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  • Caminhando entre espinhos - Capitulo 7



    Má sorte. Karma. Azar. Não sei se essas coisas realmente existiam, mas desde o encontro trágico com o Caveira, parecia que minha vida vinha desmoronando.
    Para começar, em uma das infinitas discussões entre Ana e Priscila, minha amiga deixou escapar que eu a vi saindo do quarto de um dos hóspedes. Fui atacada pela garota irada, no refeitório, e nós duas fomos parar na sala da tia dela. Recebi uma advertência, a primeira desde que comecei a trabalhar no hotel. 
    Eu até tentava evitar a Priscila o máximo que eu podia, mas a garota nunca deixava escapar a oportunidade de me provocar.
    — Como todos sabem, haverá uma première na cidade — disse Marta, a gerente.
    Estávamos em fila, ouvindo as instruções daquela semana. O hotel estava lotado de pessoas da alta sociedade, modelos e até mesmo uma atriz famosa em razão da tal première que haveria na cidade nesse fim de semana.
    Um filme tinha sido gravado no Rio, e esse evento seria muito importante.
    — Nós queremos um serviço de qualidade e excelência —  Marta olhou para mim, depois para Priscila, em uma advertência muda — Não preciso dizer que brigas, discussões e qualquer confusão com hóspedes e qualquer funcionário terá a penalidade de justa causa, tendo o cliente razão ou não.
    Marta continuou falando, e Priscila olhava para mim de uma forma bem estranha. Rapidamente, eu percebi que se quisesse manter meu emprego precisaria ignorar as provocações dela.
    — Voltem aos seus trabalhos.
    Fui a primeira a sair. Decidi não tirar as pausas que eu tinha direito e assim evitar encontrar com Priscila pelas imediações do hotel.

    ***
    O dia foi bem cansativo para mim. Já estava de pijama, deitada no sofá, com um prato de comida em meu colo, vendo TV, quando Ana surgiu na porta.
    — Como estou? — ela deu um rodopio, fazendo a saia do vestido rodar.
    Ana tinha longos cabelos negros, que foram presos em um rabo de cavalo. Não era nem magra nem cheinha demais, como Paulo dizia, era gostosa. Ela é branquinha, mas tinha a pele bem bronzeada devido a longas caminhadas da faculdade até o hotel, no sol escaldante do Rio de Janeiro.
    — Linda! — o vestido era branco, sem mangas, e Ana estava realmente muito bonita.
    — Eu acho que o Paulo quer dar um passo a mais na relação — ela ficou vermelha quando falou isso — Sabe o que quero dizer.
    Ah, mal sabia minha amiga que o passo que Paulo queria dar ia além de sexo, como ela imaginava. Embora Ana não fosse a virgem empacada como eu, ela era muito romântica. Tivera apenas um namorado que a fizera sofrer demais sendo um mulherengo-babaca.
    — Faça apenas o que achar que deve — disse a ela.
    — Esse é o problema, eu acho que devo — ela sorriu — Eu quero. Agora tenho que ir, amanhã conto tudo.
    Voltei para o meu prato quase frio de comida e voltei minha atenção para a novela. Era o máximo de romance que eu teria naquela noite.



