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  • Protegida por mim - Prólogo


    Prólogo
    No dia anterior

    Olho com irritação para fileira de carros a minha frente. Deve ter acontecido algum acidente, concluo. Procuro uma vaga para o carro, assim que a encontro eu estaciono decidido a terminar o caminho andando. O apartamento de Sophia não fica muito longe de onde estou.
    E eu só tenho uma coisa em mente. Confrontá-la!
    Dizer que estou cansado de suas loucuras e crueldades seria um eufemismo, estou fodido com isso. Minhas emoções vão além de qualquer sentimento racional. Todavia, eu me proponho a manter o controle. Sophia já provou ser mais do que louca, ela possui características de uma psicopata. Tudo que fez é o suficiente para trancafiá-la em um sanatório pelo resto de sua vida ou enviá-la direto para a prisão. Por Anne eu darei a ela e pela última vez, a oportunidade de que escolha a primeira opção, pode até ser uma clínica de luxo desde que seja longe de minha família e que acima de tudo ela não cause mais nenhum risco. E só porque minha mulher e meus filhos estão em casa e em segurança, serei misericordioso. É mais do que qualquer outra pessoa faria, mais do que eu faria se não houvesse em casa pessoas inocentes que ainda precisam de mim e que eu amo.
     Ameaçar uma mulher grávida e usar a própria filha como chantagem é intolerável e não vou titubear em ser implacável com ela. De uma vez por todas Sophia entenderá o quão cruel eu posso me tornar quando ameaçam aqueles que eu amo, nem que para isso tenha que ir até as últimas consequências.  O celular em meu bolso vibra, tirando-me dos pensamentos conflitantes.
    — Adam! — apresso-me a atendê-lo — Onde você está?
    Havia pedido a Adam que me acompanhasse nessa difícil conversa com Sophia. Tenho certeza que ela fará um escândalo e preciso que ele me dê embalsamento legal e moral acima de tudo.
    — Estou próximo ao apartamento de Sophia — responde ele. — Não consegui entrar em contato com os pais dela, minha secretária está tentando. Tem certeza que quer fazer isso? O que ela fez dessa vez.
    De acordo com Adam como não sou mais o marido dela precisamos do apoio de seus pais para enviá-la a uma clínica. Não a menor dúvida que eles me apoiem nisso, pois não vão querer ver a filha sendo algemada e presa.
    — Sophia foi longe demais hoje — murmuro — Prefiro falar pessoalmente. Está acontecendo alguma coisa em seu prédio eu tive que estacionar um pouco longe.
    — Eu percebi — diz ele — Vou descer do taxi e encontro-o em seguida.
    Há uma grande aglomeração em frente ao edifício onde Sophia mora. Um cordão de isolamento impede que as pessoas avancem. Além da polícia, dos curiosos há a presença de alguns fotógrafos. Encosto-me ao muro de um prédio do outro lado da rua enquanto analiso a situação. Penso em uma forma de entrar no prédio sem que possa chamar muita atenção.
    — Uma coisa terrível não é? — diz um homem uniformizado que saiu do prédio onde estou — Uma morte terrível.
    — Morte?

    — Sim — diz ele, com pesar — A empregada encontrou a mulher morta dentro do apartamento. Parece que foi a facadas.
    Agora entendo tanto alvoroço, embora Nova York seja uma cidade gigante e de tudo aconteça, crimes como esse em um bairro privilegiado é algo muito raro. Com certeza a vítima deve ser uma pessoa conhecida. Algo nessa história me incomoda. A velha intuição de que algo importante está para acontecer.
    — Oi Neil — Adam me cumprimenta. Estava tão concentrado na cena a minha frente que não o percebi se aproximar — O que há ali?
    O homem ao meu lado também havia saído, acho que voltou para seu posto no prédio.
    — Um caso de assassinato — murmuro evasivo — Acho que teremos que esperar esse tumulto passar para entrarmos.
    — Pelo que eu vejo vai demorar muito eu vou até lá para saber o que acontece, tenho alguns amigos na polícia quero ver se tenho sorte.
