa vez, mais forte.
    — Eu senti — respondo, emocionado ao ponto de desejar chorar como um bebê.
    Mesmo Liam nos garantindo que tudo estava bem com eles, no fundo, o medo, rondava em meio a nós dois. Não havíamos planejado os bebês, embora dizer que foi um acidente seria mentira. Os únicos momentos que agi sem cautela, havia sido quando estive desmemoriado. Na ocasião, pouco me importava sermos cuidadosos, estive confuso demais. Desejava-a com loucura, mas não consegui me lembrar dela, via que isso a machucava, aquilo me pareceu o verdadeiro inferno. Mal sabia que o verdadeiro martírio estava por vir.
    Foi uma grande surpresa deparar-me com sua gravidez, e agora os gêmeos são preciosos para mim. No dia em que Jenny me deu a notícia, eu estava desnorteado demais, furioso demais e sendo tragado pelos ciúmes e desespero, após ter me deparado com as fotos armadas por Sophia e seu amigo desprezível, Konrad Bauer. Um velho conhecido do meu passado. Que havia saído da tumba com todas as outras confusas que nos envolve. É muito estranho que tenha retornado, justamente agora.
    Konrad sempre foi mais próximo de Nathan do que de mim, pensando bem, o conheci bem pouco. A primeira vez que o vi, foi alguns meses antes de sair de toda aquela merda a qual meu irmão se afundava a cada dia quando os jogos pararam de ser divertidos para tornarem-se mais perigosos, macabros e doentios.
    Minha cabeça começa a trabalhar vertiginosamente. Inicialmente, acreditei que Sophia havia pedido auxílio ao desgraçado para me separar de Jennifer. Ficou claro, desde de o início o interesse dele por ela.
    E se houver algo mais? 
    O homem mascarado havia falado algo que só Nathan e eu sabíamos. Nathan teria revelado aquilo para mais alguém? Konrad, por exemplo? Os dois estavam sempre juntos, viajavam e sumiam por vários dias, as vezes semanas, ele era íntimo o suficiente para que Nathan tenha compartilhado aquele dia marcante, e meu irmão gostava de se gabar das coisas, por mais bizarras e estranhas que parecessem.
    Ainda me lembro, com nitidez, os olhares acusatórios e cheios de ódio de Konrad para mim, no dia que Nathan foi enterrado. Como se eu fosse o culpado de tudo. E eu nem ao menos estava no país quando tudo aconteceu.
    Bem, ele havia insistido muito para que eu voltasse para casa, algo que não estava pronto, ainda. Nossa conversa ao telefone foi tensa e carregada de ofensas. Essas das quais você carrega grande culpa e arrependimento depois. Será por isso que Konrad me culpava? Nathan havia morrido em consequência do acidente que feriu Jennifer gravemente, levando-a à cegueira. Acreditou ele que de alguma forma eu poderia ter evitado aquilo? Por que não? Afinal, por anos eu também me culpei, minha mãe me culpou, Sophia então. Para todos eles eu sou uma pessoa tão vil assim, a ponto de me alegrar com a morte do próprio irmão.
    Tentei chegar a tempo e encontrá-lo com vida ainda, e tentar me acertar com ele, infelizmente, foi impossível.
    No entanto, não tive nada a ver com aquilo, como diziam os olhares acusadores de Konrad e minha mãe. Até onde ele está envolvido nisso? Será ele é a pessoa determinada a me enlouquecer? E por que usar Nathan durante o percurso? São muitas perguntas sem respostas, que levam a outras, fazendo-me andar em círculos.
    — Você tem poderes mágicos, não é? — pergunta Jenny, rindo, docemente, trazendo-me de volta ao presente, abstraída de toda essa avalanche de pensamentos desenrolando em minha mente — É o único que mexe com eles dessa maneira. Da agitação a quietude.
    Ela está tão concentra em seu encantamento materno que mal notou meu silêncio prolongado.
    — Isso se chama laços — esfrego minha mão em sua barriga, com carinho — É ruim?
    — Não — o riso cristalino enche-me de encantamento — Só que será você, o eleito a levantar todas as madrugadas para as madeiras, fraldas e todas as outras coisas.
    Momentos como esses, entre nós dois, é que me fazem acreditar, por alguns segundos, que havia tomado a decisão certa. Estamos juntos, brigando para seguir em frente e sobreviver. Enquanto eu tiver certeza que nosso amor é maior e mais poderoso do que tudo no mundo, eu continuarei lutando.
    — Bem... — murmuro, alisando seus cabelos, o perfume adocicando impregnando-se em meu nariz. Inalo profundamente, como se quisesse guardar o aroma, no recanto mais brando de minha memória — Eu tenho uma vasta experiência no assunto. Não acho que eu terei problemas, Anne me ensinou muito...
    A menção do nome da nossa filha, traz uma nova nuvem de tristeza, pairando sobre a gente. Nossa vida tem sido assim, um duelo entre dor e felicidade, o tempo todo. Quem é capaz de sobreviver assim por muito tempo?
    — Acha que ela está bem? — pergunta ela.
    Afasto-a um pouco para olhá-la melhor. Encarando seu rosto triste, por um longo tempo, em busca das palavras certas.  Acho que não há. Nada do que eu disser irá aplacar a dor da saudade.
    — Eu não poderia trazê-la, Jenny — suspiro, tentando aplacar minha própria dor — Mal consigo proteger você. Se acontecer algo a Anne, eu jamais...
    — Não estou julgando-o, Neil — ela gira o corpo, ficando de frente a mim, olhando em meus olhos, segurando meu rosto com as duas mãos — Depois de ontem... Aquilo tudo...
    Vejo-a fechar os olhos e respirar fundo.
    — Eu sinto que tudo isso seja culpa minha — diz ela, com tristeza — Se eu não tivesse ido...
    — Jennif...
