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  • Toque de anjo - Gael - Capítulo Quatro




    Aproximadamente dez pares de olhos de anjos me encaram com desaprovação. O que estou prestes a fazer não é permitido, nem se quer cogitado. Nenhum anjo que eu conheça tentou interferir no destino dessa maneira, por mais tentador que pudesse parecer.
    — O destino pode ser mudado! —murmuro a eles com insistência. —E quanto ao livre arbítrio?
    Não possível que eles não enxerguem a contradição de tudo isso. Luna está correndo para a toca do lobo sem a mínima ideia do perigo que está correndo. Eu não estou disposto a correr o risco. Tantos anos protegendo-a, velando seus passos, induzindo as pessoas a sua volta para que tudo termine dessa forma drástica? Provocada por decisões egoístas e irresponsáveis de outras pessoas. Ela nem está consciente de seus próprios atos, inferno!
    — Gael está indo por um caminho perigoso — sibila Laoel.
    Não me importa as consequências que virão após isso. Eu sei o que é o correto e isso não quer dizer que seja o justo.
    — Venha comigo — digo a ela que me encara de forma estranha. Lembro-me então que não pode entender o que eu falo.
                Atrás de nós os carros começam sua corrida em alta velocidade. É obvio que farão um racha. Já vi isso muitas vezes, quase sempre terminava de forma trágica. Carros e bebidas um caminho para a morte.  
                — Você não vem Luna? — Cherry passa por ela, agarrada a um garoto, em suas mãos duas garrafas de cerveja.
                — Acho que não... — diz ela em uma voz grogue, apontando um dedo em minha direção. — Prefiro ver o que esse lindo homem tem a me oferecer.
                — Gata você está muito louca mesmo — o rapaz ri abrindo a porta do motorista. — Está até vendo coisas. Que merda deram para ela?
                — Cala a boca Patrick, talvez seja melhor ficar com ela— diz Cherry de forma apreensiva.
                — Eu vou ficar bem — murmura Luna sem desviar os olhos de mim. — Vão e se divirtam.
                — Você tem certeza amiga?

                — Todos já foram Cherry — resmunga Patrick batendo a porta do carro. — Você vem ou não?
    — Vá — gesticula Luna com as mãos. — Ficarei bem. Estou com meu lindo anjo da guarda.
    O sorriso cálido em direção a mim dá-me a certeza que tomei a decisão certa. Ela não está pronta para partir ainda. Cherry entra no carro e desejo que ela tenha sorte.
    — Maluca! Volte para casa então. Olha esses raios acredito que vira uma tempestade em breve. — Cherry corre até o carro. — Qualquer coisa me liga. Ah, tome um banho frio. Não sei por que deixei que bebesse tanto.
    — É meu aniversário esqueceu? — grita Luna para o carro que sai em disparada.
    Além de algumas pessoas jogadas na areia da praia, somos os únicos ali. Como ela não entende o que eu digo eu faço sinal para que me acompanhe.         Chegamos às pedras do outro lado após muitas quedas, passos vacilantes seguidos de alguns xingamentos impróprios da parte dela. Cansada e ofegante Luna se encosta a uma das enormes paredes de pedra que temos ali. Levei-a o mais longe possível da casa e todas as suas armadilhas perigosas. Eu havia interferido em seu destino e tenho certa apreensão no que possa acontecer a seguir. Não há justificativa para o que fiz, eu sei. Só que que em hipótese alguma eu poderia suportar ter que olhar seu corpo sem vida em um daqueles carros. Tudo por que ela havia sido imprudente uma vez em sua vida. Não, isso não é certo!
    Passei séculos vendo jovens desafiarem vida e morte apenas por emoção do momento, muitos tiveram mortes trágicas, outros sobreviveram, mas nem sempre ilesos.
    Não é justo com ela, não é justo comigo. Enquanto eu tiver o que chamo de vida não deixarei que maldade do mundo a toque. Aqueles jovens irresponsáveis não colocarão fim a mais uma vida inocente.