    Não respondo apenas observo-o se dirigir ao prédio. O tempo passa e com ele minha paciência. Eu não sou do tipo que fica parado esperando as coisas acontecerem. Ficar aqui aguardando notícias está deixando-me puto da vida. Preciso enfrentar Sophia ainda hoje. Eu conheço-a, sempre que apronta uma das suas ela foge. Não vou permitir que faça isso e escape ilesa. Eu a caçarei até o inferno se for preciso.
    Vinte minutos depois, Adam retorna, não gosto da expressão em seu rosto. Algo me diz que as coisas estão piores do que previ. 
    — Se houvesse um banco aqui diria para se sentar — diz ele, eufórico —Tenho uma notícia bombástica.
    — Sophia fugiu de novo? — pergunto, com inconformismo — Filha da puta! Pedirei a Peter que a encontre e logo!
    — Na verdade é um pouco pior que isso.
    — Fale de uma vez Adam! — murmuro, irritado e já sem paciência. — Não vai me dizer que ela é responsável pela mulher encontrada morta. Se for o caso eu vou deixar que apodreça, nem mesmo o fato de ser a mãe de Anne vai mexer comigo dessa vez. Se esse for o caso, não moverei uma palha para que ela se livre disso.
    Para mim não seria uma surpresa se isso for verdade. Sophia é bem capaz de um ato como esse, aquela maluca é capaz de qualquer coisa. Minha única frustração é não ter me dado conta que os problemas de Sophia vão além das drogas e bebidas, ela tem problemas gravíssimos de desvio de personalidade, para não dizer psicóticos.
    — Na verdade — Ele faz uma pausa — Ela é a vítima.
    — O que? — demoro um pouco para assimilar o que ele diz. — Está falando sério, Adam?
    — Sim — ele me encara insistentemente, enquanto leva a mão aos bolsos da calça, analisa-me friamente — Onde esteve o dia todo?
    Dou risada, não sei se ainda estou chocado com a informação ou com a pergunta dele.
    — Sério isso? — Aceno com a mão.
    — É mais sério do que imagina, Neil — diz ele, encolhendo os ombros. — Onde esteve o dia inteiro?
    — Trabalhando porra! — digo exaltado — Onde você acha? Esteve comigo no escritório, lembra?
    — Isso foi de manhã — murmura. — O que fez a tarde?
    — Está me acusando de tê-la matado? — murmuro seco — Seja direto, Adam!
    — Eu não disse isso — ele relaxa os ombros — Mas são perguntas que você terá que enfrentar em algum momento.
    — Por que? — pergunto incrédulo. — O que eu tenho a ver com isso. Há dias eu não vejo aquela filha da puta!
    — Seu relacionamento com Sophia foi tenso do começo ao fim — diz ele. — Tem milhares de motivos para desejar vê-la morta. Temos que estar preparados para qualquer acusação.
    Pensando pelo lado prático, Adam tem razão. O marido ou ex-marido não são sempre os principais suspeito? Não é o que dizem? Eu poderia matá-la agora, se já não estivesse morta. Que porra de sina é esse que eu tenho que carregar. Nathan morreu e seu fantasma perseguiu-me por anos, quase perdi a única mulher que amei na vida e com Sophia, algo me diz que as coisas seguem para o mesmo caminho. Que merda que eu fiz nessa vida para carregar essa cruz indefinitivamente?
    — Vamos para casa, no caminho eu respondo tudo o que você precisa saber — murmuro seco — Jennifer deve estar preocupada, a essa altura a notícia deve estar em todos os jornais.
    Uma coisa atormenta minha cabeça. Sophia morreu depois que Jennifer saiu do apartamento dela. Isso torna-a uma suspeita em potencial. Eu não posso dizer nada a Adam até que eu converse com ela e tenha algumas perguntas respondidas. Sophia é uma verdadeira filha da puta, mesmo morta encontrou uma forma de arruinar minha vida. Na pior das hipóteses, arruinar a vida de Jennifer. Isso eu não vou permitir!