    Caminhando entre espinhos - capitulo 6



    Manter a concentração no trabalho não era algo que estava sendo muito fácil. A situação no Juarez só vinha piorando, ao ponto que éramos notícias quase diárias nos jornais. Me preocupava deixar minha mãe praticamente sozinha com minha tia e o marido alcoólatra dela, mas eu tinha o que fazer, precisava trabalhar.
    Fechei a porta do quarto que tinha acabado de limpar e reorganizei os materiais no carrinho de limpeza, no corredor.
    Passei reto por uma das suítes quando avistei a placa “não incomode” e fui para a próxima da minha lista. Ouvi gemidos e sussurros atrás de mim.
    — Eu saio da recepção às sete — disse a mulher às minhas costas.
    Fiquei surpresa ao reconhecer a voz e me virei. Momentaneamente, Priscila ficou surpresa ao me ver, depois me encarou com ódio.
    Ela estava saindo com um dos hóspedes do hotel, e isso era uma falta gravíssima. Com toda certeza seria demitida por isso.
    — Essa noite, não — o homem alisou a bunda dela, deu um beijo em seu pescoço e retornou ao quarto.
    Estava paralisada e sem saber como reagir. Eu não sabia se entrava no quarto e cuidava do meu trabalho ou alertava àquela inconsequente de que o que fazia poderia colocar seu emprego em risco.
    Sair ou se envolver com qualquer hóspede do hotel era falta gravíssima. Com toda certeza seria mandada embora, desperdiçando a oportunidade que a tia ofereceu a ela por um ricaço, que simplesmente nem sequer lembraria o nome dela quando deixasse o hotel.
    — Veja bem... — ela se aproximou de mim e cravou as unhas em meu braço — Nada disso é da sua conta, portanto, não viu nada, entendido?
    Puxei o meu braço e a encarei, firme. Eu não iria me envolver naquela história. A garota não era minha amiga para necessitar de meus conselhos, nem ao menos sabia ser uma pessoa simpática e gentil.
    — O que você faz é errado — murmurei — Mas isso é problema seu.
    Sem dizer mais nada, entrei no quarto e fechei a porta.
    Não gostava de pensar assim, mas a vida era tão injusta, às vezes. A garota tinha conseguido o emprego que há meses eu vinha desejando e simplesmente desperdiçava com homens que a tratariam como uma prostituta.  
    Repito que aquilo não é problema meu, coloco meus fones de ouvido e volto a me concentrar no trabalho. Na pausa para o almoço, conto a Ana o que aconteceu e a faço me prometer não contar a ninguém.