    — Se eu tivesse procurado você ou o Peter em vez de ter ido atrás da Sophia — ela silencia meus lábios com a mão — Eu senti tanto medo que ela machucasse a Anne. Todos os dias vemos atrocidades de pais contra os filhos nos jornais...
    — Amor... — sussurro entre seus dedos.
    — Eu não duvidei nem por um minuto Neil, que Sophia faria alguma mal a ela. Eu só quis ter a Anne nos meus braços, segura... Sinto muito.
    As últimas palavras saem carregadas de emoção. Doí-me vê-la sofrer assim.
    — Pessoas perversas, planejaram isso — sou eu que faço gesto para que fique quieta, dessa vez — Talvez a mais tempo do que imaginamos. Você fez o que o seu coração pediu, eu entendo.
    Seguro seu rosto, com carinho, como havia feito comigo, minutos antes.
    — A culpa não é sua — encosto minha testa na dela — Jamais repita isso novamente. Eu a proíbo.
    Beijo seus lábios com sofreguidão e desespero. Como se o mel de sua boca fosse o antídoto que me mantém em vivo. E nele eu absorvesse toda a doçura de sua alma.
    — O que importa é que estamos juntos — murmuro, afastando-me um pouco dela — Vamos ficar todos juntos novamente. Eu prometo.
    Acomodo-me na cama, trazendo a comigo. Mantendo-a pressa em meus braços, até que os suspiros contidos transformem-se numa respiração leve.
    Quando ela pega no sono, volto a pensar em Anne. Estou com muita saudade da minha filha. Quando Peter aparecer aqui novamente, o farei prometer que entregará uma carta minha para ela. Tentarei explicar, na medida do possível, que nunca a abandonei e que está em meus pensamentos todos os dias. Eu sei que eu estou fazendo uma tremenda bagunça na cabeça dela. E espero sinceramente que os danos sejam mínimos. Tudo que quis, foi dar a Anne uma vida tranquila e feliz. Por isso, nunca falei mal de Sophia, a louca já fodia com tudo com suas ações. Também nunca denegri a imagem de Nathan, pelo mesmo motivo, quis protegê-la da dor em saber seu foi um pai homem cruel.
    Todavia o passado sempre arranja uma forma de foder com você. Por esse motivo, nunca havia escondido de Anne, que não era seu pai natural. Por que de coração, ninguém tem mais direito de dizer isso do que eu.
    Lembro do dia que ela descobriu, como se fosse hoje. Anne havia acabado de completar cinco anos, foi exatamente no dia do aniversário dela. Não era uma data adequada para fazer isso. Mas claro, houve o dedo podre de Sophia ali, após uma discussão fervorosa que tivemos.
    — Ela nem é sua filha, Neil! — berrou ela, jogando na minha cara, na frente da menina, que ela não era minha filha de verdade — É minha filha e do Nathan. Levo-a embora quando quiser.
    Meus olhos arderam de raiva e ódio naquele momento. Sophia sabia que Anne era o meu calcanhar de Aquiles. Faria qualquer coisa que quisesse, entregaria todo meu dinheiro se preciso. E a maldita, sabia muito bem como usá-la contra mim.
    — Sua filha? — berrei de volta, tendo o cuidado de tapar os ouvidos de Anne, com minhas mãos trêmulas — Jamais se importou com ela e conhecendo Nathan como conheci, acredito que com ele não seria diferente.
    Havia tanta raiva emanando de mim, que a sorte dela, era ter Anne a minha frente. Eu seria capaz de dar uma surra nela, sem o menor peso na consciência.
    Nós nem havíamos cortado o bolo colorido que a Sr. Jacson havia feito para nossa pequena festa particular, nem mesmo acendido as velas. E Sophia já havia arruinado tudo com o seu veneno, escorrendo pela boca.
    — Você vai me dar o dinheiro? — disse ela, batendo os pés no chão como uma garota birrenta, olhando para Anne, com raiva e desprezo. Encarar-me seria muito pior, acredite.
    — Passe amanhã no escritório... — cedi, apenas para me livrar dela o quanto antes.
    — Amanhã? — a voz saiu esganiçada, e contrariada — Mas eu preciso hoje!
    — Amanhã ou nada feito, Sophia! — encarei-a com olhar duro e irredutível — Vou dar qualquer coisa que você queira, desde que suma das nossas vidas, como prometeu.
    — Isso jamais acontecera — ela sorriu, dando-me um olhar de deboche — Nem mesmo morta.
    Nem mesmo morta.
    Naquele momento, tudo o que mais desejei, foi que suas palavras se concretizassem. Mal sabia eu, que meu pedido, fervoroso seria atendido, e que aquilo seria a desgraça em nossas vidas.
    — Não é meu papai? — senti os pequeninos dedos puxarem minha calça, pedindo atenção para o rosto triste e os olhos marejados.
    Desvie minha atenção da porta por onde Sophia havia saído, satisfeita, por mais uma vez, ter arruinado um grande momento entre Anne e eu. Maldita cadela, insana!
    Lembranças felizes era tudo o que eu queria garantir a ela. Por mais que fossemos só nós dois, quase sempre, queria assegurar que se sentisse amada e segura perto de mim. Anne não teria as mesmas recordações amargas que eu. Nunca.
    Exceto que, novamente eu havia falhado. Todos as vezes que eu falhava, o garotinho da minha infância, solitário, visitava-me a noite, com olhos desoladores, desapontado. O mesmo que havia tristemente presenciado o gatinho, flutuando, sem vida, na piscina. Nunca mais fui capaz de ter um animal de estimação. Jennifer havia mudado isso quando comprei o cachorro. Mesmo sendo inapropriado para ela.
    — Amo você, Anne — disse, ajoelhando em frente a ela, procurando controlar o nó que formava em minha garganta — Amo tanto, que o fato de ser minha filha de sangue não faz diferença. Amo-a acima de qualquer coisa em minha vida.