    No caminho relatei a Adam tudo que fiz depois que ele saiu do meu escritório essa manhã. Almocei por lá mesmo, fiz tive uma reunião com alguns funcionários que ficariam responsáveis pelo andamento da empresa enquanto eu estivesse em Paris, durante a tarde participei de uma sessão de vídeo conferência. Então, se a morte dela for confirmada como sendo de hoje à tarde como eu suspeito, não haverá nada que me ligue a Sophia e ao crime. As câmeras de segurança na sede da empresa podem confirmar a hora que entrei e sai, além de todas as testemunhas que estiveram comigo durante o dia. No caso de Jennifer as coisas se complicam drasticamente. Ele sumiu por quase três horas durante a tarde. 
    Assim que me aproximo de casa sou imediatamente cercado pela imprensa. Estão atrás dessa história como abelha no mel. Esse é um dos casos que passarão anos e as pessoas continuarão comentando. Entro com certa dificuldade e irritação. Esses abutres sempre me deram nos nervos. Nunca tive muita paciência em lidar com eles, hoje não é diferente.
    Mal desliguei o motor do carro, deslizei para fora e praticamente corri para dentro da casa. Tenho uma necessidade inexplicável de vê-la. Ter a certeza de que ela e meus filhos estão bem e seguros.
    Atravesso a porta da sala em disparada. Meu sangue gela ao vê-la nos braços de Geórgia.
    — O que está acontecendo aqui?
    Ao ouvir minha voz Jennifer corre para os meus braços, chorando, tateia meu corpo inteiro, acho que em busca de algum ferimento. Por que?
    — Ei, estou bem — murmuro, abraçando-a — Fique calma.
    — Está tudo bem? — ela pergunta, em um sussurro. — O que aconteceu? O que fez com Sophia?
    Meu corpo enrijece, seus olhos encontram os meus. Não sei como dar a notícia a ela. Olho para sua barriga enorme e me pergunto até que ponto a notícia poderá abalá-la.
    — Eu preciso de um drinque — diz Adam, surgindo atrás de mim.
    Lanço um olhar preventivo a ele. Já o havia o alertado de que que contaria sobre a morte de Sophia de uma maneira que abalasse-a o mínimo possível. Em seu estado avançado de gravidez uma tragédia como essa é bem impactante.
    — Neil...
    Noto o medo em seus olhos e palidez em seu rosto me preocupa.
    — Por que não se senta? — murmuro, tentando aparentar calma.
    — Não quero me sentar! — diz ela, com teimosia. — Quero saber o que está acontecendo.
    — Fale de uma vez — Adam caminha até ela, o copo quase vazio em sua mão. — Ela irá saber de qualquer forma. Não tem por que protelar isso por mais tempo.
    — Eu sei — admito. — Você tem que ficar tranquila. Pense nos bebês, tudo bem?
    Coloco a mão em seu ventre para firmar o que digo. Meu coração dá um pequeno salto ao senti-los mexerem lá dentro. Sei que estão inquietos por causa da agitação e nervosismo da mãe. Sinto-me impotente e desnorteado, nem haviam nascido e já passam por tantas coisas. A ideia de que estejam sofrendo deixam-me louco. Respiro fundo e tento me acalmar, crianças podem captar o clima ao redor deles. Não vou permitir que se abalem mais do que já estão. Conduzo-a até a cadeira mais próxima e espero que se acomode.
    — Certo — encara-me, apreensiva. — O que aconteceu?
    Não respondo de imediato. Como vou dizer a ela? Inferno! Jenny olha de mim em seguida para Adam. Como eu pedi, ele se mantém calado. Se alguém precisa jogar a merda no ventilador que seja eu.  
    — Neil! — Ela resmunga agoniada.
    — Sophia está morta! — respondo, com raiva — Alguém a matou.
    Fico aliviado que ela tenha se sentado. Parece que irá desmaiar a qualquer momento. O choque e surpresa estão estampados em seu rosto delicado. Ela fecha os olhos por alguns segundos, vejo que briga para se manter consciente, isso me destrói.