    ***

    Eu tinha acabado de chegar à minha rua, quando ouvi alguns assovios atrás de mim. Optei por ignorar, certamente eram alguns adolescentes querendo atenção, e hoje eu estava cansada demais para bancar a simpática.
    Paralisei quando senti a mão em minha cintura e logo depois recebi um beijo estalado na bochecha.
    — Mas que garota difícil, hein! — Fernando se afastou de mim antes que eu tivesse uma reação automática de defesa e atirasse minha bolsa pesada em cima dele.
    — Que susto você me deu, Fernando! — beijei-o de volta e cumprimentei o seu primo atrás dele — Oi, Paulo, se veio procurar a Ana, acho que ainda deve estar trabalhando no hotel.
    Os dois tinham começado a ficar sério, e acredito que não deve estar muito longe para a relação evoluir. Estava feliz pelos dois. Paulo era um cara incrível e Ana... bom, minha amiga era uma pessoa maravilhosa. Eu torcia muito pela felicidade dos dois.
    — Na verdade, eu vim falar com você — disse ele e olhou em direção à minha casa — Podemos conversar?
    — Esse é o momento que eu me retiro — disse Fernando, jogando um beijo para mim, descendo a rua em seguida.
    Nós fomos em direção à minha casa. Minha mãe ainda estava com minha tia, então eu tinha alguns minutos para ouvir o que Paulo tinha a me dizer.
    — Você toma café? — perguntei, ao deixar minha bolsa na primeira cadeira que encontrei.
    — Tomo, sim — ele respondeu e fomos em direção à cozinha.
    Peguei uma panela embaixo da pia, enchi de água e coloquei para ferver.
    — Então? — indiquei uma cadeira para que ele sentasse e me acomodei na outra extremidade.
    Paulo mexeu com o bordado de um pano de prato em cima da mesa, antes de criar coragem para me encarar.
    — Você deve ter notado que Ana e eu estamos bem envolvidos — ele disse, meio encabulado — Eu gosto muito dela.
    Faço uma ordem mentalmente de registrar tudo o que ele fala, pois sei que minha amiga irá querer saber todos os detalhes.
    — Ana é uma garota maravilhosa.
    — Um pouco nervosinha — disse ele, e nós dois rimos. Aquilo era a mais pura verdade — Mas sou louco por ela. Por isso que estou aqui...
    Ele pigarreou e voltou a mexer no bordado do pano. Aproveitei que a água começava a ferver e dei um tempo para que Paulo se sentisse mais à vontade. Os homens geralmente têm mais dificuldade de expressar seus sentimentos, e percebia que, com ele, não era diferente.
    Achei fofo.
    — Gostaria que me ajudasse — ele aceitou o copo de café que entreguei a ele — Queria que nossa relação evoluísse, você entende?
    — Você quer pedir a Ana em namoro? — me segurei para impedir um grande sorriso.
    — Vocês são melhores amigas...
    Na verdade, erámos como irmãs.
    — E conhece Ana melhor do que eu, então pensei que poderia me ajudar. Eu queria fazer algo especial.
    — O que, exatamente, você pretende?
    Ele mordeu os lábios enquanto pensava.
    — Acho que jantar e flores.
    — Nenhuma de nós duas já ganhamos flores — confesso a ele, que arregala os olhos — Ana irá amar. Dizem que toda mulher gosta de rosas, mas acho que você deveria dar algo diferente, como tulipas ou orquídeas, por exemplo.
    Enquanto eu falava, Paulo digitava no celular, provavelmente anotando tudo o que eu dizia.
     — Tem um restaurante perto do trabalho, serve comida italiana — informei a ele — A gente sempre quis comer lá, mas nunca deu. Nossa, dá para sentir o cheiro da rua! Também não é nada muito chique e caro, mas a Ana vai amar.
    — Certo! Flores, restaurante italiano... e quanto ao presente?
    Uau!
    Suspirei mentalmente. O homem realmente queria agradar. E confesso que senti um pouquinho de inveja da minha amiga. Não uma inveja má, mas aquela do tipo que te faz pensar se um dia terá algo parecido.
    — Ah — bati palma, animada — Tem uma senhora no trabalho que vende bijuteria. A Ana viu uma, no mês passado, que ela amou — fiz uma careta antes de continuar: — Custa uns sessenta reais. Ela não pôde comprar na época porque tinha que pagar alguns livros da faculdade. O aniversário dela está chegando. Até ia perguntar à mulher se ela parcelava para mim.
    — Então será essa — ele sorriu para mim — Desculpa roubar seu presente.
    — Tudo bem — dei de ombros — Encontro outra coisa para ela.
    — Você é uma boa amiga — ele se levantou e o acompanhei até a porta.
    — Só a faça feliz, tudo bem?
    — Será minha meta — ele sorriu e me abraçou — Muito obrigada.
    Eu gostava do Paulo. Sentia que ele era uma daquelas pessoas que surgiam do nada em nossas vidas e vinham para ficar.
    — É cheia de moral comigo, mas fica que nem uma cachorra no cio com o primeiro otário que aparece na quebrada!
    Ao invés de soltar o Paulo como deveria, me agarrei mais a ele. Ergui o olhar e vi o Caveira com dois homens ao lado dele.
    — Tira a mão dela, seu comédia!
    Afastei Paulo de mim. Não quero que Caveira pegue birra dele, ainda mais agora, que ele e Ana terão um compromisso sério. Um dos motivos de eu nunca me envolver muito sério com alguém era essa fixação que Caveira tinha comigo. No Juarez, ninguém tinha coragem de se aproximar.
    Eu só ficava com rapazes de longe da favela, e não posso dizer que eu tinha uma vida agitada longe daqui.
    — Já disse, tira a mão dela, seu comédia! — Caveira veio bufando em nossa direção, e só então percebi que Paulo mantinha a sua mão presa à minha cintura.
     — Para com isso, Caveira! — me coloquei entre os dois — Paulo é só meu amigo. Ele namora com a Ana.
    Odiava ter que dar alguma explicação ao Caveira, mas o que eu poderia fazer com um traficante perigoso, que se achava o meu dono? Eu morava e vivia ali, tinha que dançar a música como era tocada.
    — Tá querendo passar o rodo — disse Caveira, ignorando minhas palavras, encarando Paulo olho a olho.
    — Fabiana já disse o que aconteceu.
    Senti o meu sangue gelar. O Paulo não conhecia o homem que enfrentava. Caveira daria um tiro na cabeça dele e sairia sorrindo, como se tirar uma vida não significasse nada para ele.
    Realmente, não significava.
    — Acha que é só chegar na quebrada e pegar nossas mina — disse Caveira, erguendo os braços, olhando para seus comparsas em seguida — Nois deixa isso rolá?
    Os homens negaram e começaram a falar entre si. Fui afastada para o lado, e nos segundos seguintes, os dois homens seguraram o Paulo enquanto Caveira desferia socos nele.
    Comecei a gritar e pedir ajuda. Algumas pessoas saíram de casa e pararam na rua, mas ninguém se atreveria a se meter.
    — Para com isso! —  agarrei o braço de Caveira — Por favor.
    Ele soltou o Paulo, não porque eu pedi, mas porque provavelmente estava satisfeito com o que tinha feito. O objetivo era dar um aviso.
    — Eu sempre estou de olho em você, Fabi — disse Caveira, massageando os dedos — Aprende isso.
    Poderia ter alguma retaliação, mas não consegui esconder o ódio que eu sentia. Caveira e seus comparsas saíram dando risadas. Achando que eram grandes valentões, mas para mim eram apenas covardes.
    — Paulo? —  corri até ele e ajoelhei ao seu lado, no chão — Você está bem?
    Tinha um grande medo de tê-lo assustado e ter estragado a relação entre ele e minha amiga. Jamais me perdoaria se isso tivesse acontecido.
    Paulo levou a mão à boca e cuspiu sangue no chão antes de me encarar.
    — Estou bem — ele ficou de pé — Sei como funcionam certas coisas por aqui. Já morei no morro, não se preocupe.
    Soltei o ar, aliviada, e o estudei de perto. Paulo era um homem forte. Tirando os lábios cortados e o olho que começava a ficar inchado, estava bem.
    — Não conta isso para a Ana — disse ele.
    Eu sabia que ele me pedia isso não por ter apanhado deles, mas porque conhecíamos minha amiga. Ana ficaria furiosa e iria até o Betinho, reclamar do irmão. Tinha feito isso muitas vezes, por mim. E não seria a primeira vez que escondia coisas como essas de Ana.  
    — E como irá explicar o... — indiquei seus machucados, e ele sorriu.
    — Assalto no centro da cidade. Parece bem convincente para mim.
    Infelizmente, o Rio de Janeiro, assim como muitos lugares do país, tinha sérios problemas com a violência urbana. Não seria nada difícil de Ana acreditar.
    — Mas as pessoas vão comentar sobre isso, os vizinhos.
    — Conta para ela antes e diz que era outro amigo seu.
    Poderia dar certo. Paulo não tinha subido o morro muitas vezes, e Ana sabia que Caveira sentia ciúmes de qualquer homem que se aproximasse de mim. Encontraria um jeito de enrolar a história.
    — Acho melhor você descer — disse a ele, antes de voltar e fechar minha porta — Vou te levar, só por segurança.
    Paulo parecia que ia me dizer alguma coisa, mas acabou se calando. Pelo olhar piedoso, entendi o que ele queria ter dito a mim. Estava metida em uma grande enrascada, mas não era de hoje que eu sabia que minha vida estava em risco.
    Descemos o morro calados, e assim que ele atravessou a avenida, em direção à cidade, fiz uma prece para que ele chegue em casa em segurança.