    — Mais do que seu computador? — ela pergunta, inocente. A única coisa que me tira de perto dela quando estava em casa era meu trabalho, por pouco tempo, então, a pergunta é pertinente. Compreendi a associação que ela fez.  
    — Mais do que qualquer coisa — sorri, apertando seu nariz — Se você me amar um pouquinho assim — faço sinal com os dedos — E permitir que eu seja seu papai, serei o homem mais feliz do mundo. Ainda que eu tivesse mil vidas, em mil e uma eu escolheria ser seu pai.
     — Você é meu pai — disse ela, abraçando-me, com lágrimas nos olhos, tão emocionada quanto eu — Amo você, papai.
    Anne nunca me perguntou sobre Nathan. Também nunca me senti confortável com o assunto, embora eu sempre soubesse que cedo ou tarde ela iria falar sobre ele. Talvez mais para frente, quanto tivesse mais idade para compreender. De certa forma, mesmo aquele não sendo o momento ideal, havíamos fortificado ainda mais nossa relação.
    Eu sou o pai dela, eu havia enxugado todas as suas lágrimas. Eu que quase havia derrubado um hospital inteiro, atrás de um médico quando teve a primeira febre aos quatro meses. Eu lidava com suas inseguranças e tristezas relacionadas a sua deficiência. Eu daria minha vida por ela e Jennifer.
    Surpreendentemente, Anne havia lidado muito bem com tudo isso, talvez porque as crianças encarem as adversidades da vida com mais simplicidade do que nós, os adultos, ou quem sabe, alguém no céu houvesse se compadecido de nós dois. Como agradecimento, eu havia prometido certificar-me que ela sempre tivesse certeza do quanto era amada por mim.
    Saber que agora, mesmo que intencionalmente eu possa ter criado uma ruptura entre nós, dilacera minha alma. E espero sinceramente, que ela entenda que não estou fazendo uma escolha entre ela e Jennifer.
    Eu sei que ela está segura em casa, com meus pais e amigos. Fiz o que achei ser o certo no momento, mesmo que para todos seja errado. Eu não sou o homem perfeito. Sou apenas um homem. É o que venho dizendo-me, sempre que penso no assunto.
    Afasto essas lembranças dolorosas junto com outras em um lugar inalcançável de minha mente. Lá, onde devem permanecer, esquecidas.
    Após ter certeza que Jennifer dorme tranquilamente, deslizo meu corpo para fora da cama, cubro-a com uma manta e deposito um beijo suave em sua cabeça.
    Sigo para o banheiro. Tiro a roupa com certa dificuldade. A anestesia local que Liam havia aplicado já havia perdido o efeito há algum tempo, meu ombro doí como os diabos, quando sair do banho tomarei um dos comprimidos para dor que ele deixou.
    Verifico o curativo que ele havia feito e tento evitar molhá-lo no banho, uma missão quase impossível. Pedirei a Jennifer que o refaça quando acordar mais tarde ou eu mesmo o farei, melhor que ela descanse, as últimas horas não foram nada fáceis. Mergulho a cabeça debaixo da água quente, na esperança de que um banho possa me relaxar um pouco. Não sou do tipo de homem que espera as coisas acontecerem, as resolvo. Passei anos de minha vida, ditando regras e exigindo que as seguissem com precisão. Ver-me de mãos atadas, diante de todos esses acontecimentos é frustrante.

    ****

    Quase uma semana havia se passado e nenhuma notícia de Peter ainda. Estamos sem nenhuma informação do mundo exterior, é como se vivêssemos em mundos paralelos. Eu poderia pedir que Dylan fosse a cidade mais próxima em busca de alguma informação, entretanto, arriscar nossa segurança está fora de cogitação. Peter afirmou que entraria em contato e confio nele. Só que quanto mais os dias se arrastam, mais longe parecemos estar de alguma solução.
    Além disso, faltam poucos dias para os bebês nascerem. Não posso permitir que meus filhos nasçam no meio do nada. Lembro-me da fervorosa discussão entre Jennifer e eu, um mês atrás, quando ela levantou a ideia de ter um parto natural, em casa. Ideia nada menos do que estapafúrdia, tinha vindo de Paige, claro. A intrometida, que desejava presenciar o parto e havia colocado a ideia na cabeça de Jennifer.
    “Não estamos mais na pré-história”, vociferei para as duas. “De forma alguma, meus filhos virão ao mundo de forma tão arcaica. Nascerão em um hospital, cercados de todos os médicos que eu encontrar pelo caminho.”
    “Arcaica?” Paige bateu o pé de forma petulante. “Francamente não sei como você o aguenta, Jenny.”
    “Digo o mesmo do seu marido,” estreitei meus olhos para ela. “O cordeirinho.”
    Aquilo foi o estopim para gerar uma nova onda de discussão entre nós três, que eu venci, claro. Ironicamente, agora tenho que reconhecer, eu deveria ter dado ouvidos ao plano absurdo de Paige e assistido os vídeos sobre parto natural que ela havia baixado da internet. Pelo menos, saberia o que fazer se isso acontecesse aqui. Jesus, aquela mulher era uma verdadeira bruxa, com visões sobre o futuro. Não é à toa que Richard a chama de feiticeira. Posso vê-la nitidamente a minha frente dizendo: Eu te avisei. Com varinha na mão e tudo.
     Estar em casa, com pelo menos uma dúzia de médicos, parteiras, enfermeiras ou o que quer que seja, garantindo que tudo aconteceria em paz e tranquilidade é tudo o que desejo.
    Inferno! Para que todo dinheiro que tenho se em momentos como esse, ele não serve para quase nada? Eu mandaria construir um hospital se fosse preciso. No momento, me vejo enclausurado em uma cabana no meio do nada, com minha mulher prestes a dar à luz a qualquer momento. Enquanto minhas mãos continuam atadas e não há nada que eu possa fazer.