    — Neil é o principal suspeito — ouço o tom acusatório de Adam.
    Filho da puta! Olho feio para ele. Como pode ser tão idiota e jogar essa bomba em cima dela? Não vê o quanto já está abalada! Curvo-me até ela com preocupação, nossos rostos há apenas alguns centímetros de distância. Jenny abre os olhos gradativamente. Porra. Quando esses olhos lindos e cristalinos parariam de me deixar impactados? Nem mesmo a preocupação que vejo neles diminuem o prazer que sinto em fitá-los.
    — O que? — sussurra ela, tentando assimilar o que Adam disse. — Isso é um absurdo — Ela encara Adam com olhar furioso. — Neil não faria isso.
    — Eu não disse que ele a matou, Jenny — diz Adam, passando a mão nos cabelos, em um gesto nervoso. — Eu disse que ele será obviamente um dos principais suspeitos.
    Ela geme, seguro suas mãos frias, preciso assegurar que tudo ficará bem. Não há o que temer.
    — Não se preocupe — murmuro —Tudo vai se resolver e, estaremos longe daqui.
    — Eu não aconselharia a viajar tão cedo — interrompe Adam.
    — Por que não? — Jenny balbucio — Neil não fez nada, você sabe disso. Deve ter alguma forma de provar isso.
    — Farei de tudo para que sim — anuí ele — Por enquanto, evitem a impressa e qualquer tipo de declaração. Não saiam do país até as coisas ficarem esclarecidas, se saírem, seria como uma confissão de culpa.
    Jenny consente e eu procuro colocar os pensamentos em ordem. Enquanto a acusação pesar sobre minha cabeça eu estaria tranquilo, afinal sedo ou tarde constatariam minha inocência, mas e quando as acusações se direcionassem a ela? Se não encontrassem o verdadeiro suspeito e essa ameaça pairar sobre sua cabeça? A imagem dela em uma sela imunda, sozinha e desprotegida fazem meu coração disparar. Eu não posso e não vou permitir isso. Eu sei e tenho certeza de que ela é inocente. Até aceitaria que pudesse cometer o ato em defesa própria ou dos nossos filhos em seu ventre, mas a forma que Sophia foi encontrada, o ato foi demais para uma pessoa delicada e pura como Jenny tenha provocado.
    — Como Sophia morreu? — pergunta ela.  
    Volto a encarar Adam para que ele se cale.
    — Eu vou saber de uma forma ou de outra — murmura ela, com firmeza na voz. — Essa mania de vocês é irritante. Eu não sou uma taça de cristal. Acho melhor que eu saiba por vocês.
    — Eu não sei muito bem — começo receoso. Vou revelar apenas o que for preciso. No caminho Adam havia me mostrado uma foto que conseguiu com sua amiga policial. A cena é realmente chocante, Sophia em uma poça de sangue, os olhos arregalados e sem vida. — Quando cheguei ao prédio o circo já estava armados. Parece que a empregada encontrou o corpo. Um policial disse que Sophia foi esfaqueada algumas vezes.
    Noto-a ficar ainda mais pálida do que anteriormente, se é que isso é possível. Minhas últimas palavras abalaram-na terrivelmente.
    — Você está errado Adam! Virão atrás de mim — Jenny levanta-se mais rápido do que eu pude prever e desmaia aos meus pés.
    Caio ao seu lado, meu coração pulsa acelerado. Porra! Porra! Porra! Eu sabia que isso iria acontecer. São informações demais para que possa assimilar. Que merda de marido eu sou? Deveria ter trazido uma equipe médica para que a amparasse ao dar a notícia a ela. Se algo acontecer a eles jamais vou poder me perdoar.
    — Adam! — urro para ele, que está estático ao nosso lado — Faça alguma coisa! Chame a ambulância!
    Prendo-a em meus braços e acaricio seu rosto com suavidade. A merda dos meus olhos enche-se de água, mas eu as contenho. Não posso entrar em pânico agora. Carrego-a até o sofá, deposito-a ali com cuidado.