    Caminhando entre espinhos - Capítulo 5



    O dia hoje não tinha sido muito bom. O céu estava nublado, e tirando alguns surfistas e outras pessoas caminhando, a praia estava praticamente deserta.
    Tudo o que eu tinha conseguido foram suados oitenta reais e, sinceramente, em um dia como esse, deveria me sentir agradecida.
    — Você fica aqui hoje até que horas, Paulo? — perguntei, quando ele se juntou a mim no posto salva-vidas.
    — Embora a praia esteja vazia, tenho que cumprir o meu turno. Vou até as cinco, por quê?
    — A Ana vai dar um churrasco na casa dela — disse, entregando a ele o que tinha sobrado das tortas que não vendi — Com direito até a Karaokê. Ela pediu para chamar você.
    — Vocês moram no Juarez, né? — perguntou, antes de abrir uma embalagem e dar uma grande mordida na torta.
    Afirmei com a cabeça. Talvez isso fosse um problema para ele, nem todo mundo gostava de subir o morro.
    — Tenho um primo que mora ali, já fui algumas vezes. É só me dizer onde fica a casa, porque o morro é grande.
    — Liga para a Ana — sorri e entreguei o número do celular novo dela — Ela pode explicar melhor a você.
    Certo, agora eles estavam oficialmente conectados e meu papel de cupido tinha acabado ali.