    Se Peter não aparecer em vinte e quatro horas com notícias e um local decente para meus filhos nascerem, eu faria as coisas ao meu modo, medito, respirando fundo algumas vezes, antes de desviar o olhar da janela em que estive observando o cair da noite.
    Dylan está fazendo seu turno, olhando ao redor da casa. Há poucos minutos o vi entrando floresta adentro. Como não há um quarto extra na casa, nos revezamos. Ele descansa durante o dia e faz vigília a noite. Jennifer até tentou convencê-lo a dormir em uma cama de cobertas e lençóis feita por ela, nas noites mais frias. Algo que ele e eu recusamos prontamente. No máximo, ficava dentro do carro lá fora. Dylan é treinado para esse tipo de trabalho e fico mais tranquilo, sabendo que ele está vigilante lá fora.
    Afasto-me da janela e vejo Jenny, sentada na cama, de frente para a porta e de costas para mim. Está há bastante tempo nessa posição. Ombros caídos, triste, calada. Assim como eu, esperando uma notícia que não vem.
    Eu tenho feito todas as coisas possíveis para distraí-la de alguma maneira. Não há muito o que fazer aqui, além de jogar cartas e caminhadas curtas lá fora, sobre o olhar vigilante de Dylan e batimentos acelerados do meu coração cada vez que uma folha mexe pelo vento.
    Ela tem suportado muito. Não se queixou ou chorou uma única vez. Isso não é normal. Preciso que seja forte, mas não um martin. Estou aqui para apoiá-la sempre que cair. Eu tenho medo de que ela venha desenvolver algum tipo de depressão ou algo parecido. Então, ando na linha tênue entre a insanidade e desespero absoluto.
    Respiro fundo, como se com isso pudesse ter uma nova recarga de otimismo. Caminho até ela, sussurrando I don't to miss a thing do Aerosmith. A mesma música que desastrosamente cantei em nosso casamento, enquanto dançávamos, felizes.

    Eu poderia ficar acordado só para ouvir você respirando
    Observar seu sorriso enquanto você está dormindo
    Enquanto você está longe e sonhando
    Eu poderia passar minha vida nessa doce rendição
    Eu poderia ficar perdido nesse momento
    Eternamente

    Se há uma coisa que eu sou muito, muito ruim é cantar. Só que ao ver o tímido e lindo sorriso, despontando em sua boca perfeita, faz qualquer humilhação que eu possa estar me infligindo, valer a pena.

    Todo momento que eu passo com você
    É um momento que eu valorizo
    Eu não quero fechar os meus olhos
    Eu não quero cair no sono
    Pois eu sentira sua falta baby
    E eu não quero perder nada

    Estico minhas mãos em direção a ela, que segura as minhas, trêmulas.
    — Canta comigo — puxo-a para os meus braços, sussurrando em seu ouvido, enquanto dançamos ao som de uma banda imaginária — Sua voz é muito mais bonita que a minha.
    Porque mesmo quando eu sonho com você
    O sonho mais doce nunca vai ser o suficiente
    Eu ainda sentiria sua falta, baby
    E eu não quero perder nada

    Continuamos assim dançando e cantando, dessa vez, embalados por sua voz de anjo, levemente arranhada pela minha, desafinada.
    Deitado perto de você
    Sentindo seu coração batendo
    E estou imaginando o que você está sonhando
    Imaginando se sou eu quem você está vendo
    Então beijo seus olhos
    E agradeço a Deus por estarmos juntos
    Eu só quero ficar com você para sempre
    Neste momento e para sempre
    Para sempre e sempre

    Ao som da música, lembro-me do filme, nele a jovem protagonista, também estava grávida, seus sonhos também estavam prestes a serem aniquilados por um gigantesco asteroide que seguia em direção a Terra. Sinto-me também como se um imenso asteroide esteja vindo sobre nossas cabeças. Ameaçando nosso mundo perfeito.
    Mesmo após termos repetido o refrão inúmeras vezes, continuamos a valsa lenta, em silêncio. Não demorou muito para que os toques sutis dessem passagem a mãos e bocas exigentes, queimando nossos corpos como querosene.
    — Jennifer... — sussurro em seus lábios, enquanto tento combater suas mãos afoitas em minha camiseta. Na realidade, camiseta de Peter, que encontrei dentro do minúsculo guarda roupa. Até que ele retornasse, teremos que nos revezar com as poucas roupas, que acredito que sejam dele. Então, é melhor que minha animada e deliciosa esposa, a mantenha inteira.
    Outro filme me vem à cabeça. Juvenil dessa vez, um que ela e Paige fizeram Richard e eu assistirmos com elas. O rapaz em questão, vampiro, recusava ir para cama com a namorada, com medo de machucá-la, devido sua força descomunal. Claro, que Richard e eu rimos disso, dias a fio, levando um tapa ou outro. Estupidamente, no momento, vejo-me na mesma situação que o vampiro. Liam havia pedido repouso e tranquilidade. Meu corpo exige algo bem diferente. Impressionante, meus últimos dias tem sido comigo sendo confrontado, por tudo que havia ido contra, nos meses anteriores. A vida pode ser bem irônica algumas vezes.
    — Preciso de você... — ronrona ela, em meu pescoço. Na ponta dos pés, o ventre dilatado espremido contra meu abdômen — Neil.
    — Está bem — conduzo-a de costas até a cama, meus lábios colado nos delas a cada passo.
    Olho dentro da sua imensidão azul, hipnotizado com a chama ardente que vejo brilhar em seus olhos. Solto seus cabelos do coque frouxe que ela vem adotando diariamente e vejo-os cair em cascata por suas costas. A primeira coisa que eu havia notado quando nos conhecemos, foi a devasta cabeleira vermelha. Alguns homens têm fetiches por pés, mãos, seios. Eu adoro os cabelos dela. O modo como se espalham sobre o lençol quando eu a possuo.