    — Jennifer! — acaricio os cabelos dela com desespero — Amor. Não faz isso comigo, porra.
    Ela abre olhos e me encara. Seus olhos estão marejados.
    — Fique calma, isso não vai acontecer — tento acalmá-la — Ninguém sabe sobre isso e assim que deve ser.
    — Que porra que está acontecendo aqui? — diz Adam, parece ter saído do seu estado de estupor e nos encara com olhar furioso. — O que eu não estou sabendo? Neil?
    — Nada de importante Adam — murmuro.
    — Eu estive no apartamento de Sophia essa tarde e... — responde ela, deixando-me fodido com isso.
    — Jennifer! — interrompo-a, um sentimento de frustração dominando-me.
    — Eu preciso falar — Ela respira fundo e encolhe-se levando a mão ao ventre.   É importante Neil.
    — Tudo bem — murmuro, vencido. Não quero agitá-la mais — Apenas Adam saberá sobre isso, ninguém mais.
    — O que foi fazer lá Jennifer? — Adam encara-a insatisfeito.
    Ela faz careta, tenta se acomodar no sofá e acaricia o ventre. Isso não é bom, conheço-a. Está sentindo alguma coisa e quer esconder de mim.
    — Geórgia! — grito em direção a cozinha, meus olhos estão arregalados de preocupação. Assim que a senhora entra eu ordeno a ela: — Ligue para Dra. Moore e diga que venha imediatamente.
    — Sim senhor — responde Geórgia antes de sair correndo.
    Jenny inspira e expira algumas vezes, como havia aprendido nas aulas de pré-natal. Inferno, meus filhos não podem nascer agora. Não em meio a tanta bagunça em volta deles, além disso falta mais de um mês para isso.  
    — Não precisava chamar a médica — diz ela, e me encara com olhar de reprovação.
    — Não? — praticamente grito. — Está quase dando a luz nesse sofá e ainda falta mais de um mês. O que eu tenho que fazer é levá-la para o hospital imediatamente.
    — Já está passando — Ela respira fundo.
    O desespero me domina. Como sempre Jennifer é teimosa. Todas as outras vezes eu até chego a achar graça e um pouco divertido vê-la tentando enfrentar-me o tempo todo, mas agora trata-se de sua saúde e de meus filhos. Que merda eu preciso fazer para que ela entenda isso?  
    — Eu prefiro ouvir isso da médica — insisto.
    Para o meu alivio ela concorda com a cabeça.  Dou graças à Deus, pois essa seria uma briga feia. De forma alguma abriria mão de que a médica a examinasse. Isso é indiscutível.
    — Jenny se você está bem poderia continuar a me dizer o que aconteceu? — pergunta Adam, colocando-se em frente a ela.
    Olho feio para Adam. A falta de sensibilidade dele é irritante. Ele ligou a porra do advogado automático e parece não querer sair.
    Caminho até a porta e fecho-a por precaução. Por mais que confie nas pessoas que trabalham na casa diante de um juiz as coisas mudam de figura. E quanto menos eles souberem será melhor. Volto para perto dela e começo a massagear sua coluna e em volta da cintura. Disseram-me nas aulas em que a acompanhei que ajuda a relaxar e anestesia a sensação de dor. Ela sorri para mim em agradecimento e eu continuo, concentrado na tarefa.
    — Sophia me ligou dizendo que estava com a Anne. No começo eu não acreditei, Anne estava na escola, então... — A voz dela falha, engole em seco, como se tivesse um nó na garganta. — Eu ouvi a voz de Anne ao telefone. Sophia disse que iria machucá-la — Ela respira. — Você sabe que ela era capaz de tudo Neil.
    Jenny vira-se em direção a mim com olhar angustiado.
    — Eu tive tanto medo — sussurra.
    Acolho-a em meu peito enquanto ela se despedaça em meus braços. Porra, a dor dela me dilacera. As imagens dela mais cedo, machucada e com medo invadem-me. E a ira volta a tomar conta de mim. Ainda é visível em seu corpo a briga que teve com Sophia. Sorte dessa cadela estar morta ou eu mesmo faria isso, tamanho o ódio que sinto nesse momento. Eu poderia matá-la sem dó, quase fiz isso algumas vezes e arrependo-me amargamente de não tê-lo feito.