    As horas correm em uma velocidade lenta para mim como sempre, para ela, a noite vira madrugada que vira dia. Os primeiros raios de sol iluminam seus cabelos fazendo com que brilhem como ouro. Desejo tocá-los.
    — Gael! —o farfalhar de asas às minhas costas avisa-me que a hora de lidar com as consequências de meus atos havia chegado. —Venha comigo!
    —Podemos esperar que ela acorde? — Eu ainda não estou pronto para deixa-la, gostaria de olhar em seus olhos dourados mais uma vez e ter a certeza de que está bem. A respiração tranquila e suave me indica que sim, mas nada se compara ao brilho cálido de seus olhos conectados aos meus.
    — Não há nada mais que possa acontecer a ela, não é mesmo? — murmura Gabriel com indiferença. — Siga-me!
    Não há nada que possa acontecer a ela... Exceto que talvez jamais volte a vê-la novamente. Desejo é enfrenta-lo e dizer que não irei a lugar algum, todavia as consequências desse ato podem ser tão desastrosas quanto a de ter interferido em seu destino. Com certeza, minhas ações já são de conhecimentos de céu e inferno. E não acredito que apenas os anjos e arcanjos estejam interessados no que fiz.
    Agacho-me em frente a ela e memorizo cada detalhe de seu rosto e desejo não ser a última vez que o contemplo. Gostaria de poder tocá-la, saber se seus cabelos são tão macios como aparenta e sua pele é suave como seda.
    Deslizo os dedos a alguns centímetros de seu rosto, como se esse simples gesto pudesse tocar sua alma. Momentos difíceis estariam esperando por ela e meu maior pesar é não estar aqui para protegê-la como tenho feito por todos esses anos.  
    — Perdoe-me — sussurro antes de partir. — Eu voltarei.
    É uma promessa que não importa o que aconteça eu vou cumprir. De algum jeito encontrarei uma forma de voltar para meu posto ao seu lado. Nossa história não termina aqui. Essa certeza me conforta e me incentiva a continuar e enfrentar minha punição, qualquer que seja ela.
    Ficar isolado em um paraíso não pareceria um castigo para qualquer pessoa, para mim foi o mais terrível deles. Dias em meu mundo significam meses no dela, meses em anos e, todo esse tempo sem que eu possa vigiá-la e guiar seus passos.
    Anjos não sabem o que tristeza, dor, alegria ou qualquer sentimento que movem os humanos. Essa é uma dadiva ou castigo que só eles conhecem. Mas se pudesse descrever meu espirito nesse momento, diria que se encontra em uma tristeza profunda e solidão. Desde o apocalipse há brechas em minha alma para diversas e confusas sensações, talvez tenha sido isso que me aproximou da humana. Enquanto muitas vezes, sentimentos negativos me levaram a sentir desprezo, raiva e repulsa por quase todos os eles, Luna me traz a inexplicável necessidade de estar perto dela e protege-la, sempre.
    Estar longe é angustiante, me sinto preso em uma jaula de ouro, embora esse paraíso ao meu redor seja extraordinariamente perfeito, toda essa beleza não toca minha alma. Abdicaria de tudo isso por olhos dourados e inocentes.
    — Ainda pensando na humana? — diz Amitiel, o anjo da verdade. Ele é o protetor do plano espiritual a qual me encontro, ninguém passa por ele se seus sentimentos mais profundos não forem honestos e puros.
     —Ela tem nome — murmuro seco. —Luna.
    — Luna — repete ele com brandura. — O que há de tão especial nessa humana?
    Essa é uma resposta que nem eu mesmo posso fornecer. Há coisas nesse mundo que não há explicação, e minha relação com Luna é uma delas.