    Ávido por esses pensamentos luxuriosos, livro-a da enorme camiseta que usa como vestido e tenho-a quase nua aminha frente. Linda. Não há sutiã, apenas a calcinha branca, virginal, a qual retiro com lentidão, sem desviar meus olhos dos dela um único momento.
    Deito-a na cama com toda delicadeza que ainda consigo ter. É difícil com ela tentando arranca minhas roupas, ansiosa. Tiro a camisa para deixá-la mais calma e volto a me curvar sobre ela. Beijando e beijando-a, com fome e necessidade, que os dias anteriores de abstinência sexual, haviam acumulado em nós dois.
    Faço um caminho de beijos, passo pelo queixo, pescoço, colo. Permaneço um tempo maior entre um seio e outro. Estão maiores e deliciosamente mais sedutores. Enquanto os sugo com vontade, saboreio algumas gotas de leite em minha boca. Embora eu seja o homem do café e bebidas fortes, eu gosto. Tudo o que há nela é afrodisíaco, gostoso. E enquanto minha boca trabalha em seus seios, minhas mãos não deixam por menos, explorando seu corpo, febrilmente, na cintura, coxas e o pequeno botão capaz de levá-la ao paraíso. Um toque e a tenho contorcendo em meus braços. Abro um pouco mais suas pernas, explorando sua intimidade úmida pronta para mim.
    Ah.... — geme ela, ao meu toque — Sim... Sim... Sim.
    Meu dedo a incita com perícia, respondendo a cada súplica e exigência de seus lábios. Arrancando gritos de prazer. Isso me excita a uma escala inimaginável.
    Deslizo minha boca por seu corpo, lambendo cada pedacinho que encontro pelo caminho desde o ventre arredondado até o clitóris intumescido. A primeira lambida, um gemido e outro e outro... Sons que são um bálsamo e tortura para meu corpo, também aflito. A parte perversa de mim, exalta-se com o prazer que proporciono a ela. A parte animal, deseja se libertada, dando vasão a todo sentimento repreendido.
    — Neil! — grita ela, suas mãos agarradas aos meus cabelos, como sempre faz enquanto se entrega — Neil!
    Foco toda atenção que há em mim em dar prazer a ela. Minha língua escorregando entre clitóris sensível e inchado e vagina molhada, possuindo-a com meus dedos, conduzindo-a ao intenso prazer, em meios aos gritos e gemidos de deleite.
    Espero sua respiração se normalizar antes de me deitar ao seu lado. Beijo-a sem conseguir resistir ao rosto corado e olhar languido em direção a mim. Isso inflama ainda mais a ereção potente em minha calça.
    — Sei o que está tentando fazer — murmura ela, cobrindo-me com seu corpo — Pare de tentar me enganar, Neil.
    A endiabrada é capaz de ler a minha mente, agora?
    — Quem disse que estou fazendo isso? — começo uma nova onda de carícias em suas coxas.
    — Me masturbar não é suficiente, tenho feito isso quase todas as noites enquanto esteve dormindo — diz ela, abrindo o botão da minha calça — Você pode me dar quantos orgasmos quiser, com seus dedos, boca, mas... Ainda quero você dentro de mim.
    É impossível conter o sorriso. Não, quando na verdade, eu não estivesse dormindo em nenhuma dessas vezes.
    Tenho me mantido alerta o máximo que consigo. Mesmo com meu segurança lá fora, ando vigilante, carregado de nervosismo e tensão a cada segundo. Escutá-la dando prazer a si mesmo, durante a madrugada, tem sido no mínimo uma grande tortura para mim. É obvio que eu poderia ajudá-la no processo como fiz a pouco, mas, não sei se teria forças para parar quando necessário. Assim como acredito que não tenha forças agora, se ela continuar insistindo. A única solução que encontrei foi aliviar-me escondido, no banheiro, assim que ela caia no sono. Não acho que Jennifer aceitará algo como isso, e sendo honesto, também não quero.
    Pode parecer estranho para algumas pessoas, pensarmos ou desejarmos tanto sexo, em uma situação tensa como essa. Mas em momentos de isolamento e confinamento na qual estamos sendo obrigados, os sentimentos são mais aflorados, profundos.
    Já ouvi casos de pessoas sequestradas que se envolvem emocionalmente com seus raptores, levadas exatamente por esse sentimento palpitante de dar e receber carinho. Em nosso caso, o amor, o desejo, a paixão foram apenas intensificando-se a cada dia. Não há o que fazer. Preciso dela, como o ar que eu respiro.
    Ajudo-a retirar minha calça. Em instantes estou nu. Nossa reserva de peças intimas é bem limitada. Quando meu pênis salta em direção a ela, duro como uma rocha e ela toca-o, eu dou a volta a lua.
    — Jennifer — seguro-a pelos cabelos quando ela se inclina em direção ao meu pau, rijo, a intenção cravada em seu rosto atrevido — Se quer continuar querida, é melhor não.
    Não que eu vá ter uma ejaculação precoce ou algo do tipo. Só que há uma fera enjaulada, rugindo dentro de mim. Uma que não vai se importar em tratá-la com delicadeza que ela merece. E a última coisa que quero é machucá-la ou aos bebês.
    — Tudo bem — diz ela, com a voz doce, ciente dos meus receios — Deixarei para o segundo round.
    Sento-me sobre os joelhos e coloco-a de costas para mim. Essa é uma posição que não irá cansá-la e ela terá o maior controle sobre seus movimentos. A cada centímetro que sua vagina apertada engole meu pênis, o mundo a minha volta começa perder o foco de novo.
    — É como tocar o céu — gemo, guiando-a.
    Tento manter meu corpo rígido, me controlar ao máximo enquanto deixo-a conduzir o ritmo. É difícil se controlar quando tudo o que você quer é sexo na batida de rock in roll.
    — Neil — soluça ela, alucinada — Entregue-se a mim, querido.