    — Pode chorar querida — sussurro entre seus cabelos — Chore se isso lhe faz bem.
    Ela se aperto contra mim. Desejo protege-la de todas as coisas, de todo esse lixo que eu despejei na vida dela. Maldito dia que eu fui fraco demais para me manter longe. Se eu não tivesse sido um filho da puta egoísta, Jennifer estaria segura e feliz.
    — Eu me lembrei do que Peter disse sobre o meu celular, naquele dia na delegacia — Ela continua, com a voz fraca — Eu tinha certeza que você iria atrás de nós e que...
    — Deveria ter nos avisado Jenny — Adam responde por mim.
     — Eu sei... — Ela senta-se de frente a mim e segura meu rosto — Eu tinha certeza que me encontraria. Mas, não podia me arriscar que Sophia machucasse a Anne. Perdoe-me...
    Ela solta um sorriso angustiado. Perdoá-la? Porra! Eu deveria estar de joelhos aos pés dela.  É por minha causa que isso está acontecendo. Lágrimas voltam a nublar meus olhos. Meu desejo é fugir dali, leva-los para o mais longe possível. Para onde meu passado não pudesse nos atormentar. Seguro o rosto dela da mesma forma que havia feito com o meu. Tento passar através dos meus olhos o quanto a amo e o quanto eu sinto por tudo isso.
    — Eu sei — murmuro. — Talvez eu fizesse a mesma coisa. Não posso condená-la.
    Quem poderia? Quando amamos nos tornamos irracionais, matamos ou morremos em nome desse amor. Eu mataria ou morreria por ela, por Anne e os bebês em seu ventre, simples assim.
    — O que mais aconteceu lá? — pergunta Adam.
    — Eu cheguei e Anne não estava. Sophia queria apenas me atrair até sua casa. Nós discutimos e ela me atacou com uma faca...
    — Porra! — grito, agarrando-a pelos braços, ignorando a força com que aperto-os. As coisas só pioram a cada momento — Por que não me disse isso antes?
    — Eu ia contar — diz ela, contorcendo-se. Vejo que seguro-a com muita força e afrouxo os dedos em sua pele. — Quando chegássemos à Paris. Eu contaria tudo.
    — Continue Jenny — Adam me olha com impaciência e a incentiva continuar.
    — Nós duas brigamos eu... Eu... — sussurra, baixinho — Acho que a machuquei eu não me recordo muito bem, foi tudo tão rápido. Eu peguei a faca para afastá-la de mim, depois eu saí correndo. Só queria sair dali o quanto antes.
    O silêncio perturbador toma conta do ambiente.
    — Você trouxe a faca? — Adam caminha até nós dois — Você trouxe a maldita faca?
    — Não! — Jenny esconde o rosto contra meu peito — Joguei no apartamento e sai correndo.
    Adam esfrega o rosto algumas vezes e anda de um lugar a outro na sala. Ele resmunga algumas palavras incompreensíveis.
    — Isso não é bom — diz ele — Se você foi à única pessoa a vê-la com vida...
    — Eu não a matei Adam! — diz ela, desesperada — Como pode pensar isso!
    Outra contração, dessa vez mais forte a faz encolher-se. Revolto-me por dentro. Se a digitais dela estiverem na faca a polícia somara dois mais dois e ela estará perdida. Todas as evidencias apontam para Jennifer. Provar que é inocente será uma tarefa árdua, se não impossível.   
    — Só estou pensando com racionalidade — diz Adam — É o meu trabalho.
    Levanto-me e os encaro com olhar determinado, as mãos na cintura enquanto caminho pela sala. Tento raciocinar com clareza. O está sendo muito difícil.
    — Só nós três sabemos disso, ninguém mais precisa saber que Jenny esteve lá hoje, pelo menos por enquanto.