    ***

    Sinceramente, a última coisa que eu tinha vontade era de ir a uma festa, mesmo que contasse com apenas a presença de amigos e conhecidos. Mas quem tinha inventado aquele churrasco foi a Ana. Ela disse que era em comemoração por ter tirado ótimas notas e fechado bem o semestre na faculdade, mas a verdade mesmo, era que ela queria levantar meu ânimo.
    Assim como suspeitei, a vaga de recepcionista tinha sido dada a Priscila, sobrinha da gerente. Sequer me atrevi a contar a Ana o que exatamente aconteceu na entrevista. Ela já estava indignada que a nova garota na recepção tinha sido beneficiada e não poupava em continuar tirando proveito disso. A garota já estava causando, arrisco dizer que praticamente ninguém gosta dela. Como nossos caminhos não se cruzam, consigo evitá-la o máximo que posso.
    As poucas vezes que cruzei com ela, Priscila me lançou um ar de superioridade, que eu ignorei. Ela só estava ali porque a tia a colocou, mas quero ver por quanto tempo aquilo duraria, se ela não se esforçar realmente.
    — Olha só — Ana me encontrou na calçada assim que cheguei próximo à casa dela — o Paulo virá e ainda trará o primo. Deve ser tão gato quanto ele.
    — Ah, que ótimo — murmurei. Sabia que ela iria me empurrar para cima do garoto e querer fazer de nós um quarteto feliz.
    — Vem! — ela agarrou minhas mãos e me arrastou para os fundos do quintal — Meu pai já ligou o DVD e está testando o som.
    Cumprimentei algumas primas e tia dela, assim como algumas antigas amigas da escola e da comunidade que tínhamos em comum. Outras pessoas foram chegando, trazendo alguma coisa, e rapidamente a mesa ficou empilhada de comida. Eu tinha feito uma torta a mais, e antes de ir para a praia deixei com a Dona Leda.
    Houve disputa pelo Karaokê. Era uns querendo forró, outros pedindo por samba. Os primos mais novos de Ana queriam mesmo era um funk proibidão, mas tiveram que se contentar com alguns mais leves. Eu confesso, estava me divertindo muito.
    — Quando o Paulo chegar, você canta Whitney Houston. — disse Ana, com um olhar sonhador, e me perguntei quantas batidas de morango ela já tinha bebido — Quero dançar coladinho com ele.
    — É, mas pega leve nisso aí — apontei o copo quase vazio nas mãos dela — Ou quando ele chegar, a única coisa que fará será dormir.
    — Só se for no colo dele — ela riu e me puxou para um samba que tinha começado a tocar.
    Nesses pequenos momentos eu me dava conta de que, apesar de todas as batalhas do dia a dia, os desapontamentos da vida, eu era feliz.