    E quando ela inclina o seu corpo para tocar minhas bolas com os seus dedos delicados, massageando-as, todo meu alto controle vai para o inferno. Cravo minhas mãos em sua cintura, puxando-a mais para baixo, auxiliando-a agora, com movimentos mais ritmados e intensos.
    — Jennifer... — seu nome escapa de meus lábios, forte, firme, carregado de tesão e luxuria.
    Minhas mãos apoderam-se de seus seios, instigando os mamilos, acariciando-os com vontade. Prendo a forte junto a mim e em segundos estamos entregues a uma paixão louca e desenfreada. Suados, famintos, alucinados, indo um de encontro ao outro.
    Sinto-a chegar ao êxtase, seu interior pulsando, agora mais estreito pela gravidez, comprimindo-me, aumentando meu próprio prazer de uma forma inexplicável. Logo ela desaba em meus braços, esgotada e eu a sigo.
    Nossa — tombo na cama, levando-a comigo — Isso foi...
    — Divino — murmura ela, sorrindo, languida.
    — Divino — repito, antes de vê-la fechar os olhos.
    Bem... Deixarei que descanse. Um pouco.

    ***

    Acordo com os raios de sol em meus olhos, vindo da janela, e ruídos da cozinha. Parado em frente a pia, está Peter, encarando-me com um sorriso debochado no rosto.
    — Café? — pergunta ele, levantando o copo.
    — Onde você esteve? — sussurro, saindo da cama nu. Volto para cama em busca da calça, evitando acordar Jennifer durante a missão — Quer por acaso me enlouquecer?
    — Pela forma que estavam engalfinhados quando entrei, e os trajes matutinos, louco, é a última coisa que aparenta.
    — Peter! — atualmente, minha paciência não é algo com que deva se brincar. O homem some por dias, deixando-nos isolados onde só Deus e Dylan sabem, e agora ressurgi com um novo repertório de piadas desagradáveis. Acho que devo informá-lo que esse posto de homem inconveniente, pertence a Liam. Um clone apático dele não é bem-vindo hoje.
    — Desculpe — ele levanta a mão em sinal de paz — Estava apenas descontraindo o ambiente.
    Ignorando-o, encontro a calça, vestindo-a.
    — Vejo que melhorou? — diz ele, ao mirar meu ombro, quase curado.
    — O que aconteceu? — pergunto, indo direto ao assunto — Por que sumiu por tanto tempo?
    Ele coça a testa enrugada, indeciso no que dizer. Sério isso? Que porra ele acha que pode esconder de mim. Não sou uma donzela em perigo. Talvez em perigo, mas não donzela.
    — Sua mãe não facilitou muito as coisas — ele começa, receoso — Se recusou a me dar a autorização para eu examinasse a lápide e eu...
    Não é surpresa para mim que ela tenha se recusado. Aquele é uma espécie de santuário para ela. A última morada de seu precioso filho.
    —Você conseguiu ou não? — interrompo-o com certa rudeza.
    — Sim e não. Aconteceu uma coisa curiosa. Mas conversamos sobre isso depois — ele enruga a testa — Consegui um lugar apropriado para vocês. Fica a um dia daqui, então, precisamos ser rápidos e...
    Mas antes que ele pudesse continuar, um grito angustiado ecoa no quarto silenciando-o. Viramos em direção ao som, deparo-me com Jennifer, nos encarando, assustada.
    Porra! Isso definitivamente não pode estar acontecendo. Não agora.
    Algo como uma brisa fria arrepia minha pele quando meus olhos cruzam com os dela. A respiração acelerada e o modo peculiar que torce os dedos sempre que está nervosa, desmentem a expressão serena em seu rosto.
    — Não me diga que ela vai ter um bebê, agora? — pergunta Peter, estarrecido.
    A expressão terrificada em seu rosto seria cômica se eu não me encontrasse tão ou mais apavorado do que ele. Só que no meu caso, eu tenho a obrigação de demonstrar uma confiança que eu não tenho.
    Enquanto sinto como se estivesse colado no mesmo lugar, petrificado, seria a palavra correta. Peter parece que está sendo enviado a execução. Morte por enforcamento.
    — Na realidade, dois — Jenny sorri, absurdamente calma, há tanta confiança direcionada a mim em seu olhar. 
    Quem inventou que as mulheres são o sexo frágil é a pessoa mais estúpida do planeta ou não conheceu homens como nós dois. Homens barbados, cobertos de músculo e o dobro do tamanho dela, que no momento, batem os dentes, prestes a chorar como bebês. Jennifer apenas sorri, como se fosse dar uma volta ao parque. O rosto tão celestial como se estivesse em estado de graça enquanto eu juro que seria capaz de desmaiar a qualquer momento. Meu coração bate tão forte dentro do meu peito, que não há dúvidas, iria ter um infarto antes dos quarenta anos.
    Por mais que o nascimento de uma criança, não seja novidade para mim, a situação na época era completamente outra, além disso, Sophia optou por uma cesariana e quando Anne nasceu, garanti que seria no melhor hospital de Nova Iorque. Havia médicos e enfermeiras por todos os lados, tudo o que eu tive que fazer foi andar de um lado a outro do corredor enquanto esperava.
    — Você tem certeza? — Peter pergunta, aflito. Isso me tira do meu estado de choque e me impulsiona até Jennifer na cama.
    Em resposta, ela afasta as cobertas para o lado para que víssemos o colchão encharcado. Caralho! A bolsa havia estourado e não há dúvidas de que meus filhos querem dar boas-vindas ao mundo.
    — Não Peter — fulmino-o com os olhos — É teste drive. Claro que ela vai ter os bebês!
    Eu tento pensar com clareza mas todo ou qualquer raciocínio parecem emaranhados dentro de minha cabeça. 
    — Aiii! — o gemido angustiado de dor, faz com que ela se contorça na cama — Neil...
    — Eu estou aqui — beijo sua testa com delicadeza — Vamos ajudar esses pequenos a nascer.