    — Não seja ridículo Neil — Adam encara-me abismado. — O porteiro deve tê-la visto entrar e sair ou alguém do prédio. Uma mulher grávida não passa assim, despercebida!
    — Então dê um jeito nisso! —grito furioso — Pague o que ele quiser!
    — Nem todas as pessoas são corruptíveis — alerta Adam. — Acho melhor pensarmos em uma linha de defesa segura...
    — Foda-se Adam! — vou em direção a ele.
    Jennifer me agarra. Acho que teme que eu desfira minha fúria contra ele. Na verdade, eu preciso mesmo disse, preciso descarregar toda essa raiva em alguém e Adam já me irritou o suficiente por hoje.  
    — Adam tem razão — Jennifer puxa-me para perto dela, tentando ganhar minha atenção — Mesmo que esse homem fique calado não irá adiantar.
    Esquadrilho seu rosto com olhar intenso e inquisidor.
    — O que você quer dizer? Contou a alguém?
    — Minhas digitais estão na faca, minha bolsa e o celular ficaram no apartamento de Sophia — murmura — Cedo ou tarde saberão que estive ali. 
    — Inferno! — gemo angustiado.
    Uma batida na porta nos interrompe. Caminho até ela, abrindo apenas uma pequena fresta.
    — Sim Geórgia.
    — Sr. Durant a Dra. Moore já está aqui.
    — Peça que ela entre em dois minutos.
    — Sim senhor.
    Encosto-me contra porta. Seguro um xingamento na ponta da língua. Onde está o homem frio e pragmático quando preciso dele. 
    — Conversamos depois — murmura para ela.
    As informações que despejou sobre mim, martelam em minha cabeça. Primeiro preciso absorver isso para arquitetar os próximos passos.
    — Pense em alguma coisa e rápido Adam — ordeno.
    Outra batida e afasto-me para abrir a porta. A médica entra e nos encara com simpatia.  
    — Meu Deus! Está uma loucura lá fora. Nunca vi tantos repórteres na minha vida.
    Troco um olhar com Adam e indico um canto da sala, a medica continua a tagarelar sem parar.
    — Como está querida? — caminha em direção a Jennifer, alheia ao ar carregado na sala. — Não ligue para o que dizem sobre o seu marido na televisão. As pessoas adoram fazer um espetáculo sobre a vida dos outros.
    — O que dizem sobre mim? — seguro-a pelo braço com firmeza.
    — Bobagens senhor Durant — ela esquiva-se de mim. — Não levem isso em conta. Deixe-me examinar minha paciente.
    Afasto-me para onde Adam está, novamente com um copo de uísque na mão. Eu gostaria de anestesiar meu corpo com uma dose, mas no momento preciso ter a mente focada.
    — Não temos saída não é? — pergunto em voz baixa — Vão acusá-la.
     — Temos que esperar —Ele dá um longo gole na bebida — Talvez o verdadeiro assassino apareça.
    Dou um sorriso de escarnio, francamente nem ele acredita nisso.
    — Vou levá-la para longe daqui— digo determinado — Isso tudo é culpa minha.
    — Não me venha com essa idiotice, Neil — Ele me encara com desgosto — A não ser que você tenha a matado, nada disso é culpa sua. Sophia é uma mulher detestável. Além disso, há aquele chantageador, se descobrimos quem ele é?
    — Andamos todo esse tempo sem nenhuma pista, Adam — murmuro, insatisfeito — Não vou arriscar a segurança de Jenny e dos meus filhos.
    — Não pode simplesmente fugir...
    — E por que não? — pergunto irritado.
    Ele começa a pontuar: — Não conseguirá passar despercebido com uma mulher gravida e a essas alturas a polícia já devem estar ligando os pontos. E a Anne? O que fará com uma criança pequena e uma gravida. Fora as empresas que entrarão em colapso.
    — Foda-se às empresas — ranjo os dentes —Elas não vão tirá-la da cadeia vão. Dê um jeito para sairmos do país ainda essa noite, por favor.
    — Porra, cara! —   diz ele, exasperado — Isso é suicídio. Pense bem, Neil.