    — Eu tenho boas notícias — continua ele, mediante meu silêncio e após desistir de sondar minha mente obstruída. Esse é meu escudo, meus pensamentos e sentimentos pertencem somente a mim e, mesmo que contasse, ele não entenderia, nem mesmo eu compreendo. — Embora eu ache que você deva permanecer no plano espiritual comigo por mais tempo, você já pode ir Gael.
    — Tem certeza? ­— murmuro incerto. 
    — Acho que ninguém mais tem certeza de nada — suspira complacente. — Vá e veja com seus próprios olhos que a vida segue seu próprio curso quando não há interferências, boas ou ruins.

    Observo a cidade do alto da colina enquanto milhares de questões martelam em minha cabeça. Onde ela está? O que fez durante todo esse tempo? Estaria viva e feliz? Uma inexplicável certeza me diz que sim, pelo menos sobre estar viva. Enquanto eu preciso apenas fechar os olhos e imaginá-la, minhas asas me guiam até ela. Sinto sua presença cada vez mais perto a paz que sempre me governa quando estou a seu lado infiltra-se em minha alma.
    Permaneço de olhos fechados mesmo com a certeza que já dividimos o mesmo espaço. Não por receio vê-la ou algo semelhante, mas para desfrutar desse magnetismo que nos envolve sempre estamos próximos. Com ela eu tenho meu próprio éden.
    — Com os poderes concedidos mim, perante a lei dos homens eu os declaro casados.
    Casados? As palavras libertam-me do estado ébrio que estou. Abro os olhos e me deparam com a imagem que apunhala meu peito. Se há um coração ele está dilacerado. Promessas, certezas, sonhos tudo despedaçado diante de mim e do que vejo.
    Casados! Eles estão casados! O que está acontecendo? Quando tempo se passou? Eu nem ao menos sei se esse homem será capaz de fazê-la feliz. A esperança e sorriso estampado em seu rosto rasgam meu peito em inúmeros pedaços como folha de papel.
    Seria um reencontro perfeito se a dor do desapontamento, incredulidade e solidão. Toda a minha vida parece se esvair diante de mim. Por todo esse tempo acreditei que a traria para mim. Por anos vi o sol se pôr e nascer esperando por algo que jamais irá acontecer.
    E agora a vejo linda em seu vestido branco de corte simples. A pequena boneca havia se transformado em uma mulher deslumbrante e encantadora.
    — Gostaria que os pais de Cherry estivessem aqui — murmura ela com tristeza.
    — Não sei por que ainda se importa com eles — diz o homem com desdém. — Se a culpam pelo acidente que a matou. Esqueça-os.
    — Eram como pais para mim Guilhermo, de certa forma a culpa foi minha, eu o invoquei aquele dia — diz ela com uma amarga. — Meu pai tinha razão afinal de contas.
    Não! —urro desesperado em direção a ela. Eu não quis aquilo. Nunca quis magoá-la. —Luna!
    Vejo em suas palavras que não a perdi para esse homem apenas eu a perdi pelo o que eu significo ou represento. Nunca senti tanto desprezo pelo que sou como agora.
    —Vamos! —Guilhermo segura-a pelo braço e guia para fora do cartório. — Parece que vai cair um tremendo pé d’água, não quero perder nosso voo.  Pretendo iniciar nossa lua de mel o quanto antes. Foram quase dois anos cotejando-a sem sucesso e não quero perder nem mais um minuto para tê-la em minha cama.
    — Hraah... — Outro trovão ensurdecedor rasga o céu após meu grito de fúria.  Paro a sua frente, ainda há esperança em minha alma. E eu desistiria de toda a eternidade se por um breve momento eu pudesse tocá-la. Infelizmente esse é o mais próximo do paraíso que posso alcançar. —Luna.
    Os dois seguem caminhando abraçados. Não me viu. Ela não me viu. Meu mundo está finalmente destruído.
    — Gael!
    Dor! Eu não deveria sentir isso. Ainda assim, dor e desolação é tudo que tenho.
    — Tire-me daqui Gabriel — cedo a pressão em meus joelhos e desabo. — Por favor!




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