    — Porra, você está brincando — Peter pula em nossa frente — Eu vou ligar para o Liam — solta ele, em uma voz esganiçada como se tivesse ingerido gás hélio por um longo tempo.
    — Liam não é obstetra, Peter — gemo, angustiado — Traga a Dra. Moore até aqui! Você garantiu que nos tiraria daqui!
    — Eu não tenho culpa se esses garotos são apressados — diz ele, irritado — Olha, Liam é médico de qualquer forma.
    — Não podemos fazer isso não, cara — continua ele com olhar horrorizado, uma pequena parte racional dele continua em alerta. Com isso ele sabe lidar. Mulheres grávidas prestes a dar à luz, não.
     — Além disso, você confia em mais alguém?
    — Vocês dois não estão ajudando! — Jennifer exalta-se, os olhos assustados e marejados devido a dor causada por uma contração — Chame o Liam, por favor!
     — Não — respondo, vencido. Confio em Liam, sei que ele faria qualquer coisa para nos ajudar, mas ele não é um especialista em partos. Eu quero o maldito de um obstetra que saberá exatamente o que estará fazendo aqui.
    Mas falando francamente, na situação em que me encontro, aceitaria ajuda de qualquer pessoa. Até mesmo Paige e sua ideia maluca de parto caseiro. Por que as mulheres sempre têm razão, em tudo, mesmo as malucas como ela. Afinal de contas se eu tivesse assistido as malditas aulas ao menos saberia o que fazer agora, enquanto aguardamos que Liam apareça. Passarão anos e nunca conseguirei me perdoar por ter sido tão irredutível.
    Inferno! Tudo o que sei é o que vi nos filmes. E não faço a mínima ideia do que poderia ser aplicado na vida real ou o que era apenas ficção.
    — Ahh, merda! — Jennifer chora, as unhas cravadas na palma da minha mão são os sinais que outra contração poderosa  dominá-la — Eu não consigo!
    — Respire — inalo e exalo diversas vezes como se isso pudesse ajudá-la — Respire.
    A cena me deixa alucinado. Vê-la sofrendo, mesmo que por algo tão nobre como trazer uma criança ao mundo, dilacera minha alma. Eu transferiria toda a dor para mim, saber que isso é impossível tira-me o fôlego tanto quanto ela aparenta no momento.
    — Está tão linda — sussurro, acariciando as longas mechas de cabelo que caem como cascata emoldurando seu rosto. Eu não minto, nunca a vi tão majestosa como hoje. Durante toda a gravidez havia um brilho luminoso em seus olhos e agora parece irradiar em torno dela, como uma sereia, enfeitiçando-me.
    — Amor... — pranteia ela, fazendo respiração cachorrinho como havíamos aprendido nas aulas do pré-natal — Uhhf... palavras bonitas não vão diminuir a dor.
    — Pode gritar se quiser — sugiro, completamente perdido.
    — Acredite... — geme ela, agarrando a grade da cama até os nós dos dedos ficarem brancos — Não vai demorar a acontecer.
    Não faço ideia se fala sobre os gritos ou a chegada dos pequenos.
    As contrações continuam em intervalos menores dessa vez, pelo que me lembro do que a médica havia dito, isso significa que não temos muito tempo.  Sussurro palavras carinhosas e de encorajamento a ela a cada vez que seu corpo dobro impulsionado pelas contrações e dores.
    — Liam está a caminho — Peter bate à porta ao entrar. Não havia notado quando Peter saiu do quarto, provavelmente para fazer a ligação — Espera só mais um pouco Jenny.
    O olhar irado que ela lança a ele causa arrepios até em mim.
    — Isso não é uma coisa que se controla, Peter! — Jennifer resmunga o óbvio, buscando fôlego — Eu não posso!
    Imediatamente eu me vejo obrigado a ficar no modo automático. É ela quem deve estar assustada ali. É ela a sentir todas as dores e que terá que ser forte o bastante para trazer nossos filhos ao mundo. Eu tenho que sufocar o garoto assustado em mim e agir como um homem, frio e controlado que todos imaginam que sou. 
    — Você pode, sim! — enfatizo, segurando seu rosto com firmeza — Não há nada que não consiga fazer e eu estou aqui com você. Estive quando os fizemos e estou agora para ajudá-los a nascer.
    Beijo seus lábios por alguns segundos desejando que eles pudessem ter um antídoto para livrá-la da dor.
    — Não fique aí parado, Peter — vocifero, quando me afasto e posiciono-me em frente a ela — Faça alguma coisa.
    — O que eu devo fazer? — diz ele, atrapalhado.
    Afasto a camisa que ela usa, por sorte, é a única peça de roupa em seu corpo.
    — Traga álcool, tesouras, panos limpos e tudo o que acha que vamos precisar — respondo.
    — Tá, eu posso fazer isso — murmura ele, sumindo banheiro adentro.
      Ignoro-o com um balançar de cabeça. O homem está a quem de aterrorizado. Não o julgo, não estou muito diferente.
    Certo, é só manter a calma, digo a mim mesmo, diversas vezes como se esse mantra pudesse trazer-me serenidade.
    Aparto-lhe as pernas, colocando os pés a cada lado de meu corpo. Já é visível o pequeno tufão de cabelos do bebê, escuros como os meus. Isso baqueia-me por um momento.
    — Quando a contração vier, faça força — digo a ela, a voz ainda sufocada pela emoção.
    Seremos capazes disso, preciso apenas lembrar de tudo o que havíamos aprendido nas aulas e dará tudo certo. Tento me convencer disso.
    — Aqui está — Peter surge minutos depois com tudo o que pedi — AH MEU DEUS!
    Ele joga os utensílios na cama e em segundos presencio cair como abacate maduro após olhar a cabeça do bebê coroando.
    — Peter!
    Caralho. Não acredito que ele desmaiou quando mais preciso dele.