    Olho em direção a Jennifer. Ela conversa com a médica, mas os olhos estão focados em nós. Ela é linda, mesmo pálida e abalada pelos últimos acontecimentos, continua linda. Encaro seus olhos angustiados e esperançosos em direção a mim.
    — Faça o que pedi — murmuro sem desviar os olhos dela — Ligue para Peter no hospital, ele saberá o que fazer.
    — Sabe que sua vida estará acabada não é? — Adam insiste.
    — Quando estiver perto de perder a pessoa mais importante de sua vida, volte a me fazer essa pergunta — murmuro. — Até lá faça o que eu pedi.
    Volto a olhar em direção a Jenny. A médica diz algo a ela. Seu rosto angelical fica coberto pela raiva e ela soca uma almofada. Ao encontrar meu olhar interrogativo ela solta um sorriso fraco. Sorrio de volta. Ela quer ser corajosa, eu preciso que seja.
    — Está tudo bem? — Aproximo-me de onde estão e pergunta a médica assim que vejo-a começar a guardar suas coisas.
    — Está sim — ela responde com um sorriso sincero — Um pouco de descanso, procurem evitar maiores aborrecimentos e tudo ficará bem.
    — Há algum problema se ela for viajar?
    Preciso tirá-la dali, mas não vou arriscar sua segurança.
    — Bem eu... — balbucia a médica incerta.
    — Não agora, claro — dou um inocente sorriso para ela, sento-me ao lado de Jennifer e aliso o braço dela — Mas você sabe, viajaríamos em algumas semanas, então...
    — Ah sim eu me lembro — ela sorri de volta — Acho que não há problema. Faça com que ela se cuide e quando isso tudo passar podem viajar, com certeza.
    — Obrigada doutora — acompanho-a até a porta e ouço as últimas instruções.
    — O que está acontecendo? — Jennifer pergunta assim que eu retorno.
    — Seu passaporte não estava na bolsa certo? — pergunto apreensivo.
    — Não, mas...
    — Ainda bem. De qualquer forma, acho que ele não terá utilidade — murmuro. — Creio que ainda temos algumas horas, pegarei tudo o que for preciso.
    — Neil, não faça isso! — Adam interpõe-se em seu caminho — Só irá piorar as coisas.
    — Já discutimos sobre isso Adam! Porra! ­— interrompo-o e aponto em direção a Jennifer — Olhe para ela! Acha que vai suportar tudo isso? Acha que eu vou suportar vê-la mofando em uma prisão? Eu já estive lá e eu garanto a você, Jennifer não vai sobreviver a isso. Não posso e não vou ver meus filhos nascerem em uma cela suja. Vamos embora e está decidido!
    As duas vezes que estive na delegacia, uma com Nathan após o suicídio de uma de suas vítimas e a outra por ter dado uma lição no desgraçado do Konrad, garantem-me que Jenny não sobreviveria uma semana, quanto mais meses e meses de julgamento que poderiam leva-la a nos de prisão. Não vou permitir isso. Se tiver que fugirmos pelo mundo sem direção eu o farei, contanto que estejam seguros comigo. Primeiro fugirei com ela, depois arranjarei uma forma de levar Anne. Encontrarei um lugar no mundo onde pudéssemos nos esconder. Afinal tantos criminosos, políticos e terroristas conseguiam fazer isso?
    Se eu não consegui isso, ninguém mais fará.
    O grito horrorizado que ela emite diante da cena que descrevi, me dá a certeza de que tomei a decisão certa.
    — Nada vai nos separar, tive a certeza disso no primeiro momento que a vi — murmuro emocionado — Eu prometo.
    — Eu farei o que quiser — murmura ela, abraçando-me — Irei onde quiser, mas não deixe que tirem meus filhos de mim.
    — Ninguém fará isso — sussurro abraçando-a forte — Eu não permitirei. Está pronta?
    Refiro-me em partir, recomeçar, esquecer o passado e todas as coisas tristes que ele representa.  

    —Sim!

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