    ***
    Para minha sorte ou azar, eu já não conseguia determinar, o primo do Paulo era totalmente e assumidamente gay. Apesar disso, formamos uma dupla e cantamos não apenas uma música de Whitney Houston, mas várias.
    Cantar era algo que me animava.
    — Você deveria ir a um desses programas de TV — disse Fernando, quando descemos uma pequena elevação do quintal da casa de Ana — Sua voz é muito bonita. Quando cantou I Will Always Love You, nossa, menina, até arrepiou meu braço.
    Nós rimos e sentamos em cima do que sobrou de uma caixa de papelão, para observarmos a favela. No horizonte, dava para ver o mar.
    — Um espetáculo, garota. Hum... hum... — ele brincou — Veja, eu até gravei.
    — Não é para tanto. Gosto de cantar, mas não para pessoas que não conheço. É só um hobby, mesmo — sorri, pegando o celular para ver o vídeo que ele fez de mim cantando — Não vá colocar na internet, morreria de vergonha.
    — Desperdício de talento, mas tudo bem — ele pareceu decepcionado — Onde aprendeu a cantar assim?
    — Na igreja. Quando era menor, fazia parte do coral.
    — Fazia? Não é mais a garota da igreja, não?  
    — Depois que meu irmão morreu, minha mãe não tem tido muita fé... — aceitei o copo de bebida que ele me dava e lembrei daqueles momentos da minha infância — Não tenho ido tanto à igreja como antes, mas acredito que a fé está dentro de nós, onde estivermos, vai conosco.
    — Que profundo isso — disse ele, encarando a paisagem à nossa frente — Até que é bonito aqui. Basta saber como olhar.
    Conversamos sobre outras trivialidades. Os sonhos dele, os meus. Ana e Paulo se juntaram a nós e ficamos de marcar um programa, nós quatro. Não era o quarteto que Ana esperava, mas eu achava que mesmo assim seria legal.
    — Acho melhor ir para casa, minha tia está com a minha mãe, mas não quero abusar da boa vontade dela — disse a eles, depois que Fernando também se despediu rumo a outra festa, provavelmente mais a cara dele do que a nossa.
    — Mas já? — Ana resmungou.
     — Amanhã também é dia de trabalho.
    Já passava das nove horas, e eu duvidava que a festa estivesse para acabar, pelo menos para eles.
    — A gente acompanha você até sua casa — disse Ana.
    Olhei para ela, intrigada. Minha casa ficava uma viela antes da dela, menos de cinco minutos dali. Foi então que eu me toquei, que o que ela queria mesmo era uma desculpa para dar uma escapada de casa com Paulo.
    Depois de agradecer e me despedir de minha tia, fui até o quarto que dividia com minha mãe, para ver como ela estava. Quando voltei para a sala onde estava o casal, Paulo falava ao telefone, então puxei Ana para a cozinha.
    Nosso barraco não era grande banheiro, quarto, sala e cozinha  as paredes não tinham reboco e as telhas eram reaproveitas. Uma casa simples como a maioria que tinha ali, mas era meu lar.
    — Estou mesmo cansada, mas vocês podem ficar aqui um pouco mais — sussurrei.
    — Eu agradeço a oferta — Ana suspirou, admirando de longe o ficante, novo namorado ou sei lá o que eles tinham decido ser — Mas meu pai surgiria aqui com a espingarda na mão.
    Não duvidava que aquilo pudesse acontecer. Tio Rômulo —  o chamava assim desde criança —  era um homem bom, mas Ana era a única filha e ele estava sempre de olho nela.
    Acompanhei o casal até a porta. Eles mal alcançaram a rua, quando o tumulto surgiu diante de nós. Cerca de uns vinte caras, entre eles meninos, adolescentes ainda, desceram o morro com fuzis e outros tipos de armamentos pesados nas mãos.
    — Isso é tiro? — Paulo perguntou, quando voltamos correndo para minha casa e sentamos no chão.
    — Fogos de artifício que não é — disse Ana, calando-se quando um novo pipoco começou. Ela não queria ser babaca, só estava apenas nervosa — Meu Deus!
    Os tiros pareciam pipocas estourando no micro-ondas. O som de passos apressados se misturava à gritaria na rua.   
    Pa! Pa! Pa!
    — Lucas... — minha mãe gemeu, e passei a cantar baixinho uma música gospel que ela gostava, para acalmá-la.
    Em tese, e apesar de ser comandado por um traficante conhecido, o Juarez tinha sido um morro relativamente tranquilo. Mas fazia alguns dias que Betinho vinha sendo desafiado pelo chefe da favela do Buraco.
    Já tinha morrido gente inocente com as trocas de tiros. A polícia nunca vinha até aqui durante e até mesmo após os confrontos entre os traficantes.
    Passei a viver com medo de sair de casa, e só fazia mesmo porque era preciso. As pessoas assistem ou leem jornais que falam da guerra na Síria ou em qualquer um desses países no mundo, mas se esquecem que diariamente pessoas são mortas no Brasil pela violência. Seja no morro como o meu, dominado pelo crime, como em uma cidade grande, igualmente abandonada por seus governantes.
    Aqui, a gente tinha nossa própria guerra e sem nenhuma esperança de ter onde se refugiar.
    Fiquei grata por Paulo estar com a Ana e corri para o quarto ver minha mãe. Dei um comprimido para ela se acalmar e deitei ao lado dela, dizendo que tudo ficaria bem.
    Quase meia hora depois, em meio àquele inferno, o tiroteio cessou. Era impressionante como tudo ficou silencioso. Eu não arriscava me mover de onde estava.
    Alguns minutos depois, saltei de susto quando batidas fortes na porta fizeram meu coração disparar. Ouvi a voz do seu Rômulo e a da Dona Leda na sala, falando com a Ana. Ela surgiu na porta, avisou que Paulo ia passar a noite na casa do primo. Nós morávamos literalmente na entrada da favela, seria arriscado ele andar pela favela depois de tudo o que aconteceu.
    Os pais de Ana insistiram para que fôssemos para a casa deles, mas garanti que minha mãe e eu ficaríamos bem. Fiquei tentada a ir, mas, no fundo, sabia que tinha que lidar com a situação sozinha. Os dias de paz pareciam estar acabando, e, de alguma forma, eu tinha de me adaptar. Não era o primeiro tiroteio que enfrentávamos, e com certeza não seria o último. 

    Caminhando entre espinhos - Capitulo 4


    Retirado 18/10/17

    O Preço de um amor

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