    — Ele está bem? — Jennifer me encara assustada.
    — Dane-se ele — resmungo exasperado — Covarde.
    Como pode um homem que tem praticamente o dobro do meu tamanho apagar ao ver um bebê nascer.
    — Dylan! — grito o mais alto que consigo — Dylan!
    Outro espasmo a faz contorcer e foco toda minha atenção no milagre diante de mim. 
    — Força, amor — incentivo-a. A cabeça do bebê desliza para fora e parte do ombro desponta. Sei que essa é a parte mais difícil para ela — Você consegue.
    — Ah, meu Deus! — Dylan entra e nos encara horrorizado.
    — Não se atreva a desmaiar também — vocifero, impaciente — Eu juro que demito você.
    — Claro que não senhor — diz ele, nervoso — Meus tios trabalharam em uma fazenda e já vi uma vaca parir uma vez quando eu era criança.
    Eu não gostei da associação, mas contanto que ele aguente firme tudo bem.
    — Está quase lá amor.  Só mais um pouquinho de força.
    — Ahrg... — eu vejo toda garra e força de vontade em seu rosto contorcido — Ahhh!
    O choro estridente do bebê ecoa aos quatro quantos do quarto. Potente, forte e o som mais lindo que já ouvi.
    — É lindo — digo entre sorrisos e lágrimas, entregando o bebê a um Dylan visivelmente emocionado.
    Corto cordão umbilical com a tesoura ainda na embalagem que Peter havia trazido. Faço uma prece para que eu esteja fazendo tudo certo. Ainda temos muito trabalho pela frente. Como nada em nossas vidas parece simples, temos outro pequenino para ajudar a nascer. Depois de muito esforço da parte dela e após temer que não conseguiria, tenho finalmente meu filho em meus braços.
    — Oi — sussurro ao menino que berra aos quatro ventos — Oi pequenino.
    Os gritos viram pequenos suspiros enquanto acalento-o junto ao meu peito. Incríveis olhos azuis fixam-se em mim, curiosos. E nossa conexão foi estabelecida alí. Olho-o admirado, verificando cada pedacinho de seu corpo miúdo — mãos, dedos, pés, uma mistura de Jennifer e eu, perfeito.
    — Conseguimos — sussurro, transbordando de orgulho e felicidade.
    Após alguns minutos, uno-me a ela na cama. Está encostada contra a cabeceira. O outro bebê em seus braços e busca seus seios avidamente, sugando-o assim que o encontra.
    Lembro de que a médica havia dito que essa interação entre mãe e filho é de suma importância para ele. Entrego o bebê a ela, auxiliando-a a sustentar o peso, pendendo os três em meu peito. Beijo-lhe os cabelos suados e deixo que as lágrimas silenciosas deslizem por meu rosto embaçando meus olhos.
    — Obrigada — diz ela, exausta, mas com um lindo sorriso no rosto — Não conseguiria sem você.
    — Conseguiria sim — murmuro, envergonhado. Céus ela havia dado a luz a dois bebês e me agradecia. Quando tudo que fiz foi apenas tentar ficar firme o máximo que consegui — É a pessoa mais forte que eu conheço.
    O pequeno em seu braço esquerdo abandona o seio, bocejando em seguida, prendendo-nos nesse mundo de encantamento. Há somente nós quatro aqui, protegidos dentro dessa nossa pequena bolha de felicidade. Apenas uma pessoa me faz falta.
    Anne.
       
    ****

    Algumas horas depois e de Liam ter verificado todos os cuidados que Jennifer poderia precisar, eu suspiro aliviado.  
    — Você fez tudo certo, Neil — diz ele sorrindo — Parabéns, seus filhos são lindos.
    Puxo-o para um canto, longe dos ouvidos de Jennifer, que está tão encantada com os bebês que nem mesmo um terremoto a abalaria.
    — Precisamos levá-los a um hospital? — pergunto apreensivo. Eu sei os riscos que isso implica, mas não vou colocar a vida deles em risco.
    — Ela está bem — diz ele — Os gêmeos também. Muitas mulheres têm filhos em casa todos os dias. O ideal que os levem para alguns exames mais tarde, mas fique tranquilo.
    — Quando devemos ir? — pergunto ansioso.
    Procuro Peter com meus olhos. Ele está encostado contra a geladeira, conversando com Dylan e uma carranca em seu rosto. Claro que Liam não iria deixar batido o fato dele ter desmaiado e conhecendo-o sei que perturbará o homem para resto de sua vida.
    — Deixe que Jenny descanse um pouco, Neil — murmura Liam, batendo em meu ombro — São apenas exames de rotina. Ocorreu tudo bem durante a gestação e parto apesar de difícil não teve complicações. Acalme-se e curta esse momento.
    Os três saem, cientes de que Jennifer precisa de descanso e um pouco de privacidade.
    Depois de vermos os bebês dormirem profundamente e termos certeza que ficariam bem. Carrego-a para banheiro e ajudo-a com o banho após grande insistência da parte dela. É complicada a movimentação no banheiro minúsculo, mas não afasto-me dela um único segundo. Tenho-a nua junto a mim, mas não há desejo sexual implícito. O que fala mais forte em mim, é essa ferrenha necessidade de mimá-la. Lavo seus cabelos e recebo um suspiro de agradecimento. Esfrego lhe o corpo, sempre mantendo-a apoiada a mim, demoro um pouco mais sobre o ventre inchado, onde meus filhos haviam ficado protegidos.
    — Continua linda — murmuro quando ela tenta afastar as minhas mãos — Minha amada, companheira, amiga e... — seguro seu queixo obrigando-a a olhar para mim — Mãe dos meus filhos.
    Beijo-a, agora sem me importar com a água que encharca minhas roupas. Mesmo com todos as incógnitas e momentos difíceis que ainda teremos pela frente, hoje é o dia mais feliz de minha vida